Vidas em contos

(por Rita Prates)

Um presidente bizarro

Estávamos andando na praça quando encontramos com Paulo, ex colega de trabalho. Apesar dos longos ”entas”, parecia um adolescente quando se referia à sua atual namorada que era um pouco mais velha que sua filha. Alegre e de bem com a vida amorosa, resolveu recordar casos que havia ocorrido na empresa onde dedicaram quase trinta anos de suas vidas.

– Lembra quando o fulano fez isso e o sicrano fez aquilo? – contavam empolgados os fatos divertidos, e eu ria imaginando as cenas. Porém um personagem passou a ser o foco marcante das lembranças: um presidente bizarro.

O cargo era político e não zelavam pela competência técnica. Pelo menos foi o que ocorreu com os três últimos indicados – disseram sorrindo. – A sorte é que quem tocava a empresa eram os diretores de carreira.

– O presidente não entendia de quase nada e parecia ter um parafuso a menos. Excêntrico para uns, desmiolado para outros, mas o chefão era de uma família de políticos e o cargo o ajudaria a se eleger na próxima eleição.

– Lembra quando ele entrou pela primeira vez em uma reunião com os diretores e estava com uma tiara azul de pedrinhas prendendo os cabelos anelados? Incrédulos, a diretoria mirava o presidente querendo se passar por jovem descolado. – disse Paulo. – Durante toda a reunião os risos ocultos e olhares de deboche circulavam pela sala. Após ouvirem as propostas confusas da chefia, entenderam a função da tiara: segurar os miolos frouxos do cara.

– Por vários meses a travessa virou assunto e piada nas as rodas de funcionários. Chegaram até a fazer um kit de tiaras enfeitadas com flores, fitas e balinhas para oferecerem aos puxa do chefe.

Para os diretores conseguirem aprovação de seus projetos, jogavam a ideia como se fosse dele. Passado um tempo, o presidente dava sequência à proposta e a equipe o deixava acreditar que ele entendia do assunto. Era tiro certo: autorizava e ainda se gabava de ser o mentor.

– Um dia fui chamado na sala da presidência – falou o Paulo sorrindo. – O chefe estava acompanhado de dois funcionários da manutenção que olhavam para uma poltrona no centro da sala. – Chegue mais perto, pediu ele. “Sente-se e me diga se ela está bamba”. Sentei e ela não balançou. Afirmei que a poltrona estava firme. Ele sorriu vitorioso e disse que já havia enviado a maldita duas vezes para o conserto e ela sempre voltava do mesmo jeito, bamba.

Resolveu ele mesmo achar o defeito. Passou o dia analisando a causa da bambeza. Retirou os pés da cadeira e descobriu que o defeito estava em um parafuso. Mandou a secretária comprar vários parafusos longos e grossos, e antes de substituir chamou os incompetentes da manutenção para aprenderem como se conserta uma poltrona. Queria que eu fosse testemunha da sua habilidade em resolver problemas. Afirmou que o defeito afetava as reuniões, pois a sua atenção ficava no balançar da cadeira, deixando-o nervoso e desatento.

– Pasmem! O cara perdeu o dia para resolver o problema de uma poltrona e se achou o máximo, um Sherlock Homes, sendo que em cima de sua mesa havia vários assuntos sérios para ele decidir.

– Não para por aí. – falaram rindo. –  O presidente era da pá virada, muito doido. Vivia circulando pelos corredores como uma alma penada molhando os vasos com um regador. Era surreal vê-lo cuidando das plantas, dizia que era para relaxar, mas trabalhar que era bom… nada.

Um dia, no horário do almoço, ele entrou na sala de um funcionário e viu uma revista Playboy sobre a mesa. Ao notar o olhar abelhudo do chefe o rapaz rapidamente tratou de empurrar para dentro da gaveta a sua musa inspiradora, linda, nua em pêlo, comendo uma maçã em cima de uma cama.

O presidente determinou que todos os funcionários entregassem as chaves de suas mesas ao final do expediente e mandou que fizessem uma vistoria para descobrir as revistas e recolhê-las. Inocente… ele não sabia que havia em alguns andares um determinado armário de codinome “Pornoteca” onde ficavam escondidas revistas de mulheres nuas e gibis.

Os seguranças, coligados com os funcionários, entregaram quatro revistas ao presidente. Era melhor se desfazer de quatro do que de centenas. Tempos depois, descobriram na gaveta dele as benditas revistas embaixo de alguns papeis.

Por fim lembraram que o cara era um garanhão, pegava todas, não pela aparência e sim pela posição. Disseram que até a psicóloga entrou na roda. Atendia o máster em seu consultório com direitos a abraços afetuosos e sexo sem culpa e, em contrapartida, ela conseguiu uma diretoria.

Ele não aguentou a complexidade do cargo e acabou sendo substituído. Atualmente faz bicos em algumas Secretarias, qualquer cargo que lhe ofertarem é lucro: diretor, gerente e até assistente, pois sabe que não sabe nada. Não se importa e, apesar da perda de status, não larga o osso, sobrevive à custa de indicações. Enfim, o incompetente está aí tentando se eleger nem que seja para vereador.

 

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Publicado em 3 de maio de 2018 por .
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