Vidas em contos

(por Rita Prates)

Um dia de espiã

Moro em um apartamento cercado de prédios por todos os lados. Sempre olho com curiosidade para as janelas tentando adivinhar as histórias desses lares. Ontem à tarde,  resolvi espiar a redondeza. Há tempos queria fazer isso, invadir com o olhar a privacidade dos meus vizinhos. Queria saber o que se passava nos apartamentos. Que histórias tinham para me contar? Que segredo tinham para eu desvendar?

Vi movimentos, vultos, rostos que se deslocavam e se desfocavam na minha retina. Estranhas realidades de muitos andares. Cortinas entreabertas que não me deixavam enxergar o escuro da sala. Movimentos de corpos na varanda a me espreitar. Também queriam desvendar os meus mistérios.

Vozes de crianças nas áreas de lazer denunciavam vidas entre concretos. Latidos se uniam com risadas e brincadeiras. Pulsavam corações, palmas no ar, vidas que vibravam num alegre gargalhar. Moradores se refrescando nas piscinas dos prédios, bolas picando nas quadras e cachorros passeando no colo dos donos, “Proibido animais soltos nas áreas comuns”.

Quando anoiteceu consegui enxergar melhor através das salas iluminadas. Telas enormes de TV, sofás e pernas esticadas nas poltronas, mesas postas e cheiros misturados de comida vindos em todas as direções. Luzes acendiam e apagavam em um leve piscar, era gente chegando e indo. Pessoas atravessavam os cômodos em câmara lenta, pareciam fantasmas que caminhavam a vagar. Percebendo-me, fitavam embaçadas querendo se esconder.

Em uma varanda um casal se abraçava e se beijava ardentemente. Depois entraram no quarto e fecharam as cortinas. Imaginei-os fazendo amor. Uma mulher solitária trabalhava com potes de vidro, cobria-os de arte em diversos matizes. Ia dispondo-os um a um na prateleira colorida. Um rapaz em frente à tela do computador trabalhava avidamente. Irá teclar noite adentro até a cama o seduzir e o levar para o aconchego do seu colo. A sala do casal de idosos estava cheia de gente rezando em frente a uma imagem de Nossa Senhora. Bendito é o terço que preenche e enche sua casa de amigos.

Uma criança chorava no berço. Um homem a pegou no colo e a embalou rente ao peito, parecia cantar canções de ninar. Adormecida, ele a colocou no berço e a beijou com carinho, deixando apenas um feixe de luz vigilante na escuridão. Um rapaz sem camisa correu para a porta, abriu-a e deu passagem a uma jovem com uma correspondência na mão. Ele rasgou com cuidado o envelope, tirou uma folha e a fitou demoradamente. Devia ter algo escrito que o deixou feliz, pois ele beijou a garota e rodopiou com ela nos braços pela sala.

O prédio de escritórios da esquina estava com quase todas as luzes apagadas. De uma janela entreaberta vi uma jovem trabalhando sufocada entre pastas e papeis. Provavelmente irá romper a madrugada na labuta. No andar de baixo, dois homens conversavam agitados. Pareciam aflitos entre nuvens de fumaças vindas de tragadas nervosas. De repente levantaram, se abraçaram demoradamente e saíram apagando as luzes. No penúltimo andar vi um grupo ao redor de uma mesa. Assistiam a uma apresentação. De tempo em tempo um levantava e começava a falar. Estavam atentos e concentrados quando uma moça chegou trazendo uma garrafa de café e distribuindo xicaras sobre a mesa. Beberam rapidamente o líquido quente e voltaram para uma nova maratona de conceitos e planos alinhados com o satélite que em breve cruzará  o céu da sala.

No prédio ao lado acontecia uma festa. Vi gente chegando e indo para o salão. Jovens sarados e moças decotadas e risonhas conversavam alegremente. A música, nas alturas, ecoava pelos prédios. Alguns dançavam animados e outros desafinavam ao cantar. Bebidas e salgados circulavam entre bocas sedentas e gulosas. Na área externa, perto da piscina, estavam dois casais se beijando e se atracando nas espreguiçadeiras. Um rapaz, que só depois percebi a presença, estava sentado em um banco com uma garota em seu colo. Parecia que estavam dando uma rapidinha.

Ligo o meu radar e passo mais uma olhada pela redondeza. Luzes retardatárias iam se apagando lentamente. Já passava das duas da matina quando resolvi ir para cama. Fechei as cortinas, me preparei para dormir, mas antes corri para o computador. Precisava registrar o meu glorioso dia de vizinha espiã de prédios agitados, cobertos de concreto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 13 de janeiro de 2017 por e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: