Vidas em contos

(por Rita Prates)

Mon Amour

Maitê destoava do grupo de professores devido ao seu jeito descolado de ser. Era autêntica, livre, solta e alegre, mesmo naquele ambiente de cordialidades falsas, disputas de ego e de saber. Os alunos adoravam as suas aulas, o que causava certo desconforto nos colegas caretas e radicais.

As tatuagens despontavam desinibidas pelos braços e colo. Surgiam coloridas e festivas refletindo a imagem descontraída da professora de português. No braço direito tinha uma frase em hebraico com jura de amor, mas como o romance se desfez e as pessoas perguntavam o significado, ela a cada semana citava uma frase de um poeta.

Uma tarde me chamou para mostrar no computador o seu mon amour. Conheceu o rapaz na Bahia quando passeava de barco com o filho. Encantou-se com o jeito educado dele, de como falava com orgulho de sua profissão de professor e principalmente de ser leve e solto como ela. Ao ver a foto caí na gargalhada: o cara estava peladão na tela.

– Viu como ele é bonitão e bem nutrido – disse Maitê rindo da minha cara de espanto.  O moço estava em pé completamente nu, deixando a mostra o seu cartão de apresentação.

– Caramba!  – Exclamei – Quem é esse doido que você arrumou? Perguntei-lhe.

– Mon amour: um francês com espírito brasileiro, disse-me ela a sorrir.

O francês ficou apaixonado pela linda professora, mudou o seu roteiro de viagem no Brasil para ficar acampado na casa dela. Foi uma paixão arrebatadora que a fez largar a sua carreira na faculdade, desfazer de sua casa e se mudar em seis meses com o filho para a Polinésia Francesa.

Chamada de louca e irresponsável por ter tomado uma decisão motivada pela paixão, Maitê seguiu o seu coração. Acreditou que aquele era o seu momento de ser feliz e rapidamente agarrou nas crinas do cavalo branco e o montou confiante de que aquela era a escolha certa.

Movidos à paixão, viveram intensamente cada canto daquele paraíso de ilhas coloridas, mar azul e paisagens belíssimas. Foram momentos de fortes emoções, de grandes descobertas e adaptações, onde culturas tão diferentes tinham que se interagir em um novo contexto.

Os conflitos surgiram quando ela não conseguia engravidar e ele ficava ansioso e decepcionado, pois desejava ser pai.  Com o diagnóstico de que era impossível dar-lhe um filho, tudo ruiu. As cobranças os maltratavam e, não suportando o descompasso entre eles, ela resolveu voltar ao Brasil e se acalentar nos braços da mãe.

A separação os afetou deixando-os desorientados, sofridos e sem brilho. Então descobriram que a paixão havia se transformado em amor.  Ele compreendeu  que o filho de Maitê bastava para formarem uma família e que a criança fazia parte do elo que os unia. O garoto encontrou no francês um amigo sempre presente em todos os momentos, mas que lhe cobrava deveres e obrigações, gerando entre eles uma relação de respeito e amizade.

O casal resolveu recomeçar uma nova vida em uma cidadezinha no interior da França. Com o passar do tempo, viram o menino de nove anos tornar-se um rapaz saudável e responsável. Através do Facebook, Maitê nos conta um pouquinho de sua vida na França, posta fotos dos momentos de descontração do casal,  dos passeios nas montanhas com os cachorros e das viagens em família .

Lembro-me de cada detalhe do que se passou com Maitê: de sua aflição em romper com tudo e começar uma nova vida, da angústia de abrir mão do convívio com parentes e amigos para formar uma família distante do seu país, da tortura em ter que ouvir pessoas que tentavam desmotivá-la e do conforto de ter algumas almas boas que respeitavam a sua decisão sem criticá-la. Maitê foi forte, corajosa e determinada como poucas mulheres  que eu conheço, seguiu em frente galopando com firmeza em seu cavalo branco.

Poderia ter dado tudo errado, sofrimentos, decepções e desamor, mas são suposições que só se pode comprovar quando se tem coragem de encarar uma nova jornada de vida para saber se pode suportar ou não.

Ela virá este mês ao Brasil para visitar os familiares, amigos e matar a saudade. Trará na bagagem histórias para contar e lembranças divertidas para saborear.  No caso dela, como de várias pessoas que começam uma nova vida em outro continente, não se vive somente de alegrias e fantasias, acontecem perrengues pelos caminhos, tropeços e dificuldades que com o tempo vão sendo superados.

O que mais admiro em Maitê é ela ter acreditado que valia a pena investir em um novo amor, de não ter desperdiçado a oportunidade, que às vezes é única, de seguir rumo aos seus sonhos de forma destemida e confiante.

 

 

 

 

 

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Publicado em 11 de maio de 2018 por .

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