Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas parte 10 – sexo

Valeria pede a palavra no terceiro encontro: – Fiquei pensando qual seria o tema que abordaria nesse encontro. Não fugiria ao que mais gosto de fazer: sexo! Sou vidrada em sexo, principalmente com quem eu tenha afinidade intelectual, mas se não aparecer um de cuca boa, pego o que estiver disponível para me saciar. Pareço leviana, mas é uma vontade carnal que vai além do meu bom senso.

– Já fiz sexo em quase todos os lugares possíveis e impossíveis – Valeria continua a falar em bom tom. Como falamos sem censura, preciso desabafar algo que fiz nos meus momentos de loucura, mas que me incomoda até hoje.

Um dia estava viajando para São Paulo de ônibus quando sentou ao meu lado um rapaz ajeitado, simpático. Começamos a conversar e vi que era do bem. Na primeira parada do ônibus fomos lanchar juntos e ele pegou em minha mão com carinho e a beijou. Senti um arrepio por todo o meu corpo e procurei me controlar.

Já era noite e ele sugeriu fechar a cortina para ficarmos mais a vontade. Quando comprei a passagem fiquei fula da vida, porque a minha cadeira ficava na ultima fileira do ônibus próximo ao banheiro, viajaria trepidando a noite inteira. Mas depois que ele fechou a cortina, achei que o lugar seria o ideal para o que estava na cara que iria acontecer.

– Ele começou passando a mão pelos meus seios e os apertando com carinho, brincando com os bicos até eles ficarem durinhos. Depois abriu a minha blusa e os sugou com vontade, beijava-os e aos meus lábios também. Suas mãos foram ficando mais ousadas e desceram para a barriga. Como eu estava usando uma calça de cós de elástico, ficou mais fácil para ele percorrer o caminho para o meu sexo, comprimindo-o, apertando-o entre os dedos e me deixando excitada e com muito desejo.

Fizemos sexo silencioso, gostoso, sem atropelos, só prazer. Não perguntamos os nossos nomes, e quando chegamos na rodoviária, ele me deu um beijo de despedida. Segui-o com o olhar e o vi indo de encontro a uma garota, abraçou-a carinhosamente e lhe deu um beijo de cinema.

– Que tipo de mulher eu sou? Pensei, enquanto me sentia sufocar de angustia e solidão. Sou assim, desarvorada, inconsequente e transgressora.

– Sexo para mim foi só com o meu marido, disse Heide. – Casei nova, minha mãe sentia vergonha de falar sobre sexo, ou seja, o meu primeiro contato foi na lua de mel. Não foi ruim, mas poderia ter sido muito melhor. O meu marido gostava e me ensinou a gostar também. Envergonhada, não tive coragem de falar sobre sexo com as minhas filhas, mas elas eram de uma geração mais avançada, mais ousada, inclusive uma casou grávida, quase matando o pai de desgosto.

– Com o avanço da idade, passei a não querer mais, inclusive propus ao meu marido dormirmos em camas separadas, ele aceitou a contra gosto. Mas o sexo não morreu para mim, continuo ligada.

– Estranho! Não quero com ele, mas continuo tendo desejos – murmura Heide, como se estivesse com vergonha de se expor. – À noite procuro na TV canais que falam sobre sexo ou que passam filmes apimentados. Gosto de assistir, de ver casais transando, me deixa excitada, mas ao mesmo tempo não quero fazer sexo com o meu marido. Tenho um pouco de sentimento de culpa, parece que quero castiga-lo, mas não está em mim, acredito que se fosse com outro homem me entregaria a ele com prazer.

– Parece loucura, suspira Heide, mas não quero fazer o que fiz esses anos todos: sexo morno, monótono. Tentei algumas vezes variar de posição, mas ele não topava, dizia gostar do básico. Contaram-me que, quando ele viajava a negócios, pegava mulheres da vida. Fiquei frustrada, queria experimentar novas sensações, mas ele era irredutível, só papai e mamãe. Então perdi a vontade. Não me sinto velha para o prazer, juro, meninas! Ainda tenho desejos reprimidos, vontade de ter uma noite quente de muito sexo, evidente que não seria com ele.

– Sexo para mim tem que ser quente, profundo. – fala Lili com um sorriso safado nos lábios. – Também gosto muito, gostava com homens, mas depois que conheci o sexo com as mulheres, passei a gostar mais com elas. Sei deixar os homens malucos, aos meus pés. Ajo como uma gata safada, dengosa. Gata usa a língua para se lavar, eu a uso nos homens para enlouquecê-los, a minha é poderosa, percorre os caminhos que eles mais gostam, com prazer e gula.

Gosto muito dessas preliminares, vejo em seus rostos as transformações, os delírios, os desejos. Quando ficam exauridos, deixo que me amem com vontade, com garra até o gozo final.

