Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sombras do Passado

– Depois eu quero que você escreva um conto sobre a minha vida amorosa – disse Leona enxugando os olhos discretamente com a palma da mão direita. Seu olhar estava fixo em um homem sentado do outro lado do salão. Ele participava de uma roda de amigos que cantavam músicas dos tempos de juventude e, para não errar, estava de olho nas letras baixadas no celular.

Era a festa de fim de ano da turma de amigos. Oportunidade para os mais ausentes se reencontrarem e colocarem em dia os acontecimentos do ano. Todos se conheciam muito bem; namoraram, casaram, tiveram filhos, divorciaram e alguns traziam novos companheiros para apresentarem à turma.

Nos últimos anos, aquele homem que Leona mirava, cantando com a esposa ao seu lado, passou a participar da festa natalina. Sempre soube que ele tinha sido o namorado da minha amiga a mais de quarenta anos, mas não conhecia a história vivida por eles.

Nunca a vi bêbada ou chorar por alguém, nem quando se separou do marido. Agora estava ali, chorando baixinho e tentando esconder as lágrimas que desciam teimosas sobre os lábios trêmulos. Eu jamais poderia imaginar a dor que ela carregava na alma quando o via.

Sem desviar o olhar do homem de cabelos brancos, disse-me que o conheceu muito jovem, namoraram durante três anos, e que as suas famílias faziam gosto do romance. O rapaz morava no mesmo prédio onde ela residia.

Apesar da vigilância da mãe, Leona já curtia os prazeres do sexo junto com o namorado. Eles eram intensos e inseparáveis, carregavam o hormônio do prazer à flor da pele. Para a salvação de Leona, havia uma vizinha que era a sua confidente e a protegia das implicâncias da mãe. Ela tinha uma garota de 15 anos, cujos hormônios também estavam a mil, logo compreendia o fogo que ardia dentro da jovem Leona de vinte anos e do rapaz de vinte cinco.

Algumas vezes o casal brigava por ciúmes e ficavam dias afastados. Nada que Leona levasse a sério. Na última desavença, quando se separaram e ele resistia em reatar o namoro, correu para os braços da amiga em busca de conforto e orientações. Ela a consolou como sempre, procurou alertá-la de que não deveria sofrer tanto por amor.

Não levou o conselho ao pé da letra, tornou a procurar o namorado, amava-o, sonhava tê-lo como marido e pai dos seus filhos, mas ele continuava resistindo a voltar para ela.

Nesse momento, interrompeu a fala, pois as lágrimas de Leona desciam sobre a sua face descontroladas e aflitas. Ela parou, respirou fundo, segurou em minha mão, e com a voz embargada contou-me que foi surpreendida com a notícia de que a filha de quinze anos da amiga estava grávida.  Disse que o choque maior foi descobrir que o pai da criança era o seu namorado. Mal dava para acreditar, o homem que Leona amava a traiu com a jovem filha de sua confidente.

– Eu que frequentava a casa dela, que contava para a minha amiga o quanto amava aquele homem, que confiava os meus segredos mais profundos, que nutria pela menina ingênua um grande carinho, fui nocauteada sem chance de revidar ou de virar o jogo – falou-me com a voz trêmula.

– Foram momentos de grande dor, de sentir o chão se abrir, de querer morrer, de me ver abandonada, deprimida e perdida. Quando ele se casou com a garota vi o meu mundo vir a baixo, desmoronar. Foi como se tivesse havido uma enchente e levado todos os meus sonhos, me vi soterrada, presa em lembranças e momentos mágicos que nunca mais teria. Foram noites e noites de sofrimento. Vaguei sem rumo, sem fé e sem planos, desfeita em amarguras.

– Depois de muito sofrer, tentei resgatar a minha autoestima – falou estregando as mãos com força. Descontraiu-se por um minuto ao dizer que jurou que só se casaria com um homem de cabelos lisos, para que os filhos não tivessem o trabalho que ela tinha com o seu, que era anelado e rebelde. – Ai está, deu um leve sorriso e apontou para dois jovens de cabelos escorridos.

– Eu escolhi com quem iria me casar, mas ele já era casado. Mesmo assim segui adiante, pois estava enamorada. Lutei para tê-lo ao meu lado, procurei um advogado que fez a separação e assim me casei com um jovem apaixonado e de cabelos lisos. Tive filhos que me encheram de alegria, mas com o tempo fui me desencantando do meu marido e me senti desiludida em relação ao amor e ao casamento.

Quis me separar, não havia mais nenhum sentimento correndo em minhas veias. O meu marido nunca me perdoou: me fez viver momentos amargos e difíceis com as crianças. Penei com essa decisão brusca e impetuosa, mas não sentia mais paixão por ele, então segui em frente querendo me encontrar, me refazer novamente.

– Anos se passaram e me vi subitamente de frente com o amor da minha juventude – apontou com o olhar o sujeito do outro lado do salão que não parava de cantar.  – Estava na casa de campo dele junto com amigos. Aconteceu! Não lembro bem como foi, mas me encontrava lá, no sítio, vendo-o com a mulher e seus filhos.

Estávamos conversando e de repente estalou algo dentro de mim, como se o meu coração estivesse espatifado, doía muito, era como se tivessem cacos me furando e ferindo o meu peito. Corri para o banheiro e me pus a chorar compulsivamente. – Era com tudo isso que eu havia sonhado. Tê-lo ao meu lado com filhos e uma casa aconchegante para curtirmos juntos os nossos momentos.

Jamais passaria pela cabeça dela que aquela menina tomasse o seu lugar, ocupasse o seu espaço e se apoderasse dos seus planos. Agora era tarde, sem volta. A única coisa que lhe restou foi a dor e os sonhos desfeitos em solidão.

Quando ela parou de falar, disse-lhe que ele ainda estava presente em sua vida como uma sombra a lhe perseguir. Para ela se ver livre: tinha que encerrar esse ciclo, enterrar esse passado que lhe abria feridas e sofrimento. Leona concordou, mas no fundo sabe o quanto é difícil exorcizá-lo, desapegar das lembranças e se livrar dessa sombra que a persegue durante todos esses anos.

De repente enxugou discretamente as lágrimas, ergueu a cabeça com firmeza e saiu a passos firmes. Vendo-a seguir altiva e determinada, jamais poderia imaginar que ela carregasse no peito o peso de um coração ferido.

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Publicado em 9 de março de 2018 por .
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