Vidas em contos

(por Rita Prates)

Mudança de Rota

Depois de anos a vejo entrando no salão de festas de mãos dadas com um homem alto e charmoso. Veio até a mim, abraçou-me com carinho e me deu dois beijinhos na face. Apresentou-me o companheiro e rapidamente pediu-lhe que fosse buscar algo para bebermos. Ao sentar-se ao meu lado, começou a falar sobre ela. Estranhei, pois havia mais de cinco anos que não nos víamos. Ela, como tantas, não se interessou em perguntar como eu estava.

As pessoas, de um modo geral, querem falar sobre elas. Aproveitam quando encontram alguém que lhes dê atenção, como eu, que sou uma boa ouvinte. Percebi que ela, apesar de olhar para mim quando falava, parecia distante, como se estivesse refletindo sobre a sua vida. Ela colocou a mão sobre o meu braço e começou a falar em meio tom, para que as pessoas ao redor não a ouvissem.

– Quando eu conheci o meu companheiro tinha acabado de sair de um relacionamento longo e desgastado, onde o amor havia se terminado e os sonhos desfeitos. Foi uma transição de muito sofrimento emocional, que esbarrava em filhos e acertos de conta. Quando as coisas se organizaram, coloquei todos os “pontos nos is” e não deixei dúvidas nem rancores para trás.

Terminado essa passagem turbulenta na minha vida, cheguei à conclusão que estava na hora de uma nova vida a dois. O meu companheiro também havia tido uma separação tumultuada, então resolvemos juntar nossas esperanças e acreditar que poderíamos ser felizes novamente.

Nossa adaptação foi lenta. Procuramos definir espaços, fizemos acordos alinhados com os mesmos direitos e deveres, na busca madura para uma convivência harmônica. O desejo banhado de muito sexo, a cumplicidade e as boas risadas nos proporcionaram ótimos anos de amor. Nessa busca incessante por ser feliz, nos perdemos no caminho. Essa angústia de querer algo maior, que completasse o viver, uma eterna felicidade, não foi encontrado. Talvez por não existir, talvez porque estava tão próximo, tão presente, que perdeu o valor.  Agora estamos aqui, parados, aguardando soluções para o nosso desamparo. Aflitos no nosso abandono, querendo refazer rotas e encontrar caminhos para o nosso desalento.

A busca dele parece ser diferente da minha. Sou profunda nos meus desejos. Gosto de sentir, de tocar, de me banhar de orgasmos, me embriagar de prazer e me jogar para o mundo. Sou uma energia sem fim, um piscar de luzes que não se apaga. Porém ao mesmo tempo quero o conforto do lar, a mesa farta, amigos ao meu redor, um abraço carinhoso, um beijo gostoso e um vinho para brindar.

Ele se questiona o tempo todo, se desgasta em dúvidas, sempre a procura constante por respostas que o satisfaçam. Há uma balança na sua mente que tomba de um lado para outro o torturando em dúvidas entre o sim e o não, entre o certo e o errado, entre ser feliz ou infeliz. Há um desgastar de energia colocando ordem na gostosa desordem do relacionamento. Há uma necessidade constante de ele controlar as emoções, não permitindo se entregar às avessas. Há uma busca exaustiva por um novo encontrar, que seja diferente do ontem, que já não o satisfaz, e do um amanhã, que imaginas impossível. Nesse vai e vem vamos levando, e entre tropeços caminhamos juntos, nos atropelando e nos encontrando.

Hoje posso me considerar uma ave livre da gaiola. Posso bater asas e voar para onde eu quiser, disse enfática. Se antes me achava dona do meu nariz, hoje sou dona da minha vida inteira. Já tive amores que me fizeram bem, me cobriram de carinho e me fizeram mulher. Soube superar os abandonos e enfrentar as separações com lagrimas no rosto e firmeza nos pés. Não me amedronta mais sofrer por amor. Dou conta, me afundo em tristezas, me culpo, me perdoou, por fim me recupero e sigo em frente.

Existe uma força interior em mim que me ergue, que me conforta e me faz voar novamente. Não sou uma pessoa de viver sozinha. Preciso de alguém para conversar, sorrir e me abraçar. Necessito de companhia, pois não gosto da solidão, de curtir tristeza e chorar pelos cantos.  Sou uma águia em busca de um canto no alto do morro para poder observar, refletir e decidir o que fazer. Depois me empino, estico o bico, arrumo a plumagem, desço em voo rasante e deslizo suavemente até encontrar um chão seguro para me acomodar. E assim vou, seguindo a vida, entre erros e acertos, entre altos e baixos, entre amores e desamores.

Tento pensar no que fazer, dizer-lhe palavras de conforto ou dar-lhe um empurrão para voar. Quando vou falar algo que a alente, chega o companheiro com as bebidas e um belo sorriso nos lábios. Ele sugere um brinde à amizade, mas ela ergue a taça e brinda ao voo da águia. Ela sorri agradecida ao se despedir de mim, talvez a veja novamente daqui a alguns anos, talvez nunca mais. Não saberei o desfecho dessa história, mas senti que ainda havia um brilho nos olhos dos dois, um fio de luz a iluminá-los.

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Publicado em 14 de abril de 2017 por e marcado , , .
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