Vidas em contos

(por Rita Prates)

Aborto – pelo sim, pelo não.

Estava em uma cafeteria com uma amiga desfrutando de um delicioso pão de queijo e um café, quando ela me conta que a filha de uma colega de trabalho tinha feito aborto e quase morreu.

Recordamos um caso que ocorreu com a sua mãe a mais de vinte anos. Ela tinha uma empregada que se chamava Morena: era alta, forte, de sorriso largo, mas falava pelos cotovelos. Morena morava na casa, e nos finais de semana passava com os parentes.

A patroa começou a notar que a ajudante a cada dia falava menos. Andava triste pelos cantos e só engordando. Constantemente passava mal, e dizia que a culpa era do cheiro forte de um produto de limpeza. Trocaram de marca, mas as tonteiras continuavam.

A patroa suspeitou que a moça estivesse grávida. Perguntou-lhe. Ela negou veementemente. Pediu-lhe que fosse ao médico, estava preocupada com o esmorecimento e a tristeza de sua ajudante.

Em pleno sábado de carnaval a minha amiga recebeu um telefonema desesperado de sua mãe, dizendo-lhe que Morena estava passando mal e que não a deixou chamar a família para levá-la ao hospital. A minha amiga foi com a irmã socorrer a moça. Ao olharem para ela, pálida, e com o sangue escorrendo pelas pernas, notaram que tinha provocado um aborto e estava com hemorragia.

Colocou-a no carro, enrolada em toalhas, e partiram para o hospital.  Ao vê-la, a recepcionista falou que não poderia atendê-la, pois ela tinha feito um aborto e o hospital não aceitava correr riscos. Morena, ensanguentada, desmaiou. Forneceram uma cadeira de rodas para acomodá-la. Mandaram que a levasse no hospital em frente e tentasse interná-la. As irmãs atravessaram a avenida até o hospital com a garota sangrando e inerte na cadeira.

No outro hospital a mesma resposta. Indignadas com o descaso em relação ao estado grave da moça, voltaram ao primeiro hospital, que estava às moscas em pleno carnaval. Falaram que iriam chamar a televisão para registrar a morte da garota por falta de atendimento. Aos berros, disseram que iriam denunciar o médico de plantão por emissão de socorro, já que não havia outros pacientes a espera para ele atender.

Com a gritaria na porta, um residente apareceu e fez um sinal para que a recepcionista fosse conversar com ele. Mal ela deu as costas, falaram para o guarda que iriam buscar mais toalhas no carro, e saíram em disparada. As irmãs foram embora, quase em fuga.

Em casa telefonaram para o hospital, queriam saber como estava a moça do aborto. A atendente, fula da vida, disse que foram obrigados a ficar com a paciente, porque elas tinham largado a garota em estado grave na porta do hospital. Queria os nomes das irresponsáveis para fazer uma ocorrência. Imediatamente desligaram o telefone na cara da insensível. Quatro dias depois Morena ligou falando que recebeu alta. Iria para a casa de uma amiga acabar de se recuperar. Ela nunca disse por que fez o aborto.

Um mês após o ocorrido, a empregada da minha madrinha foi estuprada quando voltava para casa, em pleno centro da cidade. A moça tinha as pernas cambotas, em arco acentuado, forçando-a a andar lentamente. Cuidaram dela com carinho, e após dois meses descobriram que estava grávida. Ela não quis abortar, apesar do médico falar que seria uma gravidez de sofrimento e risco, devido à gravidade de sua deformidade.

Os patrões concordaram com ela. Deram-lhe todo o apoio, inclusive psicológico. Sua história era triste, pois foi abandonada pela mãe ao nascer, devido anomalia. Criada em orfanato e rejeitada para adoção, quando adulta, teve dificuldades para arranjar emprego. Quem a contratou foi a esposa do médico, que notou o sofrimento da moça, e, para ajuda-la, colocou-a para executar serviços leves. Sempre foi tratada com respeito e nunca reclamaram da sua demora em fazer o trabalho. Uma vez por semana uma faxineira cuidava da limpeza pesada da casa.

A criança nasceu prematura, mas perfeita. Foi criada pela mãe, que vibrava de felicidade, a cada etapa da vida do menino. Os filhos dos patrões já eram adultos, e aquela criança veio alegrar novamente a casa. Empenharam em educa-lo nas melhores escolas, e quando ele se formou em medicina foi a realização de todos. Era o terceiro médico da família, assim ele se sentia. Assim todos o consideravam. Especializou-se em ortopedia, por que queria descobrir uma forma de amenizar o sofrimento físico da mãe. Ela falava que ele era uma benção na sua vida, e ele a considerava a melhor mãe do mundo.

Lembraram também do caso de uma amiga. Ela morava com a sua tia, que tinha uma empregada solteirona de anos de casa. Eram mais do que patroa e empregada, eram companheiras de todas as horas.

A empregada descobriu que estava grávida e quis abortar. Disse que sentia medo, passava dos quarenta anos, tinha feridas abertas nas pernas, que a fazia tomar doses fortes de remédios.  A tia, primeiro entrou em parafuso, sentiu-se traída, não sabia que ela andava de namoro com um caixa do supermercado. Ele ao saber da gravidez tratou de sumir. Depois que passou o susto, a tia não a deixou abortar. Jamais! Eram religiosas e juntas enfrentariam o que Deus mandasse.

Deus as ouviu. Mandou um garoto forte, saudável e muito alegre. Foi criado pelas duas mães. Uma branca outra negra como ele. O menino foi a alegria das mulheres. Recebeu muito carinho e soube retribuir com amor, tornando-se um rapaz educado e de um coração enorme. Ao se formar na universidade, como orador, fez questão de homenagear as duas mães, e agradece-las por se tornar um engenheiro e um homem de bem.

Conheci várias criaturas que não deixaram criaturinhas virem ao mundo. Baseavam nas suas alegações, para arrancarem esses serezinhos de seus ventres, afirmativas muitas vezes infundadas. Não estavam preparadas psicologicamente para terem um filho; não era o momento adequado, pois tinham outros planos melhores; mais tarde, quando se estabelecessem como profissionais; não queriam o estigma de mãe solteira; não queriam enfrentar a família e a sociedade, e assim iam se desculpando.

Devido aos fatos, as amigas chegaram à conclusão que cada uma é dona de seu corpo, de sua consciência, de sua opção em interromper ou não uma gravidez. Afirmaram que um serzinho, proibido de nascer, mesmo ausente, estará presente na mente da mulher, que não o trouxe ao mundo, mas que o sentirá por toda a sua vida.

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Publicado em 24 de novembro de 2016 por e marcado , , .
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