Vidas em contos

(por Rita Prates)

Frágil amor

Ela, uma brasileira, conseguiu finalmente ser aceita em uma universidade na Europa. Desde o primeiro dia de aula sentiu uma atração pelo professor. Loiro, alto, charmoso, parecia um ator de cinema. Ele gostou do jeito engraçado da moça, alegre, espontânea, e muito dedicada aos estudos.

Percebeu que ela o encarava fora da sala de aula, que procurava sempre tirar dúvidas e que se dizia solitária em um país que na maior parte do tempo era frio, frio e distante como todos da região.  Ele foi gostando da forma descontraída como ela se aproximava dele, do seu perfume, dos cabelos anelados e da pele morena. Foram se falando, saindo, e por fim se beijaram, ou melhor, ela é quem tomou a iniciativa de lhe dar um acalorado beijo.

A primeira noite nos braços da aluna foi uma loucura. Ela despertou nele todos os sentidos e todos os desejos nunca antes sentido com outra mulher. Ela o fazia ferver de emoções ao se aproximar para lhe falar algo, vinha-lhe um desejo incontrolável de lhe arrancar as roupas e fazer sexo sobre a mesa de estudo. Ela, com seu jogo de pernas, com seus seios fartos e com seus lábios doces o fez perder o juízo,  pediu-a em casamento.

Duas coisas o encantavam; estudar dia e noite e tê-la em seus braços. Para ela estava perfeito, ele era um homem bonito, muito conceituado como professor e pesquisador e divino na cama. Eles se entendiam nos estudos e no sexo. Quando ela engravidou-se do primeiro filho, abandonou os estudos e, na segunda gravidez, deixou-se avolumar em gorduras, dobrando o seu peso e despertando as suas lamúrias.

Ele não se importava com o excesso de volume da mulher, mas sim com o falatório que prejudicava a sua dedicação ao trabalho. As suas pesquisas o levaram a receber convites para congressos e cursos em grandes universidades ao redor do mundo. Ele gostava de estar casado, mas odiava o fato dela querer que ele parasse os seus estudos para ajuda-la na cozinha, na limpeza da casa e do jardim.

Ele tentava explicar-lhe que a sua prioridade eram as pesquisas, que lhe daria todo o dinheiro que precisasse para pagar uma ajudante. Ela, irredutível, queria obriga-lo a participar dos cuidados da casa e reclamava sem parar, até ele pegar as suas coisas e ir ter sossego em outro lugar.

Ele sugeriu que a esposa voltasse a estudar, fazer algo que gostasse, mas ela não quis. Ele então pediu a separação. Ela chorou, esperneou, mas ele não voltou. Achou que era por estar gorda que ele não a queria mais. Ele, na verdade, não se importava, continuava tendo atração pela mulher. O que ele queria era tranquilidade para desenvolver os seus estudos, só isso.

Ela fez redução de estomago, ficou magra e bela, mas mesmo assim ele não voltou para casa. Não adiantava, ela continuaria o falatório e as reclamações, não lhe deixaria a vontade para continuar a mergulhar de cabeça no que mais gostava, produzir saber.

Ele dá à família todo o conforto que precisa e, aos filhos encontros alegres e divertidos. Porém adora voltar para casa e se entregar aos livros. Ele é assim, calado, de poucos amigos e dedicado ao extremo ao trabalho.  Comporta-se como a maioria dos seus conterrâneos, encolhidos, fechados dentro de si, envoltos por casacos grossos que os protegem do frio que assola o pais na maior parte do ano.

Após ouvir essa história, lembrei-me do caso de um escritor famoso, que teve muitas mulheres, mas se apaixonou por uma moça simples, sem estudos, que mal sabia ler. Conheceu a jovem em uma ilha quando escrevia um livro. Viveram em lua de mel durante dois anos. Ele a achava ingênua e crua em relação a tudo e a todos.  Ele tinha paciência e carinho em ensina-la as coisas mais elementares da vida. Foi a primeira vez que ele realmente se sentiu feliz com uma mulher.

No lançamento do livro se ausentou da ilha por muitos meses. Prometeu que voltaria, pois foi naquele lugar distante e belo que encontrou o amor e a paz para escrever. Quando regressou a viu mais altiva, mais segura, menos menina. Fez amor a luz da lua e se entregaram em declarações de amor.

No outro dia ela falou que tinha uma surpresa. Disse-lhe que já sabia ler corrente, e que já lera três livros dele. Boquiaberto, viu quando ela pegou um livro e leu a primeira página sem vacilar. Depois opinou sobre cada um dos livros que lera. Quando ela acabou, ele a olhou tristemente e seguiu rumo ao mar. Voltou ao entardecer, arrumou as suas coisas e foi embora.

Ao se despedir, disse-lhe que o encanto quebrara-se em mil pedaços, que a amara enquanto era pura e ingênua. Agora se igualara às outras, que discutiam sobre os seus livros e coisas que não lhe interessavam ouvir. Partia antes que morresse de tristeza.

A minha amiga, que me contou o caso de sua sobrinha com o professor, é casada com um pesquisador. Falou que tanto homens como mulheres que se entregam com afinco ao trabalho, tornam-se meio bicho do mato. Querem, na maior parte do tempo, ficar a sós. É uma dedicação quase religiosa, quase insana, extremamente prazerosa e realizadora para eles.

Afirma que é necessário entender como funciona a cabeça dessas pessoas para conviverem sem brigas. Disse que eles são como uma máquina de produzir, não tem limites para parar ou para pensar em outra coisa, pois as suas cabeças andam a mil com tantas informações. Que o prazer está em passar a maior parte do tempo lendo e pesquisando. Declara que é difícil conviver, aceitar as sobras de tempo que lhes dão. Mesmo seguindo juntos, acha melhor construírem as suas vidas em separado, livres nas suas procuras e respostas. Porém acha importante ficar atentos em alimentar o amor que os unem nos momentos únicos

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Publicado em 29 de novembro de 2016 por e marcado , , .
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