Vidas em contos

(por Rita Prates)

ELA

Ele entrou na loja andando como se pisasse em nuvens, quase flutuando. Me cumprimentou e pediu: – Mirna, você tem um chapéu de mulher para me mostrar?

– Claro! Respondi – é para ela?

– Sim, sim, ela está precisando de um look mais ousado, quero deixá-la mais bonita.  Pode me ajudar a escolher, afinal é graças a você que eu a tenho comigo. – disse ele em tom confidencial e um leve sorriso de cumplicidade.

Coloquei sobre o balcão os chapéus mais bonitos.

– Vamos ver qual desses combina com a pele dela e com os olhos de gata. Sugiro também um lenço fino caindo sobre os ombros, nada de esconder os lindos seios esculpidos a mão. –  falei descontraída.

Ele olhava com atenção cada detalhe dos chapéus, colocava-os na minha cabeça e me fazia dar meia volta para ver se ficaria bem em Amor.

Há! Sim! Amor era como ele a chamava. Desde que ela passou a morar em sua casa, ele tornou-se outra pessoa, mais calmo e amoroso. Logo, a chama carinhosamente de Amor.

Ele escolheu o chapéu e uma echarpe. E ainda levou um par de brincos grandes, de pedras verdes, para combinar com a cor dos olhos dela.

Satisfeito, pagou a conta mas, ao sair, voltou e comprou um lindo vestido de renda branca. Mais um presente para Amor, queria vê-la linda no jantar que daria em sua casa, pois chegara o momento de apresentá-la aos amigos.

Na porta da loja esbarrou em uma cliente e gentilmente pediu desculpas. Ela sorriu e correu para mim querendo saber quem era aquele homem alto, corpo delgado, pele bronzeada e um lindo sorriso nos lábios.

– Quem é esse deus grego? Apresente-me! –  disse esbaforida.

– Lindo ele, né! É meu cliente. Eu o conheço faz um ano, sempre trás umas garotas aqui e as enche de presentes. Ele é tudo o que as mulheres querem. –  falei entre risos. – Rico, boa pinta, médico e não é pão duro com as namoradas. Hoje mesmo gastou uma nota. Acho que nesse momento ele não está disponível, parece que está apaixonado.

Sem render mais assunto, a convidei para tomar um café.

Meses depois o rapaz retornou à loja e me contou que Amor ficou linda com o vestido de renda. Disse que o chapéu lhe deu certo ar sofisticado e que no jantar ela foi o centro das atenções, fez um baita sucesso. Os amigos a acharam bonita, um espetáculo, e se divertiram na companhia dela.

Confidenciou-me que a curte cada vez mais. Valoriza como Amor saber ouvir em silêncio, atenta e sóbria. Gosta cada vez mais de conversar com ela até altas horas da noite e, quando chega bêbado em casa, deita em seu colo macio e acolhedor.

“Esse cliente é muito bizarro, sempre me surpreendendo”, pensei ao vê-lo descer as escadas rumo à calçada. Gosto do seu jeito excêntrico, debochado, e de estar sempre inventando moda. A última foi há uns seis meses quando, ao chegar à loja, viu uma manequim de meio corpo na vitrine e pediu para comprá-la. Falei que não estava à venda mas, de tanto insistir, acabei achando uma jogada nos entulhos. Estava muito desbotada, abandonada à própria sorte, desprovida de beleza e de esperança de ser resgatada daquele cômodo cheio de tralhas.

– Doente não a quero! – Exclamou ele quando a viu. – Olhe como está destruída e sem energia. Você pode repaginá-la. –  disse, desafiando-me: – Quero ver se você é uma boa artista plástica para transformá-la em uma bela criatura.

Depois de muitas noites em claro, consegui finalmente restaurar a peça. Fiz um look fashion, daqueles de arrasar. Caprichei na maquiagem e no penteado. Aquela meio manequim de braços e tronco moreno claro ficou linda, perfeita. Bolamos toda a vestimenta e lá foi ele feliz leva-la para casa.

Meses depois voltou contando que a colocou sentada no sofá da sala. Diverte-se quando recebe visitas em casa, pois quando a veem ali, quase humana, se assustam, mas logo entram no clima.

Hoje, ao se despedir, tornou a afirmar que está feliz com a nova aquisição e que a manequim agora faz parte de sua vida. Adora quando chega em casa, senta no sofá da sala bem juntinho dela e lhe conta os seus perrengues. Amor está ali, esperando-o, sempre muda e bela. Tem um diferencial em relação às garotas de corpo e alma, o ouve com atenção, sem fazer críticas ou dar sugestões malucas.

Falou-me que só falta um detalhe… fazê-la falar. Depois de um segundo deu um sorriso maroto e completou: – Não, não, melhor deixá-la calada, pois se ela falar vai estragar o clima e, com certeza, irá exigir coisas e me decepcionar.

Ao cruzar a porta para ir embora, virou-se para mim e sorrindo disse: – É surreal o que está acontecendo comigo, sou outro quando estou ao lado dela. Acho que vou ficar apaixonado pela minha Vênus e me desligar das “peguetes”. Piscou um dos olhos e saiu carregando nas mãos duas sacolas com mais presentes para Amor.

 

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Publicado em 1 de março de 2018 por e marcado .
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