Vidas em contos

(por Rita Prates)

Superação

Assisti pela TV algumas provas das Paraolimpíadas, mas tive o privilégio de ver pessoalmente o triatlo. Fiquei impressionada com o vigor e a determinação desses atletas. Alguns amputados nos membros superiores e outros nos membros inferiores, mas inteiros e vitoriosos na vontade de vencer todos os obstáculos da competição e, também, o que a vida lhes impôs.

Eles encontraram no esporte a comprovação de que estavam preparados para enfrentar desafios e superá-los. Passaram a ser respeitados e admirados pela resistência física e psicológica. Ao se exporem ao mundo, mostraram que tinham família os apoiando, filhos orgulhosos e pais realizados. Provaram do que eram capazes e vitoriosos só de estarem ali, mostrando ao mundo que eram os melhores.

Paraolimpíadas é uma lição de vida. Servirá como estímulo para que muitos com algum tipo de deficiência. Acorde e saia da sua zona de proteção e procure refazer a sua vida com mais determinação e confiança no futuro.

Na minha trajetória como professora universitária, tive alunos com algum tipo de deficiência, mas três me marcaram mais.

Um era moreno alto, que nasceu cego e estava no último ano do curso.  Andava sempre alegre e brincalhão. Identificava pelo nome cada colega e percebia quando um não estava bem e tentava reanimá-lo. Na sala, gravava as aulas, ficava atento e atuava ativamente nas discussões dos trabalhos. Nunca se postou de coitadinho. Participava de todos os eventos, tinha ótimas notas e jamais usou da sua cegueira para pedir favores. Todos o admiravam e o respeitavam.

A outra era uma moça insegura, agressiva, que não conseguia conviver com a sua deficiência. Ela tinha uma perna mais curta e fina, e tombava de lado quando andava pela sala.  Era calada, não permitia aproximações e nem brincadeiras por parte dos colegas. Não gostava dos trabalhos em grupo, de participar dos debates em sala de aula, mas tinha boas notas. Trabalhava na administração de cartões em uma loja de móveis.

Fiquei sabendo de uma oferta de emprego para deficientes que estivessem nos últimos anos de faculdade. O salário era três vezes o que ela recebia. Pedi que me aguardasse no final da aula e mostrei-lhe, entusiasmada, o anúncio de emprego. Disse-lhe que achava que ela estaria apta para o cargo e com chances de crescimento, pois a empresa tinha um programa de carreira atraente.

Qual não foi a minha surpresa quando ela me olhou com raiva. Disse-me que não tinha nenhuma deficiência. Quase me fuzilando, falou enfática, que eu estava enganada em achar que ela era aleijada por ter a perna mais curta e fina.

Desculpei-me por ela ter se sentido ofendida. Porém ela virou-me as costas e nunca mais falou comigo até o término do curso. Fiquei chateada, por eu não ter percebido que ela não sabia conviver com a sua diferença. É difícil enxergar e aceitar as nossas próprias deficiências, principalmente quando são visíveis.

O terceiro caso foi de um aluno que me marcou muito. Ele trabalhava em uma siderúrgica e no seu setor houve uma explosão. Ele teve a parte superior do corpo queimada e as cicatrizes o acompanharam para sempre. Depois de longos tratamentos físicos, psicológicos e de diversas plásticas, ele procurou refazer a sua vida com o apoio da família.

Quando o conheci, fui surpreendida com um rapaz com o rosto e a cabeça coberta por cicatrizes cheias de queloides, e as orelhas disformes, mal tampavam os ouvidos. Os braços também sofreram queimaduras graves. A mão direita era deformada, rígida, mas ele foi capaz de se adaptar, e de forma competente utilizava o computador para estudar.

Ele veio ao meu encontro com a cabeça erguida e me olhou diretamente nos olhos. Segurou na minha mão com firmeza, se apresentou, e disse que era o representante de turma.  O impacto inicial passou quando senti a sua força interior, e a sua forma de comunicar-se com segurança e altivez.

Após a aula, contou-me do acidente. Mostrou-me o retrato dos dois filhos e da esposa, a companheira que nunca o abandonou.  Ele era um cara alegre e bem humorado. A turma o respeitava. Admirava-o pela postura com que encarava a vida, sem se fazer de vítima. Percebia os olhares de espanto e curiosidade ao caminhar entre as pessoas. Tentava, de forma mais natural possível, sem demonstrar irritação, conviver com os olhares curiosos e as interrogações a sua volta.

Um dia uma aluna veio me revelar que ele andava cantando as meninas e fazendo brincadeiras impertinentes. Chamei-o na minha sala e contei sobre as reclamações. Solicitei que ele parasse, pois não precisava provar para ninguém a sua capacidade de sedução. Disse-lhe que essa atitude poderia afastá-lo de seus colegas, e contribuir para perder o respeito conquistado.

Falou-me de suas angústias, dos seus perrengues, e que ele as assediava por puro instinto de macho. Depois de uma longa conversa em que ele se abriu por inteiro, pediu desculpas pela sua atitude imatura. Assumiu que era insegurança, tolice querer agir como um conquistador para se sentir autoconfiante.

Durante o semestre, ele se candidatou ao cargo de estagiário em uma emissora de TV. Após vários testes, conseguiu uma vaga para portadores de necessidades especiais. A empresa, percebendo o seu potencial, sugeriu que ele trocasse de curso e fizesse marketing, pois era mais adequado ao seu perfil.  Apoiei a sua decisão e fiquei orgulhosa de saber, quando ele se formou, que fora contratado pela emissora.

Os três alunos foram um alerta para mim. Para superarmos os nossos obstáculos, precisamos enxergar as nossas deficiências. Saber encará-las de frente e assumi-las. Assim, podem-se projetar metas, para que possamos ter uma vida com mais qualidade e realizações.

As paraolimpíadas no Brasil serviram de exemplo para as pessoas que antes se sentiam marginalizados pelas suas deficiências. Elas, com certeza, passarão a entender que podem mudar as suas vidas, a sua forma de ver, de sentir e trabalharem para superar as suas dificuldades.

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Publicado em 11 de outubro de 2016 por e marcado , .
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