Vidas em contos

(por Rita Prates)

Memórias de um bar

Trabalho em um bar há mais de vinte anos. Vi de tudo, desde pequenas brigas a grandes escândalos, histórias divertidas e dramalhões. Gente descarregando mágoas e encontrando amores, fazendo amigos e festejando vitórias. Selecionei alguns casos que fazem parte da memória do bar.

Lembro-me de um cliente assíduo. Cinquentão, boa pinta, moreno alto, alegre, contador de casos e sedutor. Andava sempre acompanhado de uma garota de no máximo 25, mostrava vigor com as mulheres, o que causava inveja aos amigos.

Uma noite a casa caiu, ou melhor, o Viagra caiu no banheiro. Isso mesmo, o cara era movido a Viagra. Havia conseguido conquistar uma louraça, que era disputada por mais dois pretendentes. Entrou no banheiro para dar uma geral no visual antes de sair. Depois de se arrumar, pegou o pequeno comprimido para tomá-lo longe dos olhos dos amigos. Queria sair turbinado, para quando chegasse ao motel estar zero bala. Porém, o pequeno rebelde escapuliu de sua mão e caiu no piso do banheiro.

Agachou no chão para localizar o fujão. Estava imundo debaixo da bancada, e nada de ver o maldito. Passava a mão de um lado ao outro já temendo o pior. – E se o safado caiu no ralo, como faria para acender a banana de dinamite? Pensou angustiado com o rosto colado no piso, nada limpo, enquanto sujava as mãos tentando achar o pestinha.

Na procura desembestada sentiu que alguém tentava abrir a porta do banheiro. Desesperado, deitou-se no chão e ficou com as pernas segurando-a, enquanto se arrastava procurando o desgarrado. Pressão de fora para aliviarem os rins, pressão alta de dentro na cata do infeliz. Por fim resolveu desistir de procurar o ingrato, pois havia um grupo de mijões do lado de fora empurrando a porta, quase a jogando no chão. Deu um suspiro de vencido, e, quando foi se levantar, vi-o encostado no vaso, rindo de sua cara. Pulou em sua direção e o colocou imediatamente na boca, nem quis pensar no gosto esquisito quando o engoliu. Os homens entraram no recinto quase passando por cima dele. Queriam, na verdade, urinar em sua cabeça. Como vingança por tê-lo deixado cair, o desmiolado do comprimido demorou a fazer efeito, e ele quase perdeu o tesão e a paquera.

No dia seguinte contou para os amigos e para mim o que havia acontecido no banheiro. Foi motivo de chacota. Agora sabiam de onde vinha tanta vitalidade. O que podia fazer se há anos era um viciado em mulheres e em Viagra, disse rindo. Jurou que se ficasse sem os dois, sua vida acabaria, pois um completa o outro, como o sol e a lua.

Nesse mesmo grupo de rapazes havia um baixinho metido a galanteador. Por ser filho de político influente, achava que podia tudo. O bar funcionava até de madrugada, pois muitos frequentadores bebiam caros uísques até o dia clarear. Certa madrugada o rapaz chegou com um grupo da faculdade, todos estavam bastante alterados. Vinham de uma festa de formatura e queriam continuar a farra noite adentro.

Uma das moças do grupo viu o namorado acompanhado de outra. Alterada pela bebida, subiu na mesa e chamou o baixinho para dançar. Eles foram fazendo strip-tease, tirando as roupas lentamente. Quando cheguei, estavam os dois só de peças íntimas rebolando e se esfregando. O bar parou para assistir a cena. O namorado explodiu de raiva, largou a acompanhante, tirou um pano da mesa ao lado, e agarrou a moça pela cintura enrolando-a na toalha. Saiu com ela pendurada no ombro, entrou no carro e acelerou em disparada. Todos ficaram de queijo caído, inclusive a garota que o acompanhava.

O rapaz seminu desceu da mesa e foi consolar a abandonada. Pegou-a pela cintura, mas ela reagiu rápido. Deu-lhe um tapa no rosto, saiu correndo, e pegou o primeiro táxi  da fila. Uma semana depois estava o casal aos beijos festejando a reconciliação. Vai entender essa moçada, melhor fingir que nada aconteceu.

Vi também vários casais que se conheceram no bar. Casaram-se e continuaram frequentando o recinto. Outros pares, também, se separaram, mas sempre retornaram com os amigos e novos amores.

Trabalhou no bar uma garçonete que tinha o apelido de cupido. Estudante de letras, era a queridinha dos rapazes e das moças, que estavam na área a fim de paquerar.  Era a encarregada dos bilhetes e, às vezes, dava um toque em um ou outra, dizendo quem estava de olho em quem. Ela também tinha as suas regras nessa atividade paralela: nunca entregava o bilhete sem dar uma olhada. Dependendo do que estava escrito, sabia se ia dar jogo ou não.

– Bilhete com erros de português é fria, fracasso na certa – afirmava sorrindo – Bilhetes ingênuos conquistam as garotas, os atrevidos nem sempre vingam. Os com humor despertam interesse e, os diretos, assustam. Dizia que às vezes tinha vontade de rasgar os bilhetes, eram mal escritos ou atrevidos demais.

Achava-se uma expert no papel de cupido. O pessoal adorava suas tiradas. Se sentisse simpatia por alguém, devolvia o bilhete e mandava o cara ou a menina reescrevê-lo. Uns ficavam sem graça, outros, mais na deles, pediam dicas de como escrever para se sair bem.  Ela contribuiu como a deusa do amor ao formar vários casais.

Era divertido ver quando dois jovens trocavam mensagens e nada acontecia. Depois de várias idas e vindas, a garçonete ficava irritada e com a cara fechada, chamava os jovens na área externa do bar, e mandava-os conversar tête-à-tête. Dizia-lhes para parar com aquela frescura, pois a sua paciência havia se esgotado. Com isso, os encabulados acabavam rindo e se entendendo. Para a nossa tristeza, uma boate a surrupiou de nós.

Escreveria um livro contando memórias do bar, mas para encerrar, tem um caso que me marcou muito. Quando entrei para trabalhar no bar como garçom, conheci um cliente, na faixa dos quarenta anos que tinha acabado de separar-se de sua esposa. Estava com muita raiva da ex e das filhas, que pouca atenção lhe davam. Chorava suas mágoas bebendo noites adentro, quase todos os dias.

O moço era bonitão e muito rico. Durante esses anos se engraçou com diversas mulheres, sem firmar com nenhuma. Os namoros duravam pouco. Ele alegava que as moças eram fúteis, interesseiras e não sabiam lhe conquistar. Elas afirmavam que ele bebia muito, ficava chato, vivia repetindo os mesmos casos, e, algumas vezes, tornava-se agressivo, chegando a bater em algumas.

Para finalizar, hoje, o bonitão perdeu o glamour. É um sessentão, com mais de cem quilos e um olhar vazio. Com fama ruim em seu meio, passou a namorar meninas da periferia, presenteando-as com calças jeans e contas em salões de beleza. Uma, mais esperta, na faixa dos vinte e poucos anos, procurou se ajeitar na vida e engravidou dele. Sozinho novamente, mas acompanhado da foto da filha de um ano, mostra para os amigos o retrato da menina. Fica a vagar pelo bar, a procura de alguém que queira beber com ele e ouvi-lo chorar as suas mágoas. Senta-se à mesa, que há anos o acompanha, na saúde e na tristeza, até que a morte os separe.

As lembranças são muitas. São como luzes a refletir em minha memória. Deslizam pelas mesas que sustentam copos no ar, que brindam a vida, a saúde ou os companheiros que se foram. Rememoro o brilho dos olhares, o arrastar das cadeiras, o burburinho de vozes atravessando paredes, o vai e vem dos garçons dançando de mesa em mesa e dos risos e dos choros de despedidas. Sinto-me privilegiado de ser também um personagem da memória desse bar onde fiz amigos, que fazem parte da minha existência. Quando eu me for, vão narrar histórias sobre um garçom divertido, que gostava de consolar os clientes solitários e de contar casos hilários ocorridos no bar. Levantarão suas taças e brindarão a minha memória e a do bar.

 

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Publicado em 3 de janeiro de 2017 por e marcado , , , , .
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