Vidas em contos

(por Rita Prates)

Um andar diferente

– Ele nasceu bonitinho, gordinho, mas teve uma febre esquisita e não deixaram que o menino tomasse a vacina tríplice. Quando a febre passou, a minha mãe percebeu que ele estava molinho da cintura para baixo – disse Ana, tentando resgatar da memória a travessia penosa do irmão, o primeiro homem depois de três mulheres.

Ana contou que o menino ficou com o lado direito paralisado, frouxo, e que o braço e a perna ficaram mais finos e esquecidos.  Os médicos do interior tentaram fazer o melhor pela criança, porém o indicado era ela tratar na capital. A patroa, sentindo-se compadecida com o sofrimento do garoto e da mãe, bancou as viagens. Das idas e vindas ao hospital, ele foi submetido a muitas cirurgias que lhe causavam dores e sofrimento.

Onde moravam não tinha calçamento e o piso da casa era irregular, por causa disso, o pequeno não se adaptou a cadeira de rodas, preferiu se arrastar pela casa, pelo terreiro e pelas ruas empoeiradas.  A mãe reforçava as bermudas grossas nos locais em que o corpo se estreitava na terra áspera. O menino ficou com as nádegas duras, formou-se uma camada grossa na pele, e o mesmo se deu nos braços e mãos onde se apoiava.

Deslizando por todos os lugares foi descobrindo amigos minúsculos pelo chão. Divertia-se com eles, com o cachorrinho que o lambia com carinho, e com os amiguinhos que não se importavam com o seu jeito desengonçado de brincar. Muitas vezes, ao final do dia, estava ele com a roupa em petição de miséria, rasgada e imunda, mas vinha sorridente contar as travessuras que aprontava com os coleguinhas.

Ana cuidava do irmão com carinho, o carregava nas costas quando saiam a passear ou quando iam ao médico. Ele adorava brincar de cavalinho, e também curtia poder olhar do alto do ombro da irmã as pessoas nos olhos, pois se sentia constrangido de vê-las de baixo para cima com expressões de compaixão.

As cirurgias eram constantes, e o irmão já não aguentava de tanto martírio que lhe feria o corpo e a alma. Um dia, a mãe em um gesto de desespero, cortou com o facão o gesso que feria a pele do filho. Quando os dois já cansados das idas e vindas, jogaram a toalha e decidiram desistir do tratamento, quis o destino que surgisse na cidade a APAE.

Com o apoio da associação e dos médicos o garoto foi operado mais duas vezes, e depois de passar por intensas fisioterapias conseguiram que o menino, aos treze anos, ficasse em pé agarrado a duas muletas. Foi o momento mais feliz do jovem e de toda a família, festejaram com risos, lágrimas de alegrias e de agradecimentos.

Deste dia em diante as muletas são as suas companheiras, o ajudam a ir para todos os lugares. Acostumou-se a elas, mas não aos sapatos. Um pé vai firme sobre a terra, o outro, mais preguiçoso, segue obedecendo ao ritmo da madeira batendo no chão. As solas dos pés são formadas por uma pele escura, curtida e grossa, que forma uma camada de proteção para que ele possa andar sem se ferir. Devido às dificuldades de locomoção não estudou, mas sabe fazer contas de cabeça como ninguém. Anos depois se mudou com a mãe para a capital.

Ana riu ao lembrar quando o irmão descobriu os prazeres do sexo. Disse que os amigos foram solidários e o socorreram, levavam-no para a zona de prostituição sempre que podiam. Como a maioria das meninas ficava em hotéis cujos quartos os homens tinham que subir escadas íngremes, de difícil acesso, cabia aos acompanhantes do rapaz carrega-lo nas costas até o paraíso das virgens prometidas. Zoavam que as garotas gostavam de deitar com ele, pois o rapaz tinha folego e material de primeira.

Ana contou que o irmão sempre desejou ter uma companheira ao seu lado, mas a mãe falava que devido aos seus problemas físicos seria difícil uma mulher se interessar por ele. O jovem vigoroso viu uma possibilidade de romance com a amiga da irmã. Porém ela tinha um defeito no dedo, era casada. A danada vivia lhe dando mole, sempre com um sorriso provocador e um olhar de desejo e curiosidade, principalmente quando lhe revelaram que o rapaz era um furacão na cama com as garotas.

Os dois passaram a se encontrar às escondidas. O moço era tudo que contaram e muito mais. Ele sabia deixa-la entorpecida de prazer, ela sentia-se desejada e amada. Quando todos ficaram sabendo dos encontros furtivos do rapaz, o caldo entornou. A mãe queria tira-lo da cidade com medo do filho ser morto pelo marido da mulher, mas o traído pouco se importou, ele também estava de romance com outra.

Uma mão lava a outra, cada um caçou o seu rumo. Ela foi morar com o rapaz que tem um braço forte e outro fraco, uma perna bamba e outra esperta, e cuja  aparência não lhe importa, pois quando se entregam aos prazeres da carne, ele é perfeito da cabeça aos pés.

Ana me mostrou o retrato do casal. Encantei-me com o sorriso maroto do homem, parecia leve e feliz, apesar de estar descalço e apoiado em duas muletas. Ao seu lado estava sua mulher, esbelta, bem cuidada, e ainda conservando a beleza da juventude.

– Esse é o meu irmão, fala Ana orgulhosa. Ele é um guerreiro  que lutou e sofreu muito nessa vida, mas saiu vitorioso. Hoje anda com suas muletas, trabalha no seu bar e tem uma esposa dedicada.

Alerta que o casal tem lá suas brigas, seus perrengues. Ela briga por ciúmes, pelas ondas de calor, pelas rabugices dele e pelo descompasso entre as suas idades. Procura relevar as inseguranças dele, e ainda tem folego para ajudá-lo no bar. Sempre atenta, cuida da pele grossa e áspera dos pés do marido, lavando-os com cuidado quando vão dormir.

Segundo Ana, ele briga, devido às complicações físicas que trouxeram sequelas emocionais. Porém ele faz de tudo para agradar a esposa, enchendo-a de mimos, lhe dando conforto e não lhe deixando faltar nada.

As pessoas gostam dele, pois é alegre e brincalhão, sublima os sentimentos para poder sobreviver às intempéries da vida. – Eu tenho muita admiração pelo meu irmão, afirma Ana  emocionada – Porque soube dar a volta por cima e ignorar os olhares curiosos, quando passa pela rua com o seu andar diferente.

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Publicado em 15 de março de 2018 por .

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