Vidas em contos

(por Rita Prates)

Pais Transgressores

Estávamos os três sentados em uma mesa de bar, quando a minha amiga, de repente, fala que o pai é um transgressor.

-É sim! – Afirma sorrido. – Há uns anos atrás apareceu um jovem em nossa casa alegando ser filho do meu pai. Quase caímos para trás, e não é que o cara era realmente nosso irmão?  Resultado de um caso da época em que papai viajava com frequência para o interior. Vendia roupas e ilusões, assim ganhava atenção das moças e senhoras por onde passava.

Bonito, alto, forte e bom de papo, passava a lábia nas mulheres que, encantadas,  formavam o seu harém. Não sabíamos de nada, até aparecer o nosso meio irmão. Éramos quatro homens e eu, a única mulher da casa.

Passado um tempo do falecimento da minha mãe, chega ele com uma moç, quase da minha idade, para ser a nossa madrasta.  Depois de um discurso de uma hora, acabamos aceitando a moça, não por ele, mas pela criança que ela carregava no ventre. Mais um menino para a minha satisfação, já que eu era a soberana no meio de tantos marmanjos.

Porém a história não acaba aí, falou ao meio tom. Certo dia, meu irmão mais velho, que tem o mesmo nome do meu pai, abriu uma correspondência por engano, achando que era para ele. Ao lê-la, quase teve uma síncope. Na carta, uma moça chamava-o de pai, contava casos da família e pedia para que ele não se esquecesse de ligar para a neta no dia do aniversário dela.

– Como assim? Pensou ele surpreso. – O meu pai tem outra filha e também uma neta?

No mesmo dia o meu irmão me chamou na loja e mostrou a carta. Fiquei pasma com a novidade. Tinha uma irmã e o meu pai mais uma neta. Entrei no Face e constatamos que ela era muito parecida com ele. Alta, loira e o mesmo sorriso carimbado da família. Ficamos uma semana pensando no que fazer e, por fim, resolvemos abrir o jogo com ele, saber de toda a verdade.

Sem saída, disse-nos que optou em não contar sobre a outra filha, porque não queria fazer a minha mãe sofrer novamente. Ele tinha prometido não mais traí-la, porém a carne era fraca, e ele acabou se envolvendo com uma baiana arretada. Registrou a menina e lhe deu toda a assistência, inclusive a visitara durante muitos anos.

As duas vezes que alegou que ter tido uma intoxicação alimentar na Bahia era para participar da formatura e do casamento da filha. A neta de dez anos via pouco, porque passara dos oitenta anos e não tinha muito pique para viagens longas. A novidade atingiu a todos. Uns acharam bizarro, outros aceitaram, a contragosto, as peraltices do pai.

Eu tinha que tomar uma atitude em nome da família. Liguei para a minha meia irmã e me identifiquei como a sua irmã mais velha.  Ouvi um pequeno soluço e uma voz embargada tentando manter o equilíbrio. Falamos durante longos minutos, por fim resolvemos trocar fotos e novas conversas foram acontecendo durante três meses. Finalmente marcamos um dia para irmos visitá-la. Alugamos uma casa na praia e seguimos: meu pai, a minha madrasta, dois irmãos e eu. Estávamos curiosos para conhecer os novos membros da família.

Foi uma semana tranquila, com a benção de Orixá. Parecia que nos conhecíamos há anos. A minha meia irmã sempre gentil, tentava nos agradar ao máximo. Contamos casos da família, nos divertimos com as histórias de papai, distribuímos abraços e acolhimento de ambos os lados.  Graças a um vacilo de meu irmão em abrir uma correspondência errada, agora o meu pai podia finalmente conviver com todos os filhos, sem se sentir culpado.

Ontem perguntei ao meu pai se ele tinha mais filhos para nos apresentar. Ele riu e disse talvez, depois deu uma bela gargalhada. Quando falo que ele é um pai transgressor, ele me abraça e jura que a carne era fraca e o coração enorme e, por isso, acabava cedendo aos apelos das mulheres. Hoje, se diz mais ajuizado, está velho.  – Não sei não! Falou a minha madrasta. – Mesmo oitentão, se eu vacilar, aposto que o seu pai apronta mais uma, mas pode ficar tranquila que estou de olho nele.

