Vidas em contos

(por Rita Prates)

Casou, separou e voltou sem netos

– Estou fulo da vida com as minhas filhas. –  disse o homem no bar aos amigos. – Tenho três filhas…duas casaram em um espaço de um ano. Gastei um dinheirão com enxovais e festas. A mais velha ficou quatro anos casada, separou e nada de netos. A outra foi mais rápida, dois anos casada e também regressou para casa sem netos. Voltou tudo à estaca zero, três moças dentro de casa e nada de crianças para alegrar esse pobre velho.

– Calma! – Disse o amigo sentado ao seu lado direito.  Eu também estou com uma filha separada e chorosa em casa.

– Ora bolas! Que eu saiba você já é avô, eu não.

– Quem nessa mesa não tem um filho ou filha separada? – Perguntou enfático o amigo sentado do lado esquerdo. – Hoje isso é natural.

– Natural é quando os filhos separam e trazem os bacurizinhos para os avós criarem. No meu caso voltaram minhas filhas de mãos abanando. Estou irado com elas, me sinto deslocado do grupo de avôs e revoltado com a incompetência delas em não me darem netos.

– Amigo, fique tranquilo que logo elas se casam de novo e te dão netos. – falou o rapaz da cadeira em frente ao angustiado homem.

– Ontem voltei muito frustrado para casa depois de um jantar com os amigos do trabalho. O assunto no restaurante era as peraltices dos netinhos, as viagens com os moleques e uma enxurrada de fotos dos guris.  Essa carga de casos de avôs babões acabou com o meu humor. Senti-me como um colegial excluído do grupo dos famosos do colégio.

Cheguei uma fera em casa e fui direto para sala onde as minhas filhas assistiam um filme. Parei em frente à televisão, raspei a garganta e engrossando a voz falei:

– Meninas! Vocês me decepcionaram! Sinto-me diminuído perante meus amigos porque não tenho netos. Se continuar essa tortura de conversa fiada sobre netinho prá cá, netinha prá lá, não saio mais de casa até vocês se embucharem. Melhor ainda, podem sair para a gandaia, mas voltem grávidas. Quero netos logo, para ontem, entenderam? Não suporto mais essa humilhação de ser o único da turma que ainda não é avô.

Os amigos não acreditaram no que ouviram, e nem as filhas quando o pai havia acabado de esbravejar. Ele estava irreconhecível. Como assim? Olhavam uma para outra sem entender. O pai sempre foi castrador, vigiava cada passo das filhas e as criou com cordas curtas. Ameaçava que, se elas engravidassem antes de casar, iriam para o olho da rua. Agora uma reviravolta: pede, não, ordena que saiam e arranjem filhos, pois está louco para ter netos.

Uma sonora gargalhada vinda de sua mulher atravessou a sala e caiu no colo do exasperado marido. Outras gargalhadas vieram de todas as direções e se uniram em coro ao redor do pai enraivecido. Por fim as filhas o abraçaram e prometeram que lhes dariam netos, nem que tivessem que adotá-los.

Um ano se passou e nada. Pobre futuro avô frustrado e ansioso por um neto que nunca chega. Pobres moças ávidas por um namorado que nunca aparece. “Tá difícil cumprir a promessa ao pai”, falam queixosas as filhas. Há poucos homens disponíveis no mercado cada vez mais raro, principalmente os dispostos a assumir um compromisso que vem com fraldas e chupetas.

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Publicado em 5 de junho de 2017 por .
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