Vidas em contos

(por Rita Prates)

A Praça da Liberdade

A praça é de todos!  Local onde pobres e ricos, jovens e velhos convivem em harmonia. Quando faço caminhada circulo o meu olhar entre os coqueiros e esbarro em crianças brincando de carrinho, correndo atrás de bolas ou passeando com os seus cachorros. Meninos, meninas e jovens desfilam com os seus celulares a procura de Pokémon. Carrinhos de pipoca exalam um cheiro gostoso de eterna infância. O homem do algodão doce multicor é seguido por crianças lambuzadas de alegria e mãozinhas espertas tentam estourar as bolhas de sabão que voam livres pelo ar.

Sigo a minha caminhada, tropeço em um skate distraído que estava esperando o seu dono contar um caso para uns jovens. O rapaz pede desculpas e coloca-o contra o peito, protegendo-o de desastrados como eu.

Quando ando de manhã vejo sempre pessoas correndo, caminhando aceleradas, e os lentos andando pelos jardins. Os mais velhos ficam sentados, só espiando ou tricotando uma fofoca para passar o tempo.  Os mais fraquinhos são conduzidos por parentes ou cuidadoras com seus andadores ou suas bengalas mágicas.

Noivas sonhadoras aproveitam a beleza dos jardins floridos e fazem poses para o álbum de casamento. Sempre aparecem garotas, produzidas da cabeça aos pés, que se deixam fotografar, desejosas de um dia seguirem a carreira de modelo. Grávidas mostram as suas barrigas pontudas para os cliques das máquinas e, meses depois, voltam com seus filhos em seus braços para uma nova seção de fotos. Registraram o antes e o depois, sentem-se orgulhosas com as suas crias nos braços.

Aulas de desenho e fotografia constantemente acontecem nas manhãs e tardes na praça. A natureza serve como inspiração. A magia está em todos os lugares e sobrevive aos anos. Fotos antigas, onde pais, avos e bisavós passearam por entre esse mesmo cenário, agora, também os filhos farão parte desse álbum de recordações. Provavelmente, quase todos têm uma foto no corredor de coqueiros, onde pisos de pedras antigas conduzem ao palácio enfeitado de roseiras. Os alunos extasiados com tantas e belas informações espalham-se pelas gramas, jardins coloridos e bancos. Observam os prédios históricos, as árvores, folhas e luzes, para que cada detalhe seja registrado com emoção.

Assustador é ver caminhantes ofegantes, falando ao telefone, ou ligado o tempo todo na tela, onde passam a maior parte do tempo com as vistas baixas, teclando. Andam tropeçando uns nos outros como zumbis. Porém se fossem mais antenados, desligariam o aparelho e iriam aproveitar cada passo para se conectar com a vida real.

À noite é dos jovens, que circulam com roupas das tribos, alguns puxam fumo, pois nada é proibido. Outros mais ligados ao físico fazem ginástica em grupo, em plena luz da lua. Contei quatro grupos que suavam a camisa seguindo o ritmo alucinado do professor, e outros, desgarrados, seguem em caminhada, seduzidos pelo cheiro delicioso da dama da noite.

Mais adiante vejo um casal aos beijos, são jovens e sedentos de amor. No banco próximo estão duas meninas de shorts curtinhos com as pernas entrelaçadas, fazendo carinho e falando de poesia.  Avisto outros casais a passear de mãos dadas e grupos de jovens conversando e cantando sentados na grama.

A praça a noite é dos namorados, o lugar onde as tribos se encontram mas, se você se sente incomodado, saia desse ambiente pois ele não te pertence. Porém, se você não tem preconceito, não é encucado, então vá em frente e siga tranquilo.

Nada me surpreende nessa praça do faz de contas. Deparo com um beijo arranca rabo de dois rapazes que se engolem em plena praça. Como eles, muitos ficam namorando nos bancos sem a menor preocupação com os passantes. Não escondem suas mãos aflitas e escorregadias que vasculham os corpos pulsantes de desejos.

A praça é o retrato dessa transformação, de encontros e descobertas, de experimentos e buscas, de risos e choros, e da certeza de que nada é certo ou errado. Esses jovens estão com os hormônios à flor da pele. Se tocá-los, eles se incendeiam. Não há nada que os impeçam de liberarem adrenalina e muito gozo.

Pela manhã pulsam novas vidas, estalos jogados no chão, risos inocentes e pais atentos. À noite pulsam jovens desbravadores, amedrontados com a sua coragem, impulsivos, exalando sexualidade, desejo e entrega.

São como animais no cio. Não importa se são eles com elas, eles com eles ou elas com elas. Andam como raposas, espreitando a sua caça. Discretos, seduzem pelo olhar. Espertos atacam enlaçando-a, e  imobilizam-na com beijos longos. Mãos treinadas servem para segurar sua presa sobre o corpo e saboreá-la, alimentando-se aos poucos, satisfazendo o desejo de ambos.

Quando passo por um gramado onde os cachorros reúnem os seus donos para conversarem, enquanto eles brincam, dou de frente com um velho e a sua bicicleta. É o seu meio de locomoção e de moradia. Leva uma caixa grande e branca com cadeado. Preso à cadeira, uma corrente puxa um carrinho com duas rodas, nela, outra caixa ainda maior, fechada com um cadeado gigante. Sobre a segunda caixa um saco com uma tenda dentro.  Sai tranquilo, atravessa os canteiros e para debaixo da cobertura de um prédio. Calmamente arma a barraca e entra com a bicicleta. Deita em uma esteira e coloca a cabeça sobre uma mochila, fecha os olhos e tudo fica calmo a sua volta.

A praça é riso, é música de congado, de orquestra sinfônica, de jazz, de danças e exposições. É um mundo colorido de acontecimentos que atraem milhares de pessoas que gostam de se divertir. É o espetáculo de vozes cantando, de crianças dançando ao redor do palhaço ou atentas ao teatrinho de bonecas. É o saxofone tocando bossa nova. É o velhinho que estaciona, todos os domingos, o seu carro no mesmo local e liga o rádio no volume mais alto, para que todos ouçam suas músicas de bolero.

A praça é o encontro de luzes, de bolas de natal, de enfeites com brilhos vermelhos, dourados e multicores de pisca – pisca. É o Papai Noel puxando o trenó carregado de crianças extasiadas de alegria. É olhar os coqueiros vestidos de bolas gigantes soltando faíscas, de anjos abençoando milhares de pessoas que vão usufruir momentos de encantamento.

A praça é eterna, símbolo de liberdade do ontem, do hoje e do amanhã.  É o local de manifestos, de protestos com bandeiras tremulando os seus ideais, de gritos e discursos inflados de amor e revolta. É onde a multidão clama ética, exigindo seus direitos e sonhando com justiça. Um dia discursam pelo sim, outro pelo não. São pessoas com pontos de vista diferentes, mas a praça é tão acolhedora, que independente da ideologia, abriga todos como uma mãe protetora.

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Publicado em 12 de novembro de 2016 por .
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