Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sem saída

– Um vulto na esquina, o vejo em todos os lugares a me seguir. Às vezes penso que estou maluca, criando histórias, fabricando medos. É assim que ando ultimamente, desde que ele passou a me perseguir, disse cabisbaixa a mulher para a delegada.

– Sei que pouco pode fazer por mim. Ele anda solto, visível a olho nu.  Persegue-me como um animal a espreita, circulando sobre a sua presa, aguardando a hora de dar o bote e a engolir inteiro, mas antes prefere deixá-la apavorada, sentindo o cheiro do sangue e da morte.

– Vejo todos os dias casos de assassinatos de ex, fala ofegante. – Não é a primeira e nem a última vez que venho aqui pedir ajuda. Tenho dois filhos e quero vê-los crescer, mas nem sei se terei essa chance.

– Aceitá-lo de volta significa a minha crucificação, me enterrar viva dia após dia. Sentir as feridas brotarem em sangue e me ver rastejando sem direção. – Senhora delegada desculpe-me a emoção, mas a única saída para nos proteger é me prender junto com os meus filhos.

Colocada em uma sala a espera de uma solução, começa a refazer a trajetória de sua vida junto ao louco que está a persegui-la. Casou ainda jovem, mal havia saído da faculdade. Ele, colega de sala, era seu companheiro de todas as horas. Gentil, amigo e apaixonado, em nenhum momento suspeitou de seus transtornos, de suas alucinações.

Família de posses, pai desembargador, deu-lhes apartamento para morar e emprego. Menos de um ano de casada veio a primeira crise: por um simples discordar, passou a gritar. O tom crescia a cada esbravejar, sem controle começou a quebrar tudo à sua volta e avançou para ela querendo lhe enforcar. Com rapidez passou a mão no celular e entrou no banheiro. Trêmula a chorar, ligou para a sogra e socorro pediu a implorar.

Ele enlouquecido esmurrava a porta e jurava vingar-se de algo que a sua imaginação estava a criar. Por fim ouviu vozes, gritos, empurrões e o seu nome chamado por uma mulher. Ao abrir a porta viu homens de branco colocando-o em uma camisa de força. Deram-lhe uma injeção e o carregaram porta afora. A sogra veio lhe avisar que calada deveria ficar, nada a comentar.

Apavorada, pensava em se separar, mas foi convencida que a doença estava sobre controle e só ela poderia ajudá-lo a se curar. Ele jurou que não deixaria de tomar os remédios e prometeu que não lhe agrediria mais e nem lhe feriria a alma. Aceitou os apelos, mesmo magoada com os sogros, por não terem contado sobre os transtornos que o acompanhavam desde garoto.

Vieram os gêmeos e, quando tudo parecia sob controle, ele voltou a surtar. Acertou-a no queixo, no estômago e quebrou toda a cozinha. Os vizinhos a socorreram e os pais chegaram junto com os policiais para abafar o ocorrido. Novos pedidos, novas súplicas, acabou cedendo. Teve pena dele e dos filhos. Ia o aceitar de volta se parasse de beber e começasse um novo tratamento.

Tudo voltou ao normal por alguns meses até ele aparecer com dois bêbados que tentaram lhe estuprar. Conseguiu se soltar de pernas que lhe entrelaçavam o corpo e mãos que lhe rasgavam a roupa. Correu seminua pelo prédio gritando por socorro. Pediu a separação. Ele não aceitou e também não quis sair de casa. Largou tudo para trás e foi com os filhos morar com os pais.

Ele passou a culpá-la pelo descompasso. Dizia, entre delírios, que era ela quem destruiu o lar. Os pais o apoiaram, alegaram que o rapaz era fraco das ideias, mas era um filho devotado. O sogro ameaçou lhe tirar as crianças se contasse os transtornos do filho. Tinha que preservar o status da família. Não permitiria escândalos, pois poderiam prejudicar a carreira de todos.

Depois da separação não teve mais sossego. Ele a seguia como uma sombra enlouquecia. Aparecia do nada e com a cara mais cínica lhe pedia perdão. Suplicava, depois vinha o pranto, depois os berros. Ameaçava se matar se ela não o aceitasse de volta, mas antes a mataria.

Passou a agredi-la na rua com palavras e gestos ferozes, como um louco desvairado, enraivecido, pronto para o que der e vier. Rastreava os seus passos, sua voz e o seu sossego, deixando-a muda de medo e desamparo. Aonde ia, lá estava ele a lhe espreitar. Vigiando-a, como um atirador, na mira de sua arma.

Ele gritava com as crianças quando elas a defendiam. Tinham medo dele e ela de que ele as maltratasse. Invadiu o seu trabalho, foi colocado para fora, jurou vingança. Largou a academia quando ele passou a fazer ginástica no mesmo horário que ela. Nos restaurantes sentava na sua mesa dizendo que ela o convidara. Alegava, em suas alucinações, que ela o amava, e que fazia charme para que ele a procurasse.

Ela chegou a pensar em se entregar ao sacrifício, queria preservar os filhos. Sabe que não existe proteção policial nem ele obedecerá aos trezentos metros de distância estabelecidos pelo juiz. Nada vai detê-lo se ele quiser acabar com ela, se ele quiser destruir o seu futuro e interromper a sua história.

Aguardando a delegada na sala fria da delegacia, chegou à triste conclusão de que havia perdido a esperança de voltar a ser livre, de andar sem medo e de poder reconstruir a sua vida com os filhos. Pensou, entristecida, que dentre em breve passará a ser mais uma vítima na estatística da violência contra a mulher. Sairá na televisão, será mais uma manchete nos jornais. Contarão a sua história, falarão de quantas mulheres foram assassinadas pelos companheiros, pedirão providências para protegê-las e encerrarão a reportagem chamando os comerciais.

 

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Publicado em 17 de janeiro de 2017 por e marcado , , , , .
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