Vidas em contos

(por Rita Prates)

Reviravolta – vida que vai e volta

Quando me contaram essa história, fiquei imaginando a emoção da garota na reviravolta de sua vida, na reconstrução de uma história que envolvia perdas e procuras.

A jovem, ao me contar o caso ocorrido com a amiga, se emociona. Afirma que sente um palpitar no coração, uma mistura de azedo com doce, de tombo com abraço apertado, de lágrimas com risos, de amor à procura do amor.

A história se passou nos Estados Unidos, onde a conheceu quando faziam o doutorado. A amiga ficou sabendo que havia uma empresa que fazia testes de DNA visando pesquisar a árvore genealógica, os ancestrais dos interessados. A empresa era conceituada, possuía um banco de dados com milhares de pessoas catalogadas.

Ela achou interessante que, através da genealogia genética, poderia saber de onde vinham os antepassados da sua família. Ficou curiosa. Alguns colegas fizeram o teste e constataram raízes europeias, asiáticas e assim por diante.

Virou um alvoroço! Os amigos vibravam quando descobriam parentes biológicos, primos de segundo e terceiro grau, e, com os nomes em mãos, passaram a corresponder e se relacionarem.

Com a morte do pai no ano anterior, a mãe andava triste e deprimida. A família ficara reduzida a elas e a uma tia que morava em outro estado. Resolveu então fazer o teste de DNA para ampliar o núcleo familiar e assim, quem sabe, a mãe encontraria os parentes com os quais havia perdido contato.

Esperou ansiosa o resultado da genealogia genética. Queria surpreender a mãe apresentando-lhe os novos e velhos parentes, mas a surpresa veio na contramão. Leu, incrédula, mais de três vezes, o relatório minucioso sobre a origem de seus ancestrais. Na conclusão da análise, a empresa detectou que ela compartilhava de um parente em comum, seu irmão, que também havia feito o teste. O nome veio completo, era só entrar em contato por e-mail e conhecê-lo.

Com o coração aos pulos encontrou a mãe na sala, olhava para ela e a voz não saia. Queria saber quem era esse irmão que não conhecia.  Por que não lhe contaram? Com as mãos trêmulas, entregou o relatório para a mãe, que ficou branca ao ler o resultado do teste. De repente, olhou para a filha e começou a chorar e, entre soluços, resolveu contar toda a verdade.

Disse-lhe que, quando se casou sofria de uma doença grave e teve que tirar o útero. Queria muito um filho e, quando a viram ainda bebê, o casal apaixonou-se por ela e a adotaram. Desejavam contar-lhe toda a verdade, mas como os registros antigos eram selados, seria impossível descobrir a sua mãe biológica. Então, para  que não sofresse com uma procura desgastante e infrutífera, decidiram não contar nada sobre a adoção.

A moça ficou uma semana em choque e chorou muito. Recordou cada momento de sua vida, de como ficava orgulhosa quando o pai falava que ela era parecida com ele, mas tinha o gênio da mãe. Sempre foi muito mimada e amada. Os pais investiram tudo que tinham para lhe dar uma formação na melhor universidade.

Amava demais a mãe adotiva. Vendo-a triste pelos cantos, inverteu os papeis e foi confortá-la, jurou-lhe que jamais a abandonaria. Precisava pensar, por a cabeça e o coração no ritmo certo, pois andavam em descompasso com tantas revelações. Tinha um monte de perguntas sem respostas e sabia que só as teria quando falasse com o irmão.

Tomou coragem, pesquisou e descobriu o irmão no facebook, O coração disparou novamente e foi a mil ao vê-lo tão parecido com ela. A mãe deu-lhe a mão e pediu que ela clicasse no álbum de família. Lá estavam eles, sorridentes, o pai, a mãe, três rapazes e uma moça. As lágrimas rolavam pelo seu rosto e se confundiam com as da mãe. Ambas tremiam de emoção.

Analisavam se pareciam com ela, observavam se o nariz, boca, cabelo e sorriso eram como o deles. Concluíram que sua altura era igual à do irmão mais velho, que os traços da irmã pareciam com os dela quando mais nova, que os olhos verdes eram da mãe e o cabelo escuro igual ao do pai. No resultado do teste constava que os pais eram os mesmos do irmão mais velho. Estranho! Todos eram muito parecidos, formavam uma família homogênea, feitos com a mesma fórmula.

