Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas parte 9 – Frustração

Estava ansiosa para começarmos, pois o primeiro encontro foi marcado por revelações que me deixaram pensando, exaustivamente, toda a semana. Finalmente demos início a nossa caminhada, queria ver o que aconteceria, como agiríamos, e se daríamos conta se seguir a nossa jornada.

Às dezessete horas estávamos a postos, mas ninguém se manifestava. A terapeuta Diva propôs que escolhêssemos um tema e falássemos sobre ele. Começaria por Heide, que estava à direita da roda.

– O meu tema é frustração, falou Heide com nó na garganta. – Sou uma frustrada em potencial e gostaria que falássemos sobre isso. Sempre tive vontade de ser e de ter, nada fui e nada construí para mim. Tenho um casamento monocromático e filhos que poucas alegrias me dão. Casei muito jovem, cheia de sonhos e fantasias, e a cada filho que nascia mais obrigações e frustações. Doei-me para eles, cuidei da alimentação, dos estudos e da educação. Era muito rigorosa, cheia de castigos, gritos e punições.

Acho que os fiz adultos de respeito. Dei o amor que podia dar, e não acho que eles retribuíram esse amor da forma que eu gostaria. São individualistas, acredito que não gravito no universo deles. Sou dona de casa, não estudei e nem trabalhei. Sinto que a minha vida passou e eu nada fiz por ela. Agora, só me restou desilusão. Não tenho sonhos e nem desejos, só amargura e frustação.

– Eu também me sinto frustrada, fala Valeria cruzando as pernas e as enlaçando ao redor dos pés. – Sou frustrada por que não tive coragem de ter o meu filho, fui covarde e o arranquei do meu ventre. Quando vejo meninos da idade dele, pego a me beliscar, a me ferir. Se pudesse, eu me espancaria com arame até sangrar. Sinto-me frustrada por ter sido rejeitada, enganada e abandonada. Ele me fez retirar a criança, e o que recebo em troca é sexo esporádico dentro de um banheiro em um quarto de empregada.

– E quando a gente é abandonada, depois de anos de dedicação, e o cara alega que cansou, enjoou e quer ser feliz com outra, eleva a voz Tati com entonação de rancor. – É como se o amor tivesse data de validade. Ficou gasta e rançosa a relação, não dá mais para o consumo. Cuidado! O casamento deve acabar antes que envenene o casal. Eu me dei por inteira e ele pela metade. Sinto-me frustrada, logo agora que poderíamos usufruir e aproveitarmos juntos, ele me larga com dois filhos e um cachorro. Ordinário, quero vê-lo debaixo da terra com as outras.

– E eu que fui abandonada e estou só novamente. Quase toda a minha vida andei sozinha a espera de alguém que nunca bateu na minha porta, diz Laura com os olhos baixos. – A minha vida toda foi de sonhos e desejos jamais vividos. Sou frustrada por não ter tido um filho, por ter sido ignorada pelos homens, por não ter tido a coragem de ser mais ousada e investido no homem que amei. Gostaria que qualquer um me olhasse com interesse, que desse sinal de que eu não sou um ser imperceptível. Sei que ainda sou nova, que apesar dos cinquenta anos posso ter alguém ao meu lado. Porém quem quer uma mulher que se olha no espelho e não se vê?

– Olhem para mim, me acham linda, produzida, elegante e cheia de dinheiro, mas no fundo sou frustrada, diz Katia quase chorando.- Tenho tudo, ou quase tudo, mas dentro de mim é como se nada tivesse. O meu casamento é de faixada, mentira pura. Desfilamos como um casal vinte, belos e vazios. Tenho os meus amantes que servem para aliviar a minha dor, para me vingar do meu marido traidor. Não sei o que é ser um casal feliz, vim para ter e não para ser. Não tenho como voltar atrás, depois que adquiri bens e conforto. Não me arrisco a sair da minha zona de conforto. A minha sina é viver com a minha frustração de não conhecer o verdadeiro amor.

– Eu encontrei o amor, só que ele é visto como pecado, o que me frustra muito, disse arfando Lili. – Os invejosos declaram aos quatro ventos que os meus familiares devem se sentir envergonhados pela minha escolha. A minha felicidade é arrancada, despedaçada pelos olhares de reprovação, por línguas que me condenam, por pessoas que no fundo não sabem o que é o amor. Sinto uma frustração enorme por não poder demonstrar esse amor abertamente, pois duas mulheres que se beijam ainda causam estranheza e críticas ferozes.

– E você o que diz sobre frustração?, fala Diva me olhando nos olhos.

– Acho que todas nós carregamos algumas cargas de frustrações durante as etapas da nossa vida, falo olhando para as minhas amigas. – Frustrações por não termos conquistado alguém em especial, por não termos conseguido aquela promoção ou o emprego desejado, por não educarmos os nossos filhos como desejaríamos, por não termos isso ou aquilo, e, finalmente, por nos sentirmos tão sozinhas, desamparadas, angustiadas pela vida complicada que nos embaraça a mente, prende nossos movimentos e nos sufoca, deixando-nos sem rumo.Sinto-me frustrada pelo inacabado, por pensar que poderei morrer de repente e não concluir os meus projetos de vida.  Tenho sonhos grandes, talvez impossíveis de serem alcançados, desejos reprimidos, me frustro por não saber nem onde começar.

– Acho que o deixar para depois, é o que nos imobiliza, fala Heide olhando o quadro na parede. – A frustração vem quando ficamos reclamando da vida, sem coragem de começar, e sempre deixando para depois. Ficamos inertes, nada de nos movermos. Achamos que não somos capazes ou que o nosso tempo já passou.

– Muitas culpam o destino, afirma Valéria. – Quem paga o pato é o carma. Mas, a causa da frustração está em nós, no nosso não fazer, no nosso não acreditar, na nossa fraqueza, na nossa falta de coragem de romper com nós mesmos.

– Somos cercados de pessoas frustradas, desacreditadas, fala Tati. – Somos o reflexo do nosso meio. A minha mãe sempre se dizia frustrada por não ter tido uma casa grande em um bairro nobre, então culpava o meu pai. Meus irmãos achavam que não tinham empregos bons, porque não estudaram em excelentes colégios e, rancorosos, culpavam o meu pai. A frustração estava diretamente relacionada à incapacidade deles de superarem obstáculos, e de construírem os seus próprios destinos. Inconscientemente transferiam as suas frustrações e mágoas para o meu pobre pai, que tinha que carregar a cruz da incompetência deles.

– Reconhecer as nossas frustrações e tentar entende-las exige de nós muita lucidez, aparta Diva. – O mais importante é entender a razão e o porquê desse sentimento que nos corrói por dentro.  Analisar as nossas falhas e o que levou o outro a falhar com a gente. É desfazer os nós aos poucos, liberando cada laço que nos aperta e nos sufoca.  Analisar as frustrações que teceram esse manto pesado sobre os nossos ombros requer paciência, equilíbrio emocional e muita cautela para não se magoar ou magoar os outros. Devemos pensar sobre as nossas frustrações essa semana. Tentar, dentro do possível, desfazer pacientemente cada nó. Devemos listrar as nossas frustrações, analisá-las, e ir aos poucos as eliminando.

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Publicado em 21 de outubro de 2016 por e marcado .
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