– Brincadeira esse seu pai! Exclamei. – Ele ainda está inteiraço, bonitão, e se bobear ele arruma mais uma irmãzinha para você. – Disse à minha amiga enquanto ela me mostrava à foto do pai.

– Acho que a minha história também se encaixa na sua de pai transgressor. – fala o nosso amigo que ouviu todo o caso calado. – O meu pai também foi um transgressor barra pesada.

– Vocês conhecem a minha família, todos tem o mesmo nome. Sou Francisco, o meu pai era Francisco, a minha irmã Francisquinha e a minha mãe dona Francisca. Todos na rua conheciam a família Francisco. Pois bem, quando o meu pai faleceu de repente, teve um AVC, ficamos todos aturdidos.

Há uns anos atrás o defunto era velado na própria residência. O corpo ficava na sala, e a casa ficava aberta aos amigos e parentes para se despedirem do morto. Em um dado momento entrou uma senhora com duas crianças: um menino e uma menina. Eles ficaram em pé ao redor do caixão e começaram a chorar compulsivamente. O padre se aproximou e pediu para eles se acalmarem e sentarem. Porém os dois meninos começaram a pegar na mão do meu pai, beijar o seu rosto e chamá-lo de papai.

Um silêncio atroz pairou sobre a sala. Todos miraram as crianças sem entender. A dúvida era se eles tinham confundido o morto e estavam chorando o defunto errado. O padre, sentindo o ambiente pesado e constrangedor, tentou novamente retirá-los da sala, aí o caldo entornou. A mulher falou que também tinha o direito de velar o pai de seus filhos. A viúva, minha mãe, se levantou e foi até a mulher e perguntou quem era ela.

– Sou Ana Francisca e esses são Francisquinho e Francisquinha, também filhos do seu marido, meu companheiro e grande amor da minha vida.

A minha mãe desfaleceu nos braços do padre. Ele a carregou para o quarto e a sala foi tomada por um burburinho de vozes comentando o ocorrido. Ninguém conseguiu retirar a mulher e os filhos de perto do meu pai. Assim, ele foi velado e enterrado com a presença das duas mulheres e dos quatro filhos.

Descobrimos que o meu pai transgressor tinha outra casa a quatro quadras da nossa. Ele trabalhava como autônomo, o que o possibilitava ter total controle sobre as duas famílias. Desenvolveu uma logística para atender a demanda das mulheres e das crianças. Ele administrava as duas casas com punho firme. Tinha um ciúme doentio da minha mãe e da outra. As coitadas viviam no cabresto. Está claro que era uma estratégia para controlá-las, Ele era muito exigente com todos os filhos. Os nomes iguais, provavelmente, eram para ele não se enganar ao falar com eles. Todas as nossas atividades eram milimetricamente coordenadas com horários para estudos e diversão. Ai de quem o desobedecesse. Mesmo morando tão perto e frequentando a mesma igreja, as famílias não se encontravam.

– Pois é! Vejo o meu pai como um grande jogador de xadrez, onde nós, as peças, éramos movimentadas com cuidado, para que as rainhas não se encontrassem e colocassem tudo a perder. Hoje tenho duas irmãs chamadas Francisca e um xará. Depois do terremoto procuramos conviver socialmente, pois ninguém tem culpa de ter um pai transgressor, diz Francisco dando um suspiro profundo.

Tive vontade de contar sobre o meu avô, também transgressor, mas deixei para depois. Era muita emoção para uma única tarde e, afinal, fomos surpreendidos com revelações bombásticas sobre histórias de pais transgressores. Achei melhor tomarmos uns chopes para relaxar, falar abobrinhas e comer uma deliciosa pizza à grega

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Publicado em 10 de março de 2017 por e marcado , , , , , , .
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