Tomou coragem e mandou um e-mail ao irmão se apresentando. Perguntou se ele tinha feito o teste de DNA, genealogia genética, na mesma empresa que ela. Ele confirmou. Ela contou-lhe que o seu teste de DNA informou que eram parentes. Ele, empolgado, quis saber o grau de parentesco. Então ela teclou, irmã! Silêncio do outro lado. Parada para respirar. Por fim ele falou que desconhecia essa informação. Pediu um tempo para conversar com os pais, confiava no teste. Precisava saber com a mãe sobre essa descoberta.

Depois de meia hora, recebeu um e-mail do irmão, pedindo-lhe o seu endereço e se podiam vê-la imediatamente. Como moravam em uma cidade a três horas de distância, e já era tarde da noite, marcaram para se encontrar na manhã do outro dia.

Quem disse que mãe e filha dormiram? Conversaram agarradinhas na cama até altas horas da noite. Estavam agitadas, nervosas e ansiosas para que o dia clareasse rapidamente e pudessem conhecer a nova família.

Pouco antes das dez um carro estacionou na porta da casa. Desceram o casal e os quatro filhos. A mãe abriu a porta e eles entraram na sala, onde ela estava encostada na escada sem conseguir se mexer, de tanto que as pernas tremiam.

Os pais aos prantos correram para abraçá-la em meio a palavras, abraços e lágrimas. Por fim, sentaram-se: a mãe de um lado, o pai de outro e a mãe de anos na poltrona em frente.

Contaram em detalhes tudo o que aconteceu durante esses anos. Falaram que a mãe biológica havia engravidado aos quinze anos e que os  avós maternos não aceitaram a gravidez. Alegaram que filha era muito nova e não teria condição de criar uma criança. Levaram-na para longe da cidade e proibiram o namorado de chegar perto dela.

Depois de muitas brigas e pressões psicológicas, tomaram-lhe o bebê na maternidade e o encaminharam para adoção. Sabia que tinha tido uma filha porque a enfermeira, sensibilizada com o sofrimento da garota, contou-lhe que a menina tinha os cabelos pretinhos e os olhos esverdeados como os dela.

O amor dos jovens venceu todas as barreiras. Namoraram escondidos e, quando terminaram o segundo grau, casaram-se sem a permissão da família. Desde que perderam a filha para a adoção, não pararam de procurá-la. Sofreram esses anos todos imaginando como ela estaria, com quem, e se um dia a achariam. A avó se negou a revelar em que instituição deixara a neta, não moveu um dedo para ajudá-los, e eles nunca a perdoaram.

Graças ao abençoado exame de DNA, feito pelos irmãos, conseguiram se encontrar. Disseram que sempre a amaram e, no silêncio da noite, rezavam por ela. Suplicaram, durante todos esses anos, que eles não morressem sem tê-la em seus braços. Pediram perdão por não terem conseguido lutar por ela. Disseram que eram muito jovens e imaturos, sem condições psicológicas e financeiras para enfrentar os avós. Agora ela voltara para eles e nunca mais a deixariam ir.

Conversaram durante todo o dia. Contaram sobre as suas vidas e a dos irmãos. Falaram do passado e do que queriam do futuro. Combinaram que ela continuaria a viver com a mãe adotiva, mas que as famílias seriam únicas.

Tinham que se adaptar à nova realidade, o que não foi difícil. Os irmãos a acolheram com amor e ficaram felizes em tê-la junto deles. A mãe adotiva também viu tudo se transformar a sua volta. Ganhou mais quatro filhos do coração e a casa ficou mais alegre e divertida.

A jovem está radiante com tudo que aconteceu. Sua vida deu uma reviravolta jamais imaginada, foi um presente ganhar quatro irmãos de uma só vez, o pai para abraçar, e duas mães para paparicar.

Os pais, que carregaram durante anos a dor da separação que os corroía por dentro, agora estavam verdadeiramente felizes. Finalmente conseguiram fechar a ferida que sangrava em seus corações e, na estante, uma nova foto oficial da família, onde ela aparece abraçada com os irmãos e os pais.

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 15 de novembro de 2016 por e marcado , , , .
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