Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas parte 11 – Abandono

Abandono, esse é o tema de hoje – diz Tati quase suplicando ao grupo que o aprovasse. Ninguém se manifestou e ela continuou. – Vocês já sabem que fui abandonada pelo meu ex-marido, aquele ingrato, crápula e desleal. Não consigo deixar de pensar nele um só minuto, lembro-me dele e tenho ódio, raiva e indignação. Como pode ter me abandonado quando ainda estava com as crianças em fase de crescimento? Como pode ter me deixado só com esse fardo todo? Como pode ter deixado de gostar de mim, quando eu me transformava em dona de casa, empregada e esposa? Como pode achar que ficaria bem sozinha e desamparada? Como pode me substituir por qualquer uma?

– Quero me vingar dele, já pedi na separação tudo o que tinha direito e o que não tinha. Quero atazana-lo, infernizar a vida dele, tirar o seu sossego. Quando ele saiu de casa falou que levaria só a roupa do corpo para se vir livre de mim. Pequei no armário dele todas as suas roupas finas e importadas e doei para um asilo. Escondi toda a sua coleção de CDs no sítio do meu pai. Rasguei todas as fotos em que estávamos juntos, e já estou fazendo a cabeça dos meninos para ficarem com raiva do pai.

– Questiono-me a cada dia, a cada hora, a cada minuto tentando achar respostas para o meu abandono. A dor é grande e o ódio é maior. Estou me corroendo por dentro e me destruindo por fora. – Vejam o meu estado – grita Tati para o grupo. – Estou aqui porque estou à beira de um colapso. Muitas vezes desejo matá-lo e depois suicidar. Tento ser racional, mas não consigo, tento entender, mas não acho respostas. Quero que me ajudem a encontrar equilíbrio para sair inteira dessa fase tão amarga da minha vida.

– Não sei se é através de vinganças que encontrará o seu equilíbrio – fala Heide, pausadamente. Quando nascemos somos abandonadas nesse mundo, uns nos rejeitam e outros nos acolhem. Sofremos vários abandonos durante a nossa vida, ainda criança no jardim os colegas nos trocam por outros, abandonamos e fomos abandonados por namorados, amigos e familiares. É difícil e sofrido lidar com o abandono.

– Perdi uma filha que resolveu abandonar esse mundo. Ela se foi achando que seria mais feliz em outro plano. Abandonou a sua vida jovem, porque se achava cheia de problemas e sofrimento. A dor que ela deixou foi muito grande, uma saudade enorme e solitária.  Essa dor de abandono amplia quando somos incapazes de perceber que o outro estava de partida, que ele iria romper com você e com a vida, te deixando desamparado na sua dor de não perceber qualquer sinal. Já me condenei, me culpei, me martirizei por ter falhado como mãe, mas a partir do momento em que tive como resposta que a doença foi a causa da sua ida, me ajudou a entender o porquê dela ter nos abandonado tão na plenitude de sua juventude.

Todo abandono tem uma causa e uma consequência. Para saber precisamos ir a fundo, procurar a causa, mesmo que ela nos atinja o coração em cheio. Necessitamos dessa resposta para sobreviver e irmos corrigindo nossas falhas e errando menos.

– Sei de tantas histórias de abandonos que acabam mal, que uso desse argumento para não me envolver e ser abandonada novamente. – declara Laura. Tenho uma amiga que foi amante de um cara durante vinte e tantos anos, quando ele ficou viúvo se casou com outra após seis meses. Alegou que a estava abandonando para lhe dar oportunidade de encontrar um cara melhor do que ele.

– Muitas vezes não queremos ouvir as respostas mais óbvias com medo de sairmos feridos e, com isso, prorrogamos os nossos sofrimentos e perdemos boas oportunidades na vida. Como esse caso, existem muitos parecidos que acabam mal, porque começaram mal. O abandono era carta marcada, mas muitos querem blefar e acabam perdendo o jogo.

– Abandonei meu marido e os meus filhos por um louco amor, em contrapartida fui abandonada por meus irmãos e desprezada pelo meu pai. – desabafa Lili ao grupo. Na verdade eu e o meu marido fomos abandonando um ao outro lentamente, ano após ano.  Havia entre nós um buraco vazio de amor, só conseguia vê-lo como um amigo querido. Era o único sentimento puro que ficou da nossa relação. Eu o traia com outros e outras. Ele me abandonava, me deixava de lado por uma tela de TV, que era ligada após a sua chegada em casa e desligada quando roncava no sofá.

– Ele era neutro em relação ao sexo, demonstrava pouco interesse, parecia uma obrigação. Para ele, o simples gesto de ligar a TV e ficar ouvindo baboseiras já o satisfazia. Para fazê-lo me acompanhar em um restaurante ou em festas de amigos e familiares, eu tinha que implorar, o que nem sempre dava resultado. Os nossos dias se resumiam em trabalho e casa, o inimigo cruel do casamento invadiu o nosso lar. A monotonia tomou conta da relação, a mesmice, o previsível, o de sempre passou a comandar o nosso dia a dia.

O companheirismo não existia mais entre nós, apenas amizade.  Esgotada, fui à busca de alguém para conversar comigo e me envolver com o seu corpo quente. Foi ai que encontrei a minha companheira, ela preencheu o meu vazio. Gosta do que eu gosto. Faz questão de estar comigo em todos os lugares. Está sempre preocupada em me agradar e me fazer feliz.

– Moro sozinha e me sinto um pouco abandonada, o que me torna mais desvairada – afirma Valéria. Sempre fui independente. Segui o meu caminho sem interferência dos meus pais.  Tive milhares de amores que me abandonaram e que eu os abandonei.

Ao me abandonarem, recebo críticas sobre a minha forma de viver. Falam que ultrapasso os limites do bom senso. Algo em mim move para essa falta de juízo, de achar que posso e que tenho o direito de usar o meu corpo e o meu saber para satisfazer as minhas transgreções. Quando  percebem que estou a beira de me apaixonar, me largam no meio do caminho,  como se eu fosse contaminá-los com a minha insensatez.

– Abandonei o bom senso uma noite dessas em um restaurante. O meu ficante pediu que eu tirasse a calcinha e a entregasse a ele. Adorei o desafio. Estiquei discretamente daqui, puxei de cá, até entregar-lhe uma minúscula e sexy calcinha. O presente o deixou muito excitado. Tivemos que sair do restaurante antes que ele me devorasse na mesa.

A loucura foi tanta que, ao chegarmos à garagem do prédio, me entreguei como uma gata no cio. Desvairados, subimos os três lances de escadas transando como loucos. A minha sorte foi que ainda não instalaram câmaras nos andares, mas percebi que a vizinha de frente ao apartamento dele estava nos vendo pelo olho mágico.

– Acho que eu abandonei a ilusão de um casamento normal, desabafa Kátia. Vi que para me manter casada teria que abandonar o meu orgulho e os meus conceitos sobre fidelidade e confiança mútua. Tornei-me uma mulher solitária dentro de uma falsa relação sem amor.  O que faz manter o meu casamento é o luxo, o status, as viagens ao exterior, as lojas de grife, e, também, uma vida dupla com homens que não amo.

Abandonei a esperança de amar e ser amada, de acreditar na felicidade a dois, de passear de mãos dadas e dar beijos apaixonados. Acostumei-me, entre aspas, a essa vida, e por isso abandonei meus sonhos de felicidade.

– Já percebi que quando perguntam se sou casada e explico que não, me olham de lado. Às vezes caio na besteira de tentar explicar que é uma opção minha – fala Laura com um sorriso de deboche.  Acham que estou mentindo, que fui abandonada pelos homens. Ao me taxarem de solteirona, me colocam uma marca de solitária, abandonada a sua própria sorte.

Ledo engano! Eu poderia fazer como várias mulheres que eu conheço. Elas, para não ficarem sozinhas, procuram caras de condição econômica inferior ou de nível intelectual mais baixo. Vão atrás de um companheiro, de carinho, de um cara para chamar de seu.

É uma relação difícil, mas muitas abrem mão de encontrar o “homem ideal” que se enquadre nos seus padrões, então partem para os de segunda linha. Algumas se sentem felizes. Realizam o sonho do casamento. Outras se defrontam com a realidade tempos depois. Percebem que caíram na armadilha preparadas por elas. Quando as diferenças ficam insuportáveis e resolvem abandonar o sonho do casamento eterno.

– Ter filhos não nos assegura que não seremos abandonadas na velhice. Hoje o que mais ouço são pais que se veem abandonados pelos filhos. Reclamam da solidão nos finais de semana, de um simples telefonema para saber se estão bem, de chama-los para irem a suas casas ou leva-los para almoçar. Dizem que saberão de suas mortes quando os seus corpos estiverem podres, e os vizinhos os avisarem.

– Lidar com o abandono, é ir de encontro à dor da solidão, pondera Heide.  É ir ao fundo do poço, e depois, se ainda restarem forças, seguir adiante tentando unir os caquinhos. Muitos adoecem e até morrem, mas sempre em nossas vidas seremos abandonados e abandonaremos alguém. Saber se reerguer é o mais desafiador. Fechar a ferida exposta pelo abandono, e deixa-la cicatrizar aos poucos, com paciência, nos amadurecerá e nos fará mais fortes e seguros.

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Publicado em 15 de dezembro de 2016 por e marcado , , , , , .
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