Vidas em contos

(por Rita Prates)

Acerto de contas

Acertar o que? Contas de quem? Quantos anos a desperdiçar?

Estava viajando de avião, olhando encantada para as nuvens, quando uma mulher desconhecida, na cadeira ao meu lado começou a conversar comigo. Falou que estava saturada da vida de casada, que quando surgisse uma oportunidade, faria um acerto de contas com o marido. Casada a mais de trinta anos, sonhava em um dia jogar em sua cara todas as mazelas que ele lhe causou.

Contou-me que o sujeito sempre fora bravo, exigente e, em off, mulherengo. Tentou questioná-lo, mas ele foi curto e grosso. O casamento era um contrato igual ao de uma empresa: se ela não estava gostando, deveria pedir contas. Era a única filha mulher no meio de cinco irmãos. O pai era militar, firme e autoritário. Quis se libertar, mas acabou caindo nos braços sufocantes de um rapaz da corporação. Vive o casamento entre marolas e tempestades.

– Meus filhos estão casados, temos mais folga de dinheiro e um bom patrimônio acumulado – disse falando baixinho com a mão na boca. – Aguentei todos esses anos e, agora, que posso gastar com folga, não vou entregar de bandeja o meu marido para outra, jamais. Aposta que um dia sua vez chegará, então poderá falar tudo sem medo, por para fora todos os sapos entalados, retidos em sua garganta.

– Eu vou me vingar – disse-me ela com o olhar de raiva. – Vai surgir uma oportunidade, nem que seja quando ele estiver velhinho e doente. Vou fazê-lo engolir tudo o que passei. Tenho registrado na minha memória cada raiva que ele me fez chorar. Quero torturá-lo com reclamações até sufoca-lo.

Olho para ela e me ponho a pensar: Por que esperar tanto tempo para falar? Quantas iras contidas e raivas a lhe queimar por dentro? Quantos acertos pendentes, que não fecham a contabilidade dos anos de casada? Quantos dissabores miúdos que, somados, abalaram ambos? Quantos ódios acumulados, que valem mais que o patrimônio acumulado?

– É um casamento falido de amor – afirma entre dentes. Sabe que no acerto de contas também deixou de cumprir a sua parte, se omitiu. Se algumas cláusulas foram rompidas, deveria ter insistido em analisar novamente o contrato. Rever essas diferenças de atitudes, de interesse e de parceria.

– Verdade! – Disse-lhe. – Como marido e mulher, ou melhor, sócios, como ele afirma, deveriam que ter fixado um prazo de ajuste para tentar reativar o amor perdido e o equilíbrio. Porém, se a chama apagou e a insatisfação é constante e incomoda, então não tem solução, está na hora de dar por encerrada a sociedade.

Ela sorri, disse que só pensa no momento certo de vingar. Afirma que casamentos desfeitos vão sempre parar na mesa do juiz.  Ela não quer se expor a uma separação que poderá ser litigiosa. Quer aguardar, cautelosa, quando ele estiver fragilizado, para romper o vínculo matrimonial e conservar os seus direitos, principalmente os patrimoniais.

Ela fará igual à outra que eu conheço. O marido se diz apaixonado e a trata como uma bonequinha. Ela perdeu o encanto, enjoou de ser tratada como bibelô, segundo me afirmou. Quando cresceu em seu trabalho e ventilou uma separação, ele ameaçou deixá-la sem nada, sem filhos e a ver navios. Fiquei anos sem vê-la. Há pouco tempo, encontrei com ela em um seminário. Estava do mesmo jeito, murcha, desbotada, sem vigor, interessada somente no juízo final. Sonha que ele um dia a largará e, quando ele se for, poderá finalmente usufruir a sua tão desejada liberdade.

Quem é o errado nessa história? Continuo a me perguntar. Vale a pena para ambos navegarem sem rumo? Vale o sacrifício de esperar o outro se afastar, abandonar o barco?  Os anos de sacrifício compensam? Quem ganha? Quem perde?

Ambos perderam anos de vida, que poderiam ser investidos em outros contratos, em outras sociedades, em outros investimentos mais prazerosos e divertidos. Se o que existe já está falido, desgastado, destruído de sentimentos e de sonhos, investir não compensa. Melhor retirar essa carga negativa acumulada e se reinventar. Passar a raspadeira do diabo para tirar o limo e se abrir para a vida, mesmo que no balanço final, as perdas sejam maiores que os ganhos.

 

 

 

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Publicado em 4 de novembro de 2016 por e marcado , , , , .
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