Vidas em contos

(por Rita Prates)

O noivo sumiu!

Chegamos mais cedo na mansão onde seria realizado o casamento da prima brasileira e o noivo sueco. A casa ficava no alto da rua, onde se avistava a lagoa e o brilho das luzes refletindo na água. Nos jardins que contornavam a mansão, viam-se mesas ricamente decoradas com toalhas douradas e arranjos floridos.  Na parte central ficava um altar ornamentado de flores amarelas e brancas, cobrindo o chão um tapete vermelho e, sobre ele, dois banquinhos dourados onde os noivos jurariam amor eterno.

Sentamos em uma mesa determinada pelo cerimonial e ficamos observando a entrada dos convidados. Os homens chegavam com ternos finos e sapatos lustrados, as mulheres pesando quilates, vinham cobertas de jóias nos braços, pescoços e dedos. A maioria dos convidados vinha de uma cidade interiorana dos pais da noiva. Era o momento das senhoras de bens tirarem as jóias e demonstrarem poder e ostentação.

Devido ao atraso de quase uma hora, um quarteto passou a tocar uma música suave, tentando acalmar os convidados, que já estavam impacientes aguardando a chegada dos noivos.   Estávamos conversando com um grupo de amigos quando fomos chamadas pela mãe da noiva.  Passamos pelo jardim e subimos um lance de escadas até o quarto onde a noiva se encontrava.

Lá estava ela aos prantos andando de um lado para outro. Ao nos ver disse, entre lágrimas, que o noivo havia sumido. Não conseguiam localizá-lo no apart hotel e não atendia o telefone. O irmão do desaparecido estava sentado na ponta da cama e fazia ligações sem parar, procurava desesperadamente descobrir aonde andava o noivo. De repente, o rapaz de pele cor de rosa ficou branco, quase transparente. Olhou para a noiva e falou em inglês que o irmão havia fugido e que naquele momento estava no aeroporto voltando para a Suécia.

A noiva desmoronou no chão entre prantos. Tentamos acalmá-la e pensar em uma saída para aquele caos. – Como resolver aquela situação tão constrangedora e …“como encarar os convidados já cansados de esperar?”- Falou a mãe envergonhada com a situação. De repente a noiva levantou-se do chão, retirou o véu, arrancou o vestido branco, colocou outro que estava pendurado em um cabide e, por fim, refez a maquiagem. Ficamos olhando-a admirados. Ela, sem falar nada, respirou fundo diversas vezes e fez um sinal para que descêssemos para a festa.

A noiva, aparentando tranquilidade, passou de mesa em mesa avisando a todos que o noivo teve um problema no aeroporto, e que não daria para ele chegar a tempo de se casar, mas que a festa aconteceria. De cabeça erguida e o coração em pedaços ela conversava com os convidados como se nada tivesse acontecido.

Todos comentavam a ausência do noivo em voz baixa, evitando que a jovem sofresse ainda mais. Porém, algumas aproveitaram a ocasião para descontarem rusgas passadas e ficaram alfinetando a noiva, jogando indiretas sobre o gringo fujão.

As bebidas, os salgados e o jantar foram servidos com requinte, como se o casamento tivesse sido realizado com sucesso. Apesar de a banda tocar animada, poucas pessoas se entusiasmaram a dançar, devido à atmosfera tensa que pairava no ar. Foi um alívio quando os convidados se retiraram após o jantar.  Fim de festa, fim do tormento, fim de um casamento que era para ser e não foi.

Lembrei-me desse caso ocorrido há anos porque essa semana aconteceu algo semelhante. O noivo não compareceu na igreja para se casar. Encontram o rapaz escondido em um quarto se negando a participar da cerimônia. Os familiares da noiva, então, resolveram que, com casamento ou sem casamento, a festa aconteceria, pois tinham gastado muito dinheiro com o buffet, decoração e música. Mandaram mensagens para que os convidados não se dispersassem e fossem direto para o salão de festa. Lá iriam comemorar a sorte grande da noiva de não ter se casado com um homem frouxo e covarde.

Quando contei esse caso para os meus amigos, eles me relataram que nos Estados Unidos um noivo também fugiu uma semana antes do casamento. A família da noiva resolveu manter a festa em um hotel de luxo. Convidou noventa pessoas de uma comunidade pobre para a festa de casamento com direito ao buffet completo. Contaram, também, que na Índia uma noiva ficou no altar esperando o futuro marido que não apareceu, e para que ela não ficasse desonrada, um dos convidados casou-se com ela evitando o vexame.

Voltando ao casamento em que o noivo medroso pegou o avião e fugiu para a Suécia, fomos surpreendidos com a notícia de que o rapaz ficou arrependido, voltou um mês depois do ocorrido e pediu perdão a noiva pelo papelão que fez. Depois de muitas lágrimas, xingamentos e persistência do noivo em reconquistar a abandonada, ela acabou cedendo aos pedidos de desculpa. Porém exigiu casar primeiro na Suécia e depois no Brasil, sem festas, sem convidados, apenas com a presença dos primos escoltando o noivo fujão.

O casal vive hoje na Europa, são sócios de uma empresa e têm dois filhos. Ele brinca com a mulher sobre o ocorrido. Diz que no casamento da filha não vai sair de perto do noivo até ele dizer sim no altar. “Vá lá que o noivo resolve fazer igual a mim, entrar em pânico e fugir”. Todas as vezes que ele recorda o caso da fuga, ela aproveita e se vinga a conta gotas, dá no marido um beliscão caprichado, daqueles que dói muito, que chega os olhos encherem de lágrimas.

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Publicado em 4 de julho de 2017 por e marcado , , , .

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