Vidas em contos

(por Rita Prates)

Até que a morte nos separe

Encontrei essa manhã com a avó de uma amiga. Ela está com mais de sessenta anos, mas aparenta muito menos. A última vez que a vi, estava em uma festa e parecia distante, triste e sem entusiasmo. Achei que era porque havia se aposentado e perdido o foco.

Começamos a conversar e fomos parar em uma cafeteria próxima à minha casa. Disse-lhe que estava muito bonita, exalava charme. Verdade! Parecia outra mulher, mais falante e elegante. Contou-me que havia se separado e passou a relatar o que ocorreu.

– Até que a morte nos separe, assim jurei na igreja, assim queria no fundo do coração. -falou a meio tom. – Não foi a morte que nos separou, foi o abandono. Foi o distanciar passo a passo em rumos diferentes. Foi o emaranhar de emoções desconexas, desfocadas com o tempo, despidas de desejos.

Era necessário o recomeçar. Não podia se afogar em um mar de lágrimas e ser sugada pela tristeza. Tinha como exemplo as amigas que souberam superar as perdas e se encontrar, e outras que se amargaram em fel e se despedaçaram em mil pedaços.

Ouviu da colega de seu filho que a mãe dele não deveria ter se separado. Achava uma loucura ela ficar sozinha como a sua tia: só e amarga. – Para a jovem, o melhor seria eu continuar do jeito que estava, com uma boa casa, dinheiro e status, falou amargurada. – Ela não conseguiu ver o manto de tristeza que me cobria os olhos, o sentimento de abandono nas noites frias em frente à TV e uma vontade terrível de me fazer invisível e partir, nem que fosse para outro plano.

Olhou-me bem nos olhos e prosseguiu. – Procurei me agarrar ao que restou de mim e deixei que a onda me levasse para um lugar seguro. Larguei para trás todas as amarras e segui em busca de uma nova oportunidade. A culpa não estava no carma e nem no destino. Na verdade não havia culpa e sim uma história com momentos felizes, mas que acabou sem serem felizes para sempre.

Optei em encontrar novos abraços, beijos mais espontâneos e sexo com mais entusiasmo.  Apesar dos anos vividos, dos filhos crescidos e dos cabelos brancos cobertos de tons louros, não me sentia envelhecida para recomeçar. Sentia sim, com mais desejo de me divertir e encontrar um amor aqui, se não desse, ali, e se teimasse em não vingar, procuraria mais adiante até o achar.

Precisava me sentir querida, ter alguém para enroscar e ser abraçada com carinho e desejo.  Encontrar o prazer de uma boa conversa, de sorrir com os olhos, de soltar gargalhadas e voar sem limites. Hoje sonho com os pés no chão, sei que posso realizar os meus desejos, pois são factíveis. Conduzo a minha vida como quero e essa segurança me deixa com mais energia e determinação.

– Preste atenção em mim, disse a sorrir. – Olhe como estou mais leve, com menos rugas na testa e com os olhos mais brilhantes.

– Verdade! Você está outra, rejuvenesceu. Separar te fez bem, disse – lhe abraçando.

– Depois que me separei, encontrei mulheres da minha idade e mais velhas do que eu que, mesmo sozinhas, estão felizes. – falou entusiasmada. – Descobri que a vida não se resume a um casamento morno, choco e sem brilho. Que podemos nos divertir da forma que quisermos, sem cobranças e sem obrigações. Que a idade não tem limites, que podemos sim, encontrar pessoas agradáveis que nos façam bem.

– Conheço homens que se separaram e querem uma boa companhia. Não esses babacas que precisam pegar garotinhas para se sentir jovens, mas homens que estão interessados em bons papos, dançar, viajar e se divertir sem a obrigação com o amanhã.

– Hoje sou outra pessoa, disse beijando-me em despedida. Encontrei-me. Falo do fundo do coração.  Deu um belo sorriso e continuou. – Quando você estiver infeliz, não se desespere, liberte-se, se dê a chance de recomeçar, pois vale a pena buscar a felicidade.

-Pequenas coisas me fazem bem, como estar aqui conversando com você, viajando com amigos, indo a teatros e tomando uma taça de vinho. Hoje preencho a minha vida com coisas que me alegram, abandonei a tristeza e só quero ser feliz.

Fiquei olhando-a encantada enquanto se afastava. Seguiu em passos firmes, de cabeça erguida e olhar no horizonte. Virou a esquina, abriu as asas e voou indo de encontro às nuvens.

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Publicado em 31 de janeiro de 2017 por e marcado , , , .
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