Vidas em contos

(por Rita Prates)

Uma moça muito intensa

Ao chegar à loja de artesanato da minha cunhada, encontrei a sua sobrinha me aguardando para definirmos coisas do blog. As duas quando me viram  foram logo falando que tinham um caso fantástico para me contar.

– Esse caso dá para você escrever um conto, falou a minha cunhada.

– É surreal! Inacreditável o que se passou com uma conhecida nossa! – disse a sobrinha entre risos.

Curiosa, pedi que elas me contassem o caso. Foi difícil controlar a ansiedade das duas, pois ambas queriam falar ao mesmo tempo. Elas interrompiam o relato uma da outra, inserindo fatos novos e tropeçando nas datas, num vai e vem de palavras e risos. Passei a controlar as falas de cada uma, como um maestro erguendo a vareta, para que os sons saíssem perfeitos e a história fluísse bem.

A amiga delas, segundo me contaram, era uma moça prendada, artesã, trabalhava com cacos de cerâmica, criando peças variadas e bonitas, mas o que a diferenciava das demais amigas, era a intensidade com que vivia as relações amorosas. Vi a foto da Mary, tinha os cabelos pretos, longos e anelados que caiam sobre a face branca e redonda. O que mais destacava na foto era um largo sorriso colorido de batom vermelho e um olhar brilhante de moça fagueira. Também vi os trabalhos realizados por ela. Lindos, harmônicos e de extremo bom gosto, mas vamos aos fatos envolvendo essa criatura, de acordo com elas, vibrante.

Mary andava muito infeliz com os homens, não acertava com nenhum. – Também pudera, tinha um dedo danado de podre, pois só escolhia trem ruim, sem muito entusiasmo, como disse a minha cunhada com um quê de censura.

A falta de vibração e de tesão foi deixando Mary desiludida com os homens. Começou a generalizar, achava que todos eram sem sal, insossos, levando-a a acreditar que não encontraria o gozo vibrante nos braços de um macho.

Então resolveu procurar nos abraços das mulheres o prazer que tanto almejava. Sentia falta de algo mais romântico e suave. Ela era assim, sensível, cheia de desejos e sonhos, profunda nos envolvimentos, desejosa de novas e intensas emoções.  Achava que se dormisse com mulheres encontraria um sexo mais prazeroso.

De repente um encontro na loja, no horário do almoço. Conheceu Marilena, mulher feita, madura, dominadora e bem sucedida. Cabelos curtos, roupas masculinas e andar de macho. Deu liga, marcaram um encontro e resolveram encarar um teste drive.

Mary descobriu o prazer nos braços da Marilena. Com ela sentiu sabor, tempero e gozo. Divulgou a todos que havia encontrado a paixão da sua vida. Intensa, batia tambores e cantava em versos as suas noites de amor. Ela se jogava na relação, pulando trampolins e escalando montanhas nunca antes desbravadas. Marilena adorava a química, mas o seu lado racional queria ajustar Mary a sua vida metódica de ser.

Mary era assim, uma mulher com jeito de menina, quase moleca. Artista sensível, que através do brilho dos seus olhos coloria de alegria as suas peças, transformava a arte de amar em arte de fazer com amor. Como tudo não é um jardim de Miró, Mary tropeçava na luz sombria de Marilena, na rigidez e organização de sua casa, no consumo exagerado de maconha e na forma destemperada de lhe chamar atenção.  O fogo que as faziam arder em desejos e sexo foi se apagando, sendo consumida em curto prazo, toda a energia da relação.

Tiveram idas e vindas, recaídas que em vez de as unirem novamente, as afastavam encobertas de mágoas. Mary partiu para outras mulheres, mas um vazio continuava a persegui-la. Vivia em busca de um prazer maior até reencontrar um amigo, um deus negro, que lhe dizia, ao pé do ouvido, para voltar a gostar de homem, só assim ele lhe mostraria o verdadeiro prazer.

Uma noite, após uma exposição regada a muita bebida, Mary chamou o deus negro para ir à sua casa. Lá, depois de mais alguns goles ele a enlaçou em seus braços e, honrando a cor e a fama, a possuiu como um garanhão satisfazendo a égua no cio.

Ela quase enlouqueceu de prazer. Ele a levou ao nirvana, e os gozos ultrapassaram o limite do maior que teve com Marilena. Ele era sensual, provocante e avantajado, deixando-a eufórica e destemida. Passavam quase todas as noites nesse vai e vem de emoções.

Uma tarde chegou eufórica na loja para contar às amigas que estava apaixonada e que finalmente alcançou o verdadeiro orgasmo. Elas logo quiseram ver a foto da nova amiguinha. A surpresa foi enorme ao verem que Mary estava louca de felicidade e de amor, por um homem negro com um sorriso largo e sedutor no rosto.

Gargalhadas voavam pelo ar, balançando quadros e atravessando janelas quando ela descreveu a potencial do rapaz. Detalhou as loucuras de amor e sexo que ele fazia com ela, das transas apimentadas e divertidas nas noites quentes de verão. Depois do deus negro ela agora só se relaciona com príncipes morenos e potentes. Gostou do babado, da disposição, da pegada e da energia cósmica dos rapazes. Afirma que descobriu que eles são intensos como ela, loucos de desejos como ela, e que adoram sexo quente, safado e prazeroso como ela.

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Publicado em 31 de março de 2017 por e marcado , , .
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