– Em relação às mulheres, dá um sorriso maroto e diz – sinto como se eu estivesse em alfa, é mais singelo, saboroso. É como uma música clássica, em que a melodia começa suave, vai acelerando, chega ao clímax e recomeça novamente, deixando-nos flutuar em cada nota.

A diferença é que nós mulheres sabemos o que gostamos. Procuro agradar a minha companheira e sei onde deixá-la louca de prazer. Sou delicada, percorro o seu corpo na busca de sensações, sei cada ponto G, cada sensação, delírio e gozo. Sei como deixá-la dominada, e também como deixá-la faminta, gulosa e dominadora.

– Sexo para mim foi uma transição entre o bem e o mal. – declara Tati calmamente. Fui educada em uma escola de freiras e preparada para casar virgem, como a maioria das jovens da minha época. Encontrei no meu marido todo o carinho e paciência que um homem pode ter com uma mulher inexperiente. Foi bom até o nascimento do ultimo filho. Fiquei cansada, exausta e desinteressada por sexo. Ai que eu errei, deixei o meu marido solto para novas aventuras, quando acordei já era tarde.

– Quando ele me largou,  enlouqueci, caiu a ficha. Fiz de tudo para trazê-lo de volta, me humilhei, armei barraco e me transformei em um trapo humano. Em um desses acessos de loucura, quando fiz um escândalo em um bar, derrubando copos e o agredindo verbalmente, fui contida por amigos que me retiraram do local aos gritos.

Depois, transtornada com o que havia feito, parei o meu carro em um bar e fui tomar uma cerveja para me acalmar. Um grande amigo, que foi padrinho do meu casamento, começou a me paquerar. Sabia que ele era casado e conhecia a sua mulher, mas não sei o que deu em mim e resolvi ir em frente, talvez por vingança. Sim, foi por vingança.

– Paramos em um motel e ele me serviu uma bebida mais forte. Tinha contado para ele, que havia mais de um ano que não transava. Um fogo foi tomando conta de mim e o ataquei sem piedade. Fizemos sexo na cama, no chão, no sofá e quando ele tentou se desvencilhar de mim, fui atrás dele no banheiro e o ataquei como uma fera faminta.

Quando amanheceu notei que o rapaz estava detonado, esfolado sobre a cama, e eu sentia o corpo todo doendo e ardida.  Pedimos café, trocamos meias palavras e nunca mais o vi. Assustei o cara e me assustei com a minha ousadia. Gostei de transgredir, vi que era capaz de fazer sexo com outro homem, foi uma vingança saborosa, espero que chegue aos ouvidos do meu ex o quanto a mulher dele é fogosa. Depois dessa noite estou novamente a seco, meses sem sexo, sem emoções.

– Falar de sexo para mim é falar também de vingança, desforra. – fala Kátia entre dentes. É me vingar do meu marido que me afronta carregando secretárias e prostitutas em suas viagens de negócio. Hoje ele não fala mais que sou fria, ao contrário, gosta do que faço com ele, mal sabe que a minha desenvoltura vem dos treinamentos com os meus colegas de trabalho. Tenho um fixo, mas às vezes me divirto com um fora do esquema.

A última vingança foi bizarra.  Fomos a uma festa na empresa do meu marido, era despedida de ano. – No final da festa estavam todos bêbados, menos eu, que não gosto muito de álcool. Vi quando o meu marido investia em uma moça loira, que havia entrado para a empresa a pouco tempo, eles trocavam olhares e encontros. Surpreendentemente, ele teve a cara de pau de falar que me deixaria em casa e iria com os amigos tomarem o último trago.

Não aceitei que me deixasse em casa. Então, o vice presidente, amigo do peito do meu marido, vulgo ”garanhão dos garanhões”, se prontificou a me levar. No carro ele tentou me consolar, alegou que o meu marido era um imbecil por me tratar dessa e daquela forma, pois eu era uma mulher bonita e sensual. Agradeci os elogios, para ele foi um sinal para me levar a um motel. Tudo bem, porque não me vingar transando com o alto comando?

– Cai em seus braços sem nenhum interesse, só por desforra. O cara beijava- me, abraçava-me e nada de sentir o seu volume, procurava por debaixo de uma banha solta que cobria a barriga, e nada. Pasmem! O cara tinha um toquinho, o lindo e grandioso amigo do meu marido, que pegava todas, tinha pouco para oferecer. Dei uns beijinhos de consolação nele, me vesti e fui para casa. Vinguei-me do meu marido e do garanhão metido a conquistador.

– Como já falei para vocês, pouco experimentei do sexo. Fala timidamente Laura, mas guardo na memória uma pessoa especial que surgiu e foi-se como um sopro na minha vida. Ele era o pai de um funcionário da empresa. Não sei como, conseguiu o meu telefone e sempre me ligava insistindo para sairmos. Não topava porque sabia que era casado e o seu filho era meu amigo. Tanto me procurou que acabei indo para jantar com ele. Contou-me que havia se separado da mulher e que mudara de casa.

