Vidas em contos

(por Rita Prates)

Desejo Maldito

Cida parecia distante. Perguntou-me se eu havia visto na televisão uma chamada que alertava contra agressões a crianças provocadas pelos próprios parentes. Disse-lhe que achei bem feita, mostrava a realidade da violência que ocorria nos lares. Era importante porque alertava os vizinhos denunciarem os mal tratos e possibilitar que aquelas pobres crianças fossem socorridas.

Cida resolveu me contar a história de Branca. Contou-me que a amiga foi uma menina linda, tinha a pele alva e rosada e os cabelos ligeiramente anelados. O pai era sargento da polícia, homem bruto e autoritário. Achava que a sua casa era a continuação do quartel. Ai de quem não lhe obedecesse, caia na surra. Se a mulher acudisse era espancada também.

Com o passar dos anos a pequena Branca, como a chamavam, se tornava mais bela, provocando o ciúme exagerado do pai. Ele a colocava no colo e a enchia de carinhos. Carinhos impróprios, demasiados e inconvenientes, chegando a ponto de a mãe inventar um pretexto para livrar a filha daquele incômodo.

Quanto mais a menina crescia, mais ele exagerava em afagos. Ele a agarrava e queria intimidades que ela não suportava; beijos na boca, colo aquecido de carinhos pegajosos, abraços e mãos que ultrapassavam a normalidade.

Aos dez anos a vida da garota virou um inferno, por qualquer motivo era agredida pelo pai. Ele a espancava com violência, deixando os irmãos revoltados e amedrontados. As surras aconteciam todas as vezes que ela tentava se desvencilhar do pai que, excitado, furioso, batia com força no seu frágil corpo. Socava o seu rosto com tamanha violência que os lábios se rasgavam e os cortes ficavam aflorados e avermelhados na pele alva da menina.

O pai era o demônio em pessoa, tinha um desejo doentio pela filha. Ele a agredia com fúria, pois como não podia tê-la em seus braços, queria que ela ficasse feia, deformada, para que nenhum homem também a desejasse.

Enquanto a espancava, planejava o momento de possuí-la. Infelizmente só um detalhe o detinha, a patente de sargento. Era arriscado, poderia ser condenado se soubessem que ele teve relações sexuais com a própria filha, uma criança.

beleza-malditaTinha medo de represália. Se preso, quem estupra é condenado ao estupro. Lá não existia perdão para tal barbaridade. Tinha que aguardar a menina ficar moça. Precisava se conter e acalmar o seu desejo pecaminoso, porém a única forma de extravasar a sua tensão era a agredindo. A culpa era só dela, que lhe despertava tamanho descontrole.

A pequena Branca já não aguentava de tanta dor, inchaços e hematomas. As pancadas doíam no corpo e na alma. Tinha vontade de morrer. Desejava, ao desmaiar, que nunca mais acordasse naquele inferno. Queria que a levassem para um lugar bonito onde não existissem pais, nem pessoas agressivas, só existisse paz.  Porém a realidade era cruel e quando abria os olhos inchados de tantas pancadas, via o rosto transtornado  do pai.

– Por que tanto sofrimento?

Procurava ser uma boa filha, sempre ajudava a mãe nos serviços da casa e nos cuidados com os irmãos menores. Procurava tirar boas notas, apesar da cabeça estar sempre dolorida das pauladas.

– Por que o pai a maltratava tanto?

– Por que ele era tão violento?

– Por que ele a alisava tanto que chegava a machucar?

– Por que batia em seu rosto e chutava todo o seu corpo?

– Por que ninguém a acudia, não a tirava das garras desse homem tão violento?

Ele levava cigarro de maconha para casa, dizia que era para relaxar, se acalmar. Obrigava Branca a se viciar. Quando a menina puxava pouco, ele a batia com força na cabeça, queria vê-la inerte, submissa e assim tê-la aos seus braços. Ele a apalpava, a cariciava, se excitava e se masturbava como um demente. Quando o efeito da droga passava e se via nu com a menina ao lado, desacordada, tinha ódio por ela ser sua filha. Vestia-se rapidamente e começava a espancá-la com toda a fúria do seu desejo doentio.

A vizinhança via, ouvia, mas ninguém denunciava. Tinham medo do sargento e muita pena da menina. Não queriam represálias, o homem vivia armado, era temido pela sua ignorância e pelos defuntos que carregava nas costas. Achavam que Branca não sobreviveria de tanto apanhar.

Aos quinze anos surgiu um anjo negro na vida de Branca: um rapaz que a via sempre com o rosto coberto de hematomas e um sorriso triste nos lábios. Aos poucos conquistou o coração da jovem. Ela encontrou nele um confidente. Falava sofrida das tristezas d’alma e ele se comovia quando via as lágrimas caírem revoltas pelo rosto riscado de cicatrizes. Um amor imenso tomou conta do anjo.

Branca passou a conviver às escondidas com a família do rapaz. Gente boa cuja mãe não permitia agressões entre irmãos. Família criada sem gritos, sem palavrões. Quem grita, dizia a mãe, é porque não tem argumentos, já começa errando, já entra na discussão perdendo.

Quando Branca surgiu na casa de dona Rosa com o rosto inchado de marcas de dentes, lábios cortados e sentindo uma dor terrível na barriga pelos chutes que levou do pai, todos ficaram revoltados. Dona Rosa explicou para Branca que achava que o pai dela era tarado. Disse-lhe que ele não tinha coragem de estuprá-la por causa do quartel e por isso ele a agredia daquela maneira tão violenta. Ela, como mãe de seis filhos, não permitiria mais tamanha barbaridade. Se Branca aceitasse, seria recebida como uma filha em sua casa.

A menina não acreditou, finalmente chegara ao paraíso, alguém iria libertá-la do inferno. E o pai, como ele reagiria?

Rosa chegou ofegante na casa de Branca, levou consigo os quatro filhos homens, rapazes já feitos, corpulentos. Disse que veio buscar as coisas de Branca. A mãe da menina encolheu-se em um canto com o filho no colo aguardando o pior. O sargento esbravejou aos quatro cantos que a filha era dele e que a queria de volta, caso contrário a mataria e a todos que a acobertassem.

Rosa enfrentou-o cara a cara, e, como um coronel falou com rispidez e bravura:

– Vim buscar as coisas de Branca. Quem é você de não me deixar entrar. Quer que eu grite para todo mundo que você é louco, que quer possuir a sua filha, que a maltrata porque não pode fazer sexo com ela? Eu irei pessoalmente ao batalhão te denunciar, será expulso do quartel. E ai de você se ao encontrar com Branca levantar a mão para ela novamente. Quem irá te matar será eu e os meus filhos.

O sargento quase explodiu de raiva. Aquela mulherzinha estava se achando no direito de entrar em sua casa e tirar a sua filha, não permitiria tal coisa. Infelizmente  sabia da fama de Rosa, sabia de sua valentia, sabia que ela era capaz de tudo, inclusive de denunciá-lo ao quartel. Não podia se desmoralizar perante o seu superior. Tinha medo de levantar suspeitas e de ser alvo de inquérito.  Sua ficha era  limpa,  era  admirado  pela  bravura   e competência entre os colegas e superiores. Sonhava com uma nova patente, nada poderia manchar a sua carreira, nem a filha tão desejada.

Branca finalmente encontrou um lar. Rosa a tratava como carinho, pois desejava que ela esquecesse um pouco o seu sofrimento. Com o tempo as coisas foram se acomodando. Branca foi trabalhar em uma loja de varejo, sentia-se mais segura ao lado do Anjo que lhe dava amor e carinho.

Sua tranquilidade foi rompida quando a chamaram com urgência na casa do pai. Pressentiu que algo de ruim havia acontecido. Quando entrou na sala viu uma cena terrível: no chão jazia o corpo inerte do sargento. Sangue escorria pelas costas, a cabeça estraçalhada deixava partes do crânio à vista. A mãe estava encolhida no chão com a filha de três anos nos braços e olhava fixo o corpo do marido. Lágrimas silenciosas caíam sobre o seu rosto ferido de pauladas e o vestido rasgado deixava à mostra marcas vermelhas de agressões.

– Quem havia feito justiça com as próprias mãos? – Pensava Branca.

A mãe jamais…orreria de tanto apanhar, seria incapaz de levantar a voz para o marido, quem diria a mão.

Quem cuidou de dar cabo àquele sofrimento fora o filho mais velho que andava revoltado com tamanha barbaridade. Ficara envergonhado quando a irmã fora embora e ele não fizera nada para ajudá-la. Via com repulsa o comportamento vil do pai em relação à irmã, mas tinha medo do sargento e se acovardara. Agora não podia deixar repetir as cenas brutais com a mãe. O pai a maltratava com pancadas e depois a possuía com brutalidade e gritava o nome de Branca.

Ele era um ordinário, um tarado que não merecia viver. Não queria matá-lo, mas quando o viu dando chutes na mãe e na irmãzinha avançou contra o pai, retirou o pau que estava em sua mão, e passou a agredi-lo na cabeça. O sangue fervia de ódio pelo seu corpo, enquanto o sangue do pai esparramava-se pelo chão da sala.

Quando vieram acudir o sargento já era tarde, morrera de tanto apanhar.

Branca, quando viu o pai morto não sentiu pena, não sentiu tristeza, não sentiu nada. Já não havia nenhum sentimento no seu coração em relação àquele homem estendido no chão. A lembrança que tinha do pai era de um quadro de terror. Lembrou-se do olhar de desejo que havia em seu rosto quando ela acordou depois de consumir drogas que ele a obrigou a usar. Sentiu dores por todo o corpo e fincadas violentas nos seios. Quando passou as mãos pelos seios percebeu que sangravam e tinham mordidas profundas e doloridas. No rosto havia marcas de dentadas nas bochechas, testa e queixo e também sinais de dentes na barriga, coxas e pernas. Parecia que um bando de cachorros a havia atacado, estava em estado lastimável. Recorda-se, com alívio, quando dona Rosa, mulher valente a protegeu e cuidou dela como uma filha.

Agora, vendo o pai morto e desfeito em sangue, sentiu só náusea, somente.

Hoje, Branca procura esquecer as lembranças amargas do passado, mas as cicatrizes ficaram profundas em sua memória e em seu corpo, principalmente no seu lindo rosto. Marcas que ela não consegue esconder mesmo usando pesada maquiagem. Quando se olha no espelho, relembra a surra de vara que lhe marcou o olho esquerdo, chutes de botina que lhe deixaram uma cicatriz nos lábios, tapas, gritos, dores. Cada um dos cortes, pequeno ou grande, faz parte das violências sofridas. Marcas doídas, marcas malditas que lhe acompanharão por toda vida.

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Publicado em 22 de fevereiro de 2017 por e marcado , , , , , , .
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