Vidas em contos

(por Rita Prates)

Ela só queria encontrar um porto seguro

Estava passando por problemas familiares e resolvi ir a uma terapeuta muito bem recomendada pela minha médica. Cheguei ao consultório mais cedo e me deparei com uma moça muito bonita, bem vestida, teclando no celular. De repente ela se vira para mim e fala:

– A sua família é perfeita?

Enquanto pensava na melhor resposta, ela foi logo falando. – Não existe família perfeita onde reina paz e alegria. Isso é coisa de propaganda de manteiga. Pai, mãe e irmãos formam um emaranhado de emoções que podem nos levar a grandes conflitos.

Olhava para ela e balançava a cabeça concordando. Ela, na verdade, não queria a minha opinião. Continuou a falar baixo, como se contasse um segredo.

Venho de uma família de três irmãos. Eu sou a do meio, aquela quase esquecida, que tomba pra lá e pra cá. O mais velho sempre foi tratado como um reizinho, mais inteligente, mandão e admirado. A mais nova tornou-se o xodó da família, a cheia de dengo e vontades. Logo: sobrei!

Sempre imperceptível, procurei desde cedo conviver com a minha sombra. Tive meus anos de revolta, de angústia e de rebeldia. Precisava chamar atenção para o meu abandono, e a saída encontrada foi atacar a todos com palavras e atitudes agressivas. Por mais que gritasse, ninguém queria me ouvir e eu também me fazia de surda.

Foi barra! Adolescência de cabelos multicoloridos, piercing em todas as partes visíveis do meu corpo e cinco tatuagens colorindo a minha pele, sem contar os baseados para acalmar a minha alma ferida. Eu era a ovelha negra da família, a revoltada, a inútil, a problemática.

Sentia-me completamente perdida, mas uma coisa eu não abria mão: estudar, me formar e sumir no mundo.  Passei em um curso de psicologia, achava que ajudaria a me encontrar, e fui viajar para comemorar. Porém o destino resolveu interceder por essa pobre e perdida criatura. Estava acampada com uma galera em uma praia no sul da Bahia e, em uma noite muito louca, passei mal. Vomitava muito e chorava como uma criança. Uma senhora me viu naquele estado lastimável, falou para a minha amiga que morava em frente à praia e se prontificou a me levar para a casa dela antes que eu tivesse uma overdose. Acho que ela ficou com pena de me ver tão detonada. Os meus amigos concordaram, melhor para eles se verem livres de um aborrecimento.

Recordo que acordei em uma cama limpa e cheirosa. A casa era simples, clara, e exalava um cheiro gostoso de flores. O estranho é que me senti segura e tranquila naquele ambiente de paz.  A mulher me deu um comprimido para dor de cabeça e me ofereceu frutas e biscoitos. Voltei a dormir, e quando despertei novamente estava me sentindo bem melhor. Ela me chamou para sentar em uma rede de frente para o mar e ficamos conversando até o anoitecer. Uma overdose de palavras saiam agitadas da minha boca, cuspiam mágoas, dores contidas e raivas entaladas em minha garganta.

Ela tinha uma expressão serena e pouco falava, deixava que só eu expusesse as minhas feridas a céu aberto. Era a primeira vez que alguém me ouvia com atenção, sem me repreender, sem me ofender. Em dado momento em que eu chorava, ela sentou-se ao meu lado e me abraçou com tanto carinho e afeto, que eu me desfiz em seus braços.

Não queria ir embora daquela casa, daquele aconchego. Ela me contou que havia perdido o seu único filho em um desastre de carro, e que estava refugiada naquele lugar para acalmar a sua alma e abrandar o seu coração desesperado de dor.

Era a minha última semana de férias. Passei a maior parte dos dias com a minha nova amiga. Quando fazíamos caminhada na praia ia debulhando os meus dissabores e contando-lhe das minhas inseguranças e diferenças familiares.  Ela me ouvia com grande atenção, pontuava as minhas falas com cuidado e me dizia coisas que jamais havia pensado. Com o passar dos dias fui expondo cada vez mais as minhas mazelas. Ela aos poucos foi me abrindo os olhos para a realidade. Quando eu vacilava e me perdia em lamúrias, ela era firme e me fazia refletir sobre o que eu estava fazendo comigo, com a minha vida e com o meu futuro.

No último dia em que nos encontramos, ela me agradeceu a companhia, e falou que eu a havia ajudado a amenizar o seu luto. Disse-lhe o quanto ela tinha também me ajudado a refletir e a ver com outros olhos o mundo ao meu redor. Abraçou-me com carinho e afirmou que éramos almas sofridas precisando de amparo. Desejou-me tranquilidade para seguir a minha vida com equilíbrio e segurança.

Voltei para casa e fui aos poucos abrandando os meus sentimentos em relação à minha família. Hoje trabalho em uma ONG onde procuro ajudar adolescentes em busca de orientações. Tenho duas filhas queridas e um mundo pela frente.

Quando a porta do consultório se abriu, uma senhora esbelta e serena a chamou para entrar. Quando ela terminou a sua sessão, veio até a mim, deu uma piscada e disse ao meu ouvido: – Ela é o anjo que encontrei na praia e que me ajudou a encontrar um porto seguro.

 

2 comentários em “Ela só queria encontrar um porto seguro

  1. Muito bom!

    Curtir

  2. vidasemcontosrita
    4 de abril de 2017

    Obrigada! Toda semana tem conto novo, convido você a acompanhar e também seguir o Vidas em Contos no face e instagram: @vidasemcontos. Espiei seu blog também, uma graça. Um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em 23 de março de 2017 por e marcado , , , .
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