Vidas em contos

(por Rita Prates)

A farra do boi

Estava acertando detalhes da pintura do muro do prédio com o marido da minha faxineira quando ele me perguntou se eu sabia da história da farra do boi. Falei que não. Tina logo se prontificou a contar o que havia acontecido no final de semana no morro. O casal tropeçava nas palavras para relatar o caso do boi. Disseram que quem contou em detalhes foi dona Maria, mãe de um traficante. – Ela é tão sem noção, fraquinha das ideias, que dá até pena. Falou entre risos o marido de Tina.

Segundo a mãe, os rapazes beberam muito na noite anterior até o dia clarear. Durante a bebedeira,  seu filho prometeu um churrasco para comemorar uns “negócios” que fizeram e que rendeu uma boa grana.

Dona Maria afirma que o filho bebe para aliviar o espírito. O rapaz trabalha muito e ainda tem que carregar um bando de marmanjos nas costas. Dizem que ele mata quem se mete em seus negócios. – Pura mentira, diz ela ofendida. – Trabalha protegendo os outros, meu garoto é vigia, e dos bons.

Lembra angustiada quando invadiram a sua casa e acharam alguns sacos de pó branco debaixo da cama do filho. Levaram-no algemado, mas antes lhe deram sopapos, pois ele se negava a acompanhar os homens. O coração disparou e sua pressão foi às alturas vendo-o maltratado. Mal refeita do susto, viu surgir à sua frente o filhote todo sorridente, dando-lhe beijinhos e tranquilizando-a. Não entendeu nada. – Dizem que este tal de celular resolve tudo na hora, fala sério. É só discar que vem um moço soltar, fácil, fácil!

Ele prometeu que não guardaria mais pozinho em casa, mas quanto às armas não teria jeito, precisava delas para trabalhar, se proteger e entregar algumas encomendas.

O garoto é a sua vida. Ele sempre lhe traz agrados, umas correntes, brincos e anéis que não lhe cabem nos dedos grossos de tanto que lavou roupas para fora. Já falou que prefere que a leve a uma loja para experimentar os bijus, mas ele é teimoso e não a ouve.

O filho cuida dela com carinho. Ai de quem lhe faltar ao respeito, pois corre o risco de levar porrada. Sente falta de uma filha pra fazer companhia, mas acaba se conformando com os dengos do rapaz.

Ela fala para todos que o rapaz é uma benção, educado e não anda com marginais. Quem fala mal dele é invejoso, fica criando historias para atrapalhar o futuro do menino. Se ele fosse ruim, não seria solto no mesmo dia.  A polícia prende porque acha que todos no morro são perigosos, mas o seu filho é um moço decente, muito corajoso.

Quanto ao churrasco, aconteceu de tudo. Foi muito engraçado e quase a mataram de susto. Um amigo que mora lá pras bandas da Lagoa dos Ingleses mandou buscar a carne. Ganhou um boi inteiro, isso mesmo, só que o bicho estava vivo, pastando.

Eles não tiveram dúvida, seguiram pela BR, os meninos e o boi na frente. Se a polícia visse a tropa, acharia que eles tinham roubado o animal. Vieram bebendo cachaça pelo caminho para espantar o frio, e fumando uns cigarrinhos de palha.

Quando chegaram à favela, já passava das duas horas da madrugada. Em casa foi uma coisa de louco, queriam levar o boi para o quintal, mas ele empacou na entrada.  O bicho era muito gordo, e por mais que eles tentassem, não passava no portão. Empurra de cá, cutuca de lá, quase que arrebenta o muro. Por fim meteram uns tiros na cabeça do animal.

– Fui acordada com um bafo de pinga no cangote, falou rindo. Era o menino me tirando da cama. Fiquei tiririca.

– Mãe, vem logo, corre pra me ajudar! Pediu o filho.

– Pera ai menino! Me deixa dormir, gritou enfurecida.

– Ele me pegou no colo e me levou até o portão. Quase morri de susto, de preta fiquei branca. Quando as minhas pernas pararam de tremer, comecei a rir que nem uma doida. Os amigos também dispararam a rir. Não sei se foi pela minha cara de espanto ou pelo bicho estatelado no chão.

– Ensina a gente a cortar o boi, implorou o filho meio tonto.

Primeiro tiveram que arranjar facas e facão para os homens. Depois eles colocaram as suas armas sobre o muro, tudo arrumadinho, brilhando à luz da lua. Parecia uma vitrine de loja de armas, mais de vinte, de todos os tamanhos e calibres.

Os vizinhos ouviram a gritaria, mas ficaram quietos em casa, talvez escondidos, com medo de ser briga de gangues.

Difícil foi controlar a turma, puxa de cá, corta de lá, e eles bêbados faziam uma algazarra dos diabos. Parecia um bando de urubus em cima da carniça. Sangue espalhado por todos os lugares, colorindo as roupas de vermelho. Amararam um osso no cachorro, que corria de um lado para outro tentando come-lo.

Durante a confusão meu filho liga para a namorada. Quer que ela venha até a sua casa lhe ver. Fico apreensiva, afinal a garota mora na parte baixa do morro, e a turma de lá não pode saber que ela se encontra com um rapaz daqui de cima. Ele me manda ficar tranquila, ela sabe por onde passar para não ser pega.

Quando a moça virou a rua deu de cara com a cena. Ela empalideceu e, tremendo, arriou no chão. Estava com o coração aos pulos, não acreditava no que via. A cena era surreal. Tinha muito sangue escorrendo pela rua, e um monte de homens seminus carregavam pedaços de carne nas costas e os colocavam sobre a laje da garagem. Assustada, gritou com a voz rouca:

– Vocês agora estão matando e depois cortando em pedaços? Ficaram loucos?

Foi uma gargalhada geral. Até eu ri da besteira que a menina disse. Mesmo com os risos, ela não acreditava no que via. Ficou hipnotizada olhando para as carnes e para a sangueira descendo pela rua.

Para tranquilizá-la, começaram a jogar bola com a cabeça do boi. Finalmente ela riu aliviada, não tinham enlouquecido, eram loucos mesmo. O namorado a levou até a laje e lhe deu um pedaço bonito de carne.

Por fim a menina entrou na farra do boi. Ajudou a salgar as carnes e a lavar o beco, pois sangue era o que não faltava. Parecia que havia tido uma guerra e que tinham matado um pelotão inteiro.

As sobras do boi eles levaram para uma mata próxima e enterraram. Às gargalhadas falaram que dali a alguns dias iriam dar um telefonema anônimo para a polícia, avisando que havia corpos enterrados naquele lugar. Queriam ver suas caras de bobo, quando descobrissem que era carcaça de boi.

– Fiquei orgulhosa de ver o meu garoto distribuir carnes entre os vizinhos, falou sorridente. O dia foi de festança no morro. Um novo aroma pairava no ar. Era um cheiro forte de carne assada, frita, cozida e ensopada.

O dono do bar fez até uma gracinha para os policiais do posto, presenteou-os com umas pingas e uns churrasquinhos. Eles estranharam no início, mas não resistiram ao cheiro bom de carne que exalava por toda a parte alta da favela.

Os meninos comeram churrasco durante todo final de semana com muita cachaça, mulheres e cantoria. Como toda farra acaba sempre em briga, dois malandros mais alterados foram esfaqueados e jogados na cova do boi.

 

 

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Publicado em 28 de outubro de 2016 por e marcado .
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