Vidas em contos

(por Rita Prates)

Querida Moçambique

Estava com um grupo de amigas relembrando as viagens e casos bizarros que aconteceram conosco, quando uma delas resolve contar a sua aventura na África. Olha para todas e começa:

– Entre goles e cantorias ouço uma voz que me fala: “Então, posso passar na sua casa ao meio dia para te buscar?”

– Sim, digo um tanto tonta. – Estava na festa de boas vindas que a empresa patrocinou em Moçambique. Entrei de cara na cerveja. Laurentina Premium: danada de forte, danada de gostosa.

Apesar da agitação da noite anterior, acordei sem ressaca. Fiquei em dúvida se havia combinado de almoçar na casa de uma moça desconhecida, que havia insistido em me levar para conhecer a sua família.

Em caso de dúvida, melhor me preparar. Seria uma desfeita se ela, caso não fosse uma alucinação do álcool, viesse me pegar e eu não estivesse pronta. Estava há pouco tempo no país e era importante ter boas relações com o pessoal da empresa e agregados.

Avisei ao pessoal do hotel que não tinha a menor noção de quem era a pessoa que iria me pegar. Pedi a um amigo que, se eu não desse sinal de vida até às cinco horas da tarde, acionasse os órgãos de inteligência CIA e FBI para me procurar e resgatar.

Quando me enviaram para trabalhar na África, tive uma série de instruções de como lidar com a segurança, principalmente por ser mulher. Nesse domingo, estava burlando a regra de número XYZ, que alertava para não sair com desconhecidos, mas palavra dada tinha que ser cumprida e lá estava eu esperando uma desconhecida.

Na hora marcada ela chegou. Parou o carro na porta do hotel e, quando olhei para dentro do veículo vi três mulheres no banco de trás e duas crianças no banco da frente, ao lado da motorista. Ela toda sorridente veio me abraçar como velhas amigas. Mandou que as crianças pulassem para o banco de trás e se acomodassem no colo das mulheres.

Estavam todas felizes por eu ter aceitado o convite. Fui apresentada às suas irmãs e, ao perguntar de quem os meninos eram filhos, elas riram e apontaram para a minha amiga.

– Seus?  Perguntei.

– Não, respondeu. Acontece que, ao vir te buscar, me distrai e os atropelei.

– Verdade! – Exclamou ao ver a minha cara de incrédula. – As crianças estão bem, só tiveram arranhãozinho, mas vou deixá-las no hospital. Você não se importa de atrasar um pouco?

– Claro que não. – falei olhando os dois meninos que sorriam para mim e aparentavam uns nove anos.

Seguimos adiante no carro lotado e quente. De repente a motorista para o carro em um parque e pede para todos descerem. Ela vai até um carrinho de sorvete e compra picolés para todos. As crianças adoraram e pediram bis, nós também repetimos, pois o calor estava infernal. Parecia um passeio sem nenhum vestígio de atropelamento.

Ao parar na porta do hospital ela deu um dinheiro para cada menino. Mandou que eles entrassem e pedissem para serem examinados pelos médicos. Os meninos entraram no hospital e pude ver que, logo que ela arrancou o carro, os dois saíram saltitantes pela rua afora.

Quando tentei falar sobre os garotos ela já havia arrancado o carro e, sem trégua, falava sem parar contando casos da terra. Tudo parecia tão surreal que eu não sabia se ria ou se pedia para sair correndo. Por fim, minha descontraída amiga estacionou o carro na porta de sua casa e me vi cercada por familiares e amigos loucos para me conhecer.

Eu me senti uma estrela de cinema. Procuravam me tocar com carinho, abraçar e tirar fotos. Estavam curiosos, queriam saber tudo sobre o Brasil. Perguntavam a todo momento se eu estava gostando da comida, o que achava deles e do país. Falavam sem parar, atropelando palavras em um vai e vem de sorrisos gentis e sinceros.

Relaxei. Deixei-me embalar com tamanho gesto de boas-vindas. Serviram um almoço delicioso, bem temperado e saboroso. Não podia fazer desfeita, comi sem culpa. De repente, começaram a cantar, cantar e cantar. Entrei na onda e aprendi a dançar com eles em roda. Muitas bebidas, danças e cantorias me fizeram esquecer da hora. Quando fui ver no celular já passava das nove da noite. Havia dezenas de recados e chamadas perguntando se eu estava bem. Mandei uma geral avisando que estava ótima e me divertindo a valer. Depois desse dia fui convidada a várias festas. Adorava participar da vida daquela gente tão acolhedora, alegre e festiva.

Quando fui voltar ao Brasil a minha empresa ofereceu-me um jantar de despedida em um restaurante. O ambiente era muito formal e distante. Como fiz amigos em Moçambique, resolvi fazer uma festa de despedida para eles, queria agradecer o carinho recebido. Imaginei que viessem umas setenta pessoas, mas fui surpreendida pela multiplicação dos convidados. Eles Iam chegando, trazendo amigo e amigo do amigo. São assim, despojados e vibrantes.  Tive que correr atrás de bebidas e comidas para não desapontá-los. Divertimo-nos a valer com muita cantoria e dança atravessando a madrugada.

– Já trabalhei em muitos países, concluiu ela, mas nunca vi algo tão intenso e alegre como o que passei em Moçambique. Se os convidarem a trabalhar lá, podem ir, pois asseguro que moçambicanos são especiais e vocês vão se divertir a valer, é só entrar no ritmo.

5 comentários em “Querida Moçambique

  1. escreversonhar
    8 de março de 2017

    Republicou isso em escreversonhar.

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  2. mariel
    8 de março de 2017

    que história legal. Num primeiro momento, fiquei preocupado com as crianças.

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  3. vidasemcontosrita
    14 de março de 2017

    Obrigada Mariel! E o mais incrível: esse conto é baseado numa história real! Quando ouvi também fiquei preocupada, mas pelo visto elas estavam bem né..rs. Te convido a ler os outros contos e me acompanhar no insta e facebook: @vidasemcontos. Toda semana posto contos novos. Vi que você também tem um blog bem interessante, me aventurando pelos textos…=)

    Curtido por 1 pessoa

  4. mariel
    15 de março de 2017

    Vou nos teus outros canais também, claro. E conte com meu acompanhamento atento por aqui.

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  5. vidasemcontosrita
    23 de março de 2017

    =D Grata!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em 8 de março de 2017 por e marcado , , , .
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