Vidas em contos

(por Rita Prates)

Uma festa pra lá de bizarra

– O que aconteceu no prédio ontem à noite? Contaram-me que foi uma loucura a festa da garota do sexto andar. – Perguntou a moradora para a síndica.

– Realmente, foi tudo muito estranho, bizarro para ser mais exata. – falou a síndica, enquanto mais dois moradores pararam para ouvir o seu relato. – Na verdade eu cheguei quando a confusão estava no auge. Para ser sincera, foi surreal o que se passou ontem aqui no prédio.

Voltava para casa depois das dez horas da noite, após trabalhar horas lecionando. Quando virei o carro na nossa rua, deparei com uma multidão de jovens em frente ao prédio. Achei que estava tendo uma visão devido ao estresse, parecia que a moçada brotava do chão. Parei o carro onde deu e fui ver o que estava acontecendo.

Alguns moradores estavam na porta da garagem fazendo uma corrente para não deixar mais garotos entrarem no prédio. O porteiro e o segurança fecharam a portaria tentando conter a multidão. Os jovens gritavam e mostravam os convites pedindo para participarem do aniversário que ocorria no salão de festas.

Contaram-me que um colega da aniversariante tirou cópias do convite e espalhou para os amigos, que deram para outros amigos, e para quase todo sétimo período do colégio. Seria uma festa para uns sessenta convidados, mas pelas cabeças agitadas querendo entrar, calculei uns duzentos.

Corri para o salão e me deparei com dezenas de meninos e meninas no hall e na garagem se divertindo com a situação. Os pais da aniversariante estavam em pavorosa, sem saber o que fazer. Pedi que desligassem o som e desse por encerrada a festa.

O mais incrível aconteceu minutos depois. Ouvimos barulho de sirene da polícia, viaturas cercando a rua e avançando rumo ao prédio. Os jovens abriam o caminho para os carros em disparada, pulando nas calçadas e se espremendo nas paredes e jardins vizinhos. Vi, assombrada, seguindo em nossa direção, policiais com os corpos para fora das viaturas e nas mãos metralhadoras e revolveres apontando em várias direções.

Eles rapidamente desceram armados dos carros e se posicionaram aguardando ordens. Não entendíamos nada, parecia coisa de filme de ação, ao vivo e a cores. Os jovens entraram em pânico. Desencadeou uma crise histérica de choros e gritos, principalmente entre as meninas com medo de serem baleadas ou presas.

O comandante da operação veio nos perguntar onde estavam os marginais, se eles estavam dentro do prédio e se tinham feridos.

– Marginais… Que marginais? Perguntei sem entender todo aquele aparato.

– Telefonaram para o quartel dizendo que estava havendo um tiroteio nessa rua. Falaram que um grupo de marginais havia descido o morro e invadido uma festa. Disseram que eles estavam armados e que atiraram contra os jovens ferindo alguns.

– Eles estão lá dentro? Perguntou o policial.

– Não tem bandido nenhum por aqui e sim excesso de jovens que estão tentando entrar com convites falsos. – falei para o comandante. – Por favor, abaixem as armas, pois a meninada está apavorada com a presença de vocês. Já pedi para acabar com a festa e dispensar os convidados.

Três policiais entraram no prédio para dar uma geral. Quando eles adentraram no salão com armas em punho, a moçada saiu correndo, quase em pânico.  Uns saíram chorando, outros berravam assustados e outros ligavam desesperados para os pais pedindo para buscá-los com urgência. Gritos de protesto e de medo invadiram o quarteirão.

Em questão de minutos vimos os jovens descendo a rua em disparada e vários carros de familiares chegando para pegar as suas crias. Alguns pais revoltados com a situação nos agrediam com palavras rudes, achando que havíamos chamado à polícia.

Quando finalmente todos foram embora, a família da garota veio pedir desculpas e se responsabilizar pelos transtornos e estragos nos jardins e no prédio. Ainda em choque com o ocorrido, queríamos saber quem havia telefonado para a polícia e inventado tal barbaridade. Só podia ser o brigão do terceiro andar que não gostava de festas, de crianças e de barulho.

O nosso prédio sempre teve fama na rua de fazer festas barulhentas até altas horas da noite. Houve um aniversário de quinze anos de uma moradora que também virou assunto de polícia. Contrataram uma banda que fazia o som ecoar pela vizinhança. Todos os moradores do prédio foram convidados para evitar reclamações. Porém o morador brigão, que sempre implicava com tudo e com todos, chamou a polícia reclamando do som alto e perturbador. Quando os policiais tentaram entrar no salão para fazer a ocorrência, deram de cara com um ilustre convidado, que os dispensou, usando de sua autoridade e poder. Depois da “carteirada” os agentes disseram, indignados, que nem com o pedido do papa voltariam ao prédio.

Após a cena cinematográfica da polícia armada cercando os jovens e de lembrarmos, até sorrindo, da loucura que foi aquela noite surreal, criamos regras rígidas para as festas. Proibimos som alto depois de certa hora e normas de controle com nomes e números de convidados. Pelo menos o aniversário bizarro serviu para dar um basta nas nossas festas bombásticas e trazer paz para a vizinhança.

Há! Ia me esquecendo… A festa de aniversário virou assunto no colégio durante muito tempo. Como quem conta um conto, aumenta um ponto, até jovens heróis apareceram enfrentando bandidos e auxiliando os policiais. As versões foram tantas que daria para escrever outro conto cheio de ações e emoções.

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Publicado em 27 de janeiro de 2017 por e marcado , , .
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