– Estava só, deprimida e os galanteios dele me deixavam envaidecida e me sentindo desejada. Uma noite ele me levou a um apart hotel para tomarmos uns drinks. Preparou tudo com requinte, champanhe, flores, bombons e beijos. Quando vi, estava tremendo em seus braços, ele me acariciando o corpo com carinho e me mostrando o quanto o sexo é bom. Foi como em um sonho, passamos a nos encontrar todas as semanas, ele me cobrindo de dengos e eu o cobrindo de amor.

– No meu aniversário, ele me levou a um hotel e me pediu que entrasse no banheiro e esperasse ele chamar. Quando entrei no quarto a cama estava coberta de pétalas de rosas e de chocolates em forma de coração. Ele me enlaçou pela cintura e me colocou sobre as pétalas, depois as jogava sobre o meu corpo e as tirava com a boca. Fizemos amor horas seguidas, depois ele me mostrou que ainda sobrou um saco com pétalas de rosas. Fomos para o alto de uma serra e de lá jogamos as pétalas que voaram enfeitando as matas.

– Era como se eu estivesse vivendo um filme de amor, mas o fim foi triste, ele sumiu de repente. Eu não tinha coragem de ligar, procurei o filho dele e este estava de férias que duraram longos e angustiantes dias. Quando ele voltou, me contou que o pai havia operado da coluna, e que a família estava aflita aguardando a sua recuperação.

– Uns dois meses depois recebi um telefonema dele. Contou – me sobre a doença, da angustia dele e da dedicação dos familiares. Pedia desculpas, mas naquele momento precisava ficar só. Sofri terrivelmente, ele era o meu príncipe encantado que adoeceu, e que se foi sem me dar uma oportunidade de eu cuidar dele, de estar ao seu lado na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Passaram-se três anos e nunca mais nos encontramos. Fiquei sabendo que ele recuperou a saúde. Disseram-me que ele mudou para o exterior com a médica, que foi a sua namorada do colegial. Foi tudo tão intenso e rápido que, às vezes, penso que não existiu de verdade, tudo não passou de criação da minha imaginação.

– Laura respira fundo e continua. – Sexo para mim é alimento para o corpo e para a alma. Quando estou nos braços do homem que gosto me entrego por inteira. Sinto prazer quando ele me toca, gosto das sensações, dos arrepios, das vibrações e do tesão  insaciável.

Lembro-me da vez em que fui abandonada, me sentindo péssima e querendo desistir de amor e sexo. Uma amiga da minha mãe, viúva, me disse que eu jamais deveria sublimar o sexo. Segundo ela, após o marido morrer, nunca mais teve outro homem. Falou que foi o maior erro de sua vida, pois amar, fazer sexo e ter alguém que goste ao seu lado faz parte da vida de uma mulher, logo eu não podia abrir mão de ter novos amores. Caso um partisse, deveria abrir meu coração para outro amor.

O que ficou mais marcado na memória, foi ela falar que quanto mais tempo você fica sem fazer sexo, mais você sublima. É como se vivesse em um filme, em que só os atores principais fazem amor, e você passa a ser um mero coadjuvante, sem interpretar o papel principal.

Ai é que está o risco, o tempo passa e você, mesmo não gostando de ficar só, vai levando e perdendo forças, e, por fim, acha que a vida está melhor sem homens para atazanar o nosso dia a dia, que é melhor ficar só do que mal acompanhada e, assim, vai justificando a sua falta de tesão..

Segui a risca o conselho dela, bati muito a cabeça na parede, errei, mas também tive acertos e, hoje, procuro alguém que além de ser um companheirão me satisfaça plenamente no sexo. Sexo deveria fazer parte da lista de remédios de uso contínuo, às vezes me pego rindo quando me imagino bem idosa fazendo sexo.

Dias atrás, eu vi na TV uma prostituta de setenta anos dizendo que faz sexo desde os quinze anos, e que só irá parar quando ninguém mais a quiser. Afirmou que ainda tem clientes fixos, e que morreria de tristeza se parasse agora, pois tinha planos de viver mais vinte anos na esbornia.

Falamos sobre frigidez, o que gostávamos no sexo, fantasias e, por fim Diva encerrou dizendo que sexo é saúde, desde que você aceite e queira fazer de acordo com os seus princípios e desejos. Os limites quem determina somos nós, romper com regras e padrões de comportamento cabem a cada um, de acordo com os seus desejos. Por fim afirmou que devemos nos permitir mais, e fazer do sexo não uma arma, mas sim momentos de prazer e satisfação.

 

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Publicado em 18 de novembro de 2016 por e marcado , , .
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