Vidas em contos

(por Rita Prates)

Tias solteironas ou tias libertas?

As tias solteironas eram a marca registrada da família. Procuravam manterem-se castas, reservadas, contidas, e eram terrivelmente respeitadas. O que para muitas era uma tortura. Viviam em função dos pais, dos sobrinhos e da igreja.

Quando a idade avançava, ficavam à mercê dos parentes para cuidarem delas. Muitas se tornavam rancorosas, culpando o destino por não terem tido um marido. Uma vez, uma tia mais velhinha me falou que queria um companheiro para conversar e aproveitarem juntos os poucos anos que lhes restavam. Dizia que não precisavam fazer amor, que podiam apenas enroscar os pés, sem enroscar os corpos. Acredito que deve haver alguns velhinhos solitários desejando a mesma coisa.

Vejo uma nova geração de tias mais livres, donas de si, seguras de seus atos. As mais atiradas namoram, se divertem, se entregam de corpo e alma ao prazer, sem culpa, sem se preocuparem em ter que prestar contas no juízo final. Não deixam que suas vidas se transformem em um mar de lamentações.

Nada as impede de se divertirem. Quando decidem atacar, vão à caça para conquistar  sua presa mas, se não acontecer, procuram se distrair com os avulsos. Muitas adoram viajar, dançar e curtir a liberdade, provocando nas casadas uma baita inveja.

A geração de minhas tias solteiras era das antigas. Eram quatro solteironas, mas uma, na casa dos quarenta, casou-se com um italiano que precisava regularizar a sua permanência no país. Ficaram juntos umas três décadas. Ele morreu e ela se juntou novamente no grupo das irmãs solteiras.

As minhas tias solteironas viveram para cuidar dos meus avós. Ele era autoritário e extremamente rigoroso com a imagem das filhas: “Filha minha não fica na rua após as sete da noite, não dorme na casa de amigas e nem namora vagabundo”, bradava aos quatro cantos. A minha avó era miúda e as controlava com sabedoria. Queria que as meninas ficassem cuidando deles até a morte. Ambos viveram mais de noventa anos.

Quando as tias se viram a sós, já era tarde, restava-lhes cuidar umas das outras. A casa era sombria, faltava ar e luz.  Elas perambulavam com seus robes frouxos e desbotados pelas salas e quartos à espera de uma visita.

Velhas, carentes e solitárias foram se despedindo da vida. Iam abandonando os seus corpos cansados e castos pela estrada mal iluminada de suas vidas. Algumas se perderam na memória da família. Esquecidas, passaram por este mundo sem deixar vestígios.

Depois de anos me vejo novamente com outras tias às antigas. Não me pertencem, pertencem à história de uma pequena cidade do interior, onde ainda deve haver mais tias remanescentes. Eram seis, sendo que uma morreu há alguns anos, outra se casou.

Contam que ela se casou virgem com mais de cinquenta anos. Tímidos e preocupados com os comentários alheios, o casal ficava namorando na varanda, cada um em sua cadeira, olhando horas para o movimento da rua.  Para acalmar o falatório da alma, trocavam olhares e um leve roçar de mãos. Eles continuam silenciosos, retraídos, apesar dos cinquenta anos de casados. Percebi que se amam pelo olhar de paixão, pelos gestos carinhosos, e pelo falar sereno dos corações.

As outras tias, todas com mais de oitenta anos, se juntaram em uma mesma moradia. Cada uma tem seu quartinho com uma cama de solteiro, armário e televisão. Quando chega visita, é encaminhada para a sala de jantar cercado de portas, e, aos poucos, as portas vão se abrindo e as tias vão surgindo, uma de cada vez, contentes em receber visitas.

Construíram uma casa a algumas quadras da moradia oficial. Decoraram tudo ao gosto delas e, ao terminarem a obra, para o espanto de todos, não mudaram. A casa fica fechada, solitária, porém quando as portas se abrem é para um lanche em família ou para comemorar o aniversário de uma delas. A “casa de verão”, como é chamada pelos parentes, resplandece ao som das conversas, das risadas e das visitas inesperadas que a habitam por um pequeno espaço de tempo.

As solteiras de hoje dão o troco, elas preferem estar sós a estar mal acompanhadas.  Estão evoluindo cada dia mais, daqui a um tempo não serão mais chamadas de tias solteironas, e sim de tias libertas. Namoram, curtem o momento e ficam sem compromisso. Vivem com seus parceiros enquanto estão felizes, sem a obrigação do casamento.  Caso a relação não prospere, partem para outro, sem vacilo. Estão livres para ir e vir e também para decidir se querem ter filhos, com ou sem companheiro.

Viajam pelo mundo a sós com o namorado ou com os amigos. Tem autonomia para decidir suas vidas. Morar junto não significa casar e sim um projeto de vida prazeroso a dois. Cuidam dos pais, mas não se escravizam. A tia de hoje é dona do seu destino. Segue sua intuição, indo sempre adiante, sem culpa, sem ter que dar satisfação de sua vida. É liberta, é solta, é livre.

 

 

 

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Publicado em 14 de dezembro de 2016 por e marcado , , , , , , .
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