Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas parte 8 – Tatiana

Sou uma mulher a beira de um colapso nervoso. Fui casada a mais de vinte anos, me entreguei por inteira. Fiz e desfiz da minha identidade para agradar o meu marido. Ele me deixou, me abandonou. Alegou não gostar mais de mim, que a nossa relação estava desgastada por brigas e discussões.

Não me conformo, fizemos tantas coisas juntas e ele simplesmente diz que cansou. – E os nossos planos? Agora jogo tudo pela janela, rasgo, e fim. Havíamos combinado que ficaríamos juntos, criaríamos os nossos filhos, curtiríamos os netos e, aposentados, viajaríamos pelo mundo.

Sinto-me maltratada, desamparada. Aquