Vidas em contos

(por Rita Prates)

As mãos mágicas da massagista

Uma amiga contou-me a história de um casal que morava em um apartamento vizinho ao seu.  A janela de sua área de serviço dava para a janela da sala de outro apartamento. Eles deviam estar na casa dos trinta anos, mas acumularam casos que foram lembrados por muito tempo.

Quando ela se casou pela segunda vez, levou consigo a amargura de um casamento desfeito e ele levou uma mala cheia de ilusões e sonhos. Ela tinha os cabelos longos e anelados e um corpo juvenil. Mais parecia uma hippie dos anos sessenta. Ele era discreto e sereno. Tinha o rosto de um eterno garoto bem cuidado pela mãe protetora e andava sempre arrumadinho e limpinho. Formavam um casal de contrastes, mas tudo bem, os opostos se atraem. Ela teve um filho, que não fazia parte dos planos dele, mas foi acolhido com carinho.

Passado algum tempo os opostos entraram em atrito. Brigas e gritaria vinham da janela dos fundos. A voz dela sobressaia sempre aos berros, incomodando toda a vizinhança. Minha amiga tinha que isolar as janelas dos fundos e da cozinha para não ser incomodada.

A única coisa que acalmava a vizinha eram as mãos abençoadas de sua massagista. A moça frequentava a casa há mais de dois anos, ouvindo os lamentos da cliente enquanto percorria o seu corpo relaxando-a das tensões do dia a dia.

A massagista também fazia massagens em minha amiga, em uma academia, e contou-lhe que a vizinha implorou para que ela fizesse massagem em seu marido. Ela recusou alegando que não atendia homens casados. Como o casal vivia brigando, a moça se compadeceu e resolveu ceder ao pedido da cliente. A terapêutica massagem com óleos e incensos servia como um calmante milagroso para o tenso casal, pelo menos um dia na semana.

Por fim se separaram. A vizinha procurou cada morador do prédio pedindo que eles  testemunhassem a favor dela. Queria que alegássemos que o marido batia nela com frequência. Ninguém aceitou pois ela nunca apareceu com marcas roxas ou hematomas que denunciassem agressões.

Ela continuou morando no apartamento com o filho e ele saiu levando alguns móveis.  Porém, ficou de voltar para pegar a sua coleção de CDs. Eram mais de mil CDs de músicas, que ocupavam um móvel milimetricamente feito para guardá-los, em toda extensão da parede da sala. Ela, para se vingar, não o deixou levar o único bem que ele mais gostava. O rapaz precisou entrar na justiça para conseguir a sua coleção de volta.

Dois meses após a separação chegou uma mudança com alguns móveis para ocupar os espaços vagos que o marido havia deixado na casa. Veio também um homem mais velho para ocupar o lado vago na cama de casal. Para a nossa surpresa o sujeito era, nada mais nada menos, do que o psiquiatra da vizinha.

A figura esdrúxula do médico rapidamente caçou rumo quando as brigas começaram e os gritos passaram a invadir novamente a janela dos fundos. Em menos de duas semanas a lua de mel acabou. De repente, surgiu um caminhão de mudanças na porta do prédio e levou de volta as tralhas do médico. Até ele não aguentou a histeria da amante.

Sem emprego e sem condições de sustentar a casa ela saiu do prédio. O ex-marido voltou para o apartamento. Fizeram um acerto e ele ficou com a casa e com o filho para cuidar. Pai e filho se encontraram na música, no violão e nos estudos.

– Minha querida você não sabe o melhor da história – falou a minha amiga. – Passados alguns meses entro no elevador e encontro a massagista vestida para matar. Usava um macacão de oncinha, cujo decote realçava os seios avantajados. Os cabelos com apliques dourados iam até a cintura e nos lábios um batom vermelho sangue.

Ela havia saído da academia e agora atendia nas residências. Falou-me que resolveu mudar o visual para agradar os clientes. Agora só atendia homens, pois eles pagavam melhor e valorizavam o seu trabalho.

Voltara a massagear o vizinho. Disse-me que as suas mãos santas, como ele as chamava, seduziram o rapaz e o levaram à loucura.  Ela deu-me um sorriso safado e completou:  “Nos dias em que o menino vai para a casa dos avós, venho fazer massagens nele. Desenvolvi técnicas de massagens corpo a corpo que o deixam maluco. Depois te conto como se faz. O seu marido vai adorar.”

– Agora, o comentário no prédio é de que os moradores ouvem gritos e sussurros de prazer do vizinho, o que causa inveja em muitos maridos loucos por uma massagem especial. Não perco a oportunidade de aprender algumas lições sobre massagens eróticas quando a encontro na portaria. Ela adora dar dicas e sugestões do que fazer com as mãos.

– Cuidado! – Falei. – Essa massagista pode acabar fazendo muitos clientes secretos aqui.

– Verdade, concordou com um sorriso debochado. – Você acredita que o meu marido sugeriu que ele fizesse algumas sessões com a massagista? Me disse que é para avaliar se eu estava aprendendo as lições e, se eu passasse no teste, poderia montar um curso de massagens eróticas aqui no prédio e faturar milhões. Malandro ele, mas estou de olho vivo! – Me disse sorrindo.

Descemos do elevador no quarto andar, onde imaginei ouvir gemidos vindos do apartamento dela.

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Publicado em 7 de fevereiro de 2017 por e marcado , , , , , , .
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