Vidas em contos

(por Rita Prates)

O silêncio que me invade

Tento conviver com o meu silêncio interior, mudo, observador, quase um espião a me perseguir.  Tento puxar das minhas entranhas o significado da solidão das minhas palavras. Não ouço nada, nem suspiros, nem uma dor maior para que eu possa gritar e me sacudir em soluços.

Como posso me deixar levar sem uma resposta para esse silêncio que me afeta a alma e o meu viver?  É como o retrato daquela enfermeira no corredor do hospital, que está com o dedo em riste na boca pedindo silêncio. Nada de barulho, ali não é permitido chorar alto, gritar a sua dor, socar as paredes em busca de perguntas sem respostas.

As preces pedidas em silêncio, vêm carregadas de emoções, medos, súplicas e devaneios.   Atravessam as muralhas do pensamento e se agitam no ar em busca de realização e consolo. Pelas expressões dos rostos silenciosos, concentrados nos seus pedidos, angustiados, desesperados ou agradecidos, há sempre vozes no silêncio das orações.

O silêncio das emoções vai aos poucos rompendo laços, afastando amores e amigos. Tudo a sua volta se transforma em um vazio, onde não é permitido aproximações, só divagação. O silêncio contido constrói um mundo paralelo onde habitam monstros e nuvens carregadas, que não conseguem romper-se em lágrimas, e tristes, vão pairando sobre a sua cabeça, silenciosas e doentias.

O silêncio da contemplação é divino e poderoso. É um silêncio carregado de paz, que emociona quando vê algo que o faz viajar na profundeza do seu ser. É puro, majestoso como uma cachoeira descendo risonha do alto do morro, com a luz da lua iluminando-a, embalada pelo som envolvente de suas águas na mata silenciosa.

Conviver com o nosso silêncio interior e entende-lo, perpassa pelo ventre da mãe, que nos acolheu e nos preparou para a vida. Atento e curioso, berra ao sair do silêncio dos inocentes para um mundo em ebulição. Quando encolhe as pernas e se curva na posição de feto, sente-se como se retornasse ao silêncio do útero.

O silêncio em excesso apavora.  Mexe tanto com você, que corre o risco de te sufocar, te enlouquecer em busca de tantas respostas. O silêncio grita, te sacode e te leva a percorrer labirintos sem saídas. Chega a um ponto que o barulho do silêncio fica ensurdecedor, e, é necessário abrir as portas e deixar o ar entrar, aprumar o corpo, vestir a alma e seguir em frente.

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Publicado em 25 de outubro de 2016 por e marcado , , , , .
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