Vidas em contos

(por Rita Prates)

A encantadora de cavalos

Sempre achei o cavalo um animal bonito. Tem porte, é soberbo e imponente. Mesmo selado e montado e dócil, impõe respeito. Quem gosta de cavalos e sabe montá-los adora cavalgar pelos campos vendo a paisagem, sentindo o cheiro do mato, passando por obstáculos e se sentindo livre. Cavaleiro e cavalo se entendem no silêncio barulhento da mata. Ele cercado de pequenos afagos se deixa conduzir num trotar macio e agradável

Guta é uma mulher apaixonada por cavalos. É uma encantadora de cavalos, de seus cavalos, devido à forma como lhes fala, pelo carinho e amor que transmite a eles. Tem um cavalo chamado Cisco que vive em um haras perto da sua casa. Diariamente monta em seu belo animal e passeia admirando a beleza da região. Cavalgando consegue coordenar as ideias e reorganizar suas emoções. Momento sublime para harmonizar com a natureza, esquecer os problemas, encontrar equilíbrio e paz interior.

Ela fez diversos cursos relacionados a cavalos para aprender a cuidar, montar e até encantar o seu animal de estimação.  Os produtos são de primeira: escovas caras, alimentos saudáveis, selas e apetrechos comprados com cuidado em lojas especializadas. Acompanha a alimentação, a aparência do cavalo, escovando-o e deixando-o sempre reluzente da crina aos cascos.

Sua casa é decorada com fotos, enfeites e quadros de cavalos. No punho direito tem tatuadas quatro pequenas ferraduras simbolizando cada membro da família. No dedo exibe um anel com a cara de um cavalo como uma joia rara, o que a deixa feliz. Prima em se vestir adequadamente nas cavalgadas: chapéu, calça, camisa, botas… tudo de qualidade. Não mede esforços nem gastos com vestimentas apropriadas com Cisco. Seus olhos brilham de felicidade quando fala sobre cavalos: é o seu vicio, é o que lhe dá prazer.

– Lastro, Lastro! – gritava Guta diversas vezes pelo campo a procura do seu velho e querido cavalo, hoje já aposentado. Vive solto pelos pastos ao lado de Souza, outro idoso e gasto companheiro de pastagem. Ela não o via a tempos, mas tem um carinho especial por ele. Entre os dois existe uma cumplicidade muda de carinho e respeito. Lastro foi o seu cavalo de longas jornadas. Dócil, deslizava com ela pelos campos com sua marcha macia e uma obediência exemplar.

Pelo carinho, pelos anos que passaram juntos ela, sempre que vai à Fazenda do Pinhão onde ele hoje descansa, quer vê-lo e dar afagos merecidos em seu velho e querido companheiro. Estava a chamá-lo na esperança de ser ouvida. Trouxera cenouras e pedaços de rapadura, agrados que Lastro adora.

Seus gritos ecoavam em todas as direções, desejosa que ele a ouvisse. De repente o localiza junto com Souza do outro lado de um pequeno riacho. Ele de orelhas em pé, atento, demonstrava que estava reconhecendo a voz de sua eterna amiga.

– Lastro, venha aqui! Chamava empolgada abanando as mãos.

Vendo-o indeciso, desceu com cuidado um morro íngreme e percebeu que não teria condições de atravessá-lo, pois corria perigo de escorregar nas pedras. Ela para do outro lado do rio e o chama com carinho, sorri para ele e lhe estende a mão mostrando os agrados. Lastro a reconhece e fica quieto observando-a. Sente o seu cheiro e de repente atravessa o rio em direção à amiga. Para, fita-a e aguarda que ela passe as mãos sobre a sua crina e afague seu dorso com carinho, como costumava fazer.

Guta começa a falar com Lastro como se estivesse falando com uma criança. Ela lhe estende um pedaço de cenoura, e ele, gulosamente, tira de sua mão e a come prazerosamente. Saboreia cada pedaço, outras lhe são ofertadas, devora-as, uma por uma. Para completar a refeição, ela oferece pedaços de rapadura como sobremesa… ele não se faz de rogado e as come lambendo os lábios.

Souza fica arredio, não se dispôs a participar da comilança, prefere desfrutar do capim de cada dia. Considerado um cavalo de confiança, empresta o seu lombo macio para passeios com pessoas inseguras que querem montar, mas que têm medo de cair. Ele sabe como tratá-las e deixá-las tranquilas. Afinal, ele é um “velho” útil que transmite segurança.

Quando Guta decide voltar para a casa da fazenda, Lastro percebe que ela irá partir e dócil a segue pelo pasto até a porteira. Ela despede-se dele com afagos e promete vê-lo novamente. Ele para, observa-a ir embora e, quando a perde de vista, volta-se para o campo à procura do velho amigo.

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Publicado em 18 de abril de 2017 por e marcado , , , , .
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