Vidas em contos

(por Rita Prates)

A sedutora

Ela era competitiva. Fazia questão de mostrar para as amigas que sabia conquistar o cara que quisesse. Quando iam com ela para a balada, empenhava-se em demonstrar que sabia como atrair olhares masculinos. Sempre acabava a noite nos braços de um, não interessava quem, mas um homem para exibir o seu poder de sedução. Quando, eventualmente, suas técnicas falhavam, ela ficava mal humorada, reclamava de tudo e encasquetava até estragar a noitada das amigas.

Os rolos sempre aconteciam, mas não duravam muito. Engenheira, largou tudo para entrar no mundo da moda. O máximo que conseguiu foi um trabalho em uma boutique. Sonhava ser uma grande estilista, mas devido à falta de foco, errava nas ideias.

O ar do Rio e o burburinho de vozes, em vários idiomas, fizeram com que passasse a desejar um gringo para chamá-lo de seu. Atacou em sites de relacionamentos e selecionou uma dezena de rapazes estrangeiros, de preferência italianos, e começou a usar o seu jogo de sedução para ver se fisgava um deles.

Descobriu um espanhol que estava à passeio no Rio. Marcaram um encontro em um bar e ela logo caiu de amores por ele. Belo, musculoso, falante e galanteador, tudo o que precisava para demostrar o seu poder de mulher sedutora. Após algumas saídas, em uma noite em que estavam bêbados e descontraídos, foram para o apartamento dele se conhecerem melhor.

O espanhol ligou o som, dançaram colados um ao outro e, com os corpos em chama, começaram a se atracar no sofá da sala. Quando ela estava só de calcinha e sutiã, quente e em ebulição, ele pulou do sofá e sentou-se em uma poltrona em frente a ela. Depois pegou uma taça de vinho e não disse nada, ficou olhando-a e sorrindo. Ela tentou saber o motivo daquela atitude tão fora de propósito.  Ele sorveu um gole da bebida, respirou fundo, e disse-lhe que parecia um modelo vivo, que observá-la tão linda deitada no sofá era mais prazeroso do que fazer sexo.

Ela o olhou de cima a baixo e não viu nenhum entusiasmo vindo da parte íntima dele. Furiosa e ressabiada, vestiu as suas roupas e, ao sair, ele ainda teve a petulância de jogar-lhe um beijo de despedida. Ao contar para as amigas a façanha da noite anterior, elas caíram na gargalhada. Todas já tinham percebido que o rapaz não gostava da fruta. Ela, com a sua obsessão por gringos, deixou passar batido. Ele simplesmente a usou para fazer média com a turma.

Ela não desistiu. Conseguiu um curso de pintura, de curta duração, na Itália.  Lá conheceu um rapaz simpático, educado e bom na arte de fazer amor. Logo se apaixonou. Ele morava em uma cidade próxima e vinha sempre encontrar-se com ela. Combinaram de morar juntos quando ela retornasse ao país.

Com tudo acertado, pegou suas economias e rumou para a casa do italiano. Só que ele não lhe contou um pequeno detalhe: morava com uma mulher, ou melhor, sua ex e também sócia. Passado o susto, acomodou-se no quarto do casal e a ex no quarto em frente ao deles.

O escritório ficava no andar de baixo, onde trabalhavam com design gráfico para empresas.  Como a ex não tinha dinheiro para montar um apartamento, a solução foi continuar morando na casa. No início as duas se estranharam, mas com o tempo, ela percebeu que a garota era tímida, ingênua e submissa. Achou que poderia tirar de letra na preferência do rapaz, pois a moça não parecia uma ameaça.

Ficou meses batendo a cabeça tentando se acertar. Por fim, focou na criação e fabricação de bolsas. Fez um site onde publicava as suas peças e tentava vendê-las. Percebeu que a ex andava triste pelos cantos, mas que mudava de humor quando ela se ausentava de casa para tentar vender as suas bolsas. Quando regressava a garota a recebia sorridente e tagarela. Um ar de suspeita pairava no ar.

Resolveu mudar de estratégia e optou em ter a inimiga por perto. Tornou-se amiguinha da ex. Soube que a moça tinha saído da casa dos pais na calada da noite e foi morar com o namorado. Ele tornara-se o seu chefe e protetor. Descobriu que a conta da empresa estava apenas no nome do rapaz e que a garota não tinha acesso aos clientes e aos valores recebidos.         Notou, também, que quem trabalhava duro era a ex. A moça recebia uns trocados, a conta gotas, para as suas necessidades básicas.

Achou que o namorado explorava a sócia e tentou abrir os olhos da ingênua garota sobre a necessidade de ser financeiramente independente. Pressionado pelas duas mulheres, o italiano esperto, muito a contra gosto, foi quase obrigado a abrir uma conta no banco para a sócia, que passou a exigir um valor fixo por mês.

A venda das bolsas não decolava e as economias minguavam a cada dia. Com a suspeita de traição, sentiu os nervos a flor da pele e partiu para a briga com o italiano.  O rompimento se deu quando ela resolveu convencer a sócia a participar de um curso de aperfeiçoamento em outra cidade. A moça adorou a sugestão. Exigiu que todas as despesas da viagem e do curso fossem pagos pela empresa. Finalmente deixou de ser tola e submissa.

A luz vermelha acendeu para o italiano: perigo à vista. Aborrecido com as exigências da sócia, acusou a namorada de estar interferindo em seus negócios e fazendo a cabeça da ex para que saísse de casa. Sim, era exatamente isso que ela queria, se ver livre da moça que, em surdina, usufruía dos prazeres da cama com o seu companheiro.

O italiano constatou que as finanças estavam minguando, pois a sua galinha dos ovos de ouro andava fazendo contas e exigindo partes dos contratos. Avaliou, friamente, que a namorada sem dinheiro e sem emprego, em vez de se virar para vender suas bolsas, incutia ideias feministas na cabeça da ex. Decidiu terminar o namoro. Imediatamente comprou uma passagem para que ela voltasse para o Rio.

Depois de seis meses, o italiano apareceu atrás dela na cidade maravilhosa. Disse-lhe que adorava o seu jeito safado, suas carícias e como faziam sexo. Não conseguia esquecê-la e, lacrimoso, pediu-lhe que voltasse com ele para a Itália. Porém, ela tinha que lhe prometer não ficar colocando minhocas na cabeça da ex.

Ela topou, era tudo o que queria. Sonhava voltar a morar na Itália e postar fotos como vitoriosa.  Ao chegar à casa do namorado, teve uma surpresa maior do que da primeira vez. A sócia, ou seja, a ex, voltaria a dormir no quarto de casal com o italiano e ela, que ainda batalhava para vender as suas bolsas sem grana para se bancar, ficaria no quarto de solteira.

Haveria, segundo ele, apenas uma troca de lugares, mas a paixão por ela era a mesma. Mais tarde, quem sabe, quando ela se organizasse financeiramente, talvez pudesse trocar novamente de quartos. O italiano disse-lhe que ela estimulou a ex a ficar mais segura e exigente e, como não queria perder uma sócia trabalhadora, fez o acordo para salvar a sociedade e as finanças da casa.

Foi uma lição. Ela aprendeu a não se meter na vida de inocentes criaturas, pois elas podem virar o jogo. Aceitou a nova situação até que encontre outro italiano que se apaixone por ela e que realize os seus sonhos. No Face faz questão de postar fotos divertidas, só alegria, onde os três aparecem sempre sorridentes. Ela, com o seu olhar fatal, de mulher sedutora, mata de inveja as amigas, que sonham estar em seu lugar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 6 de dezembro de 2016 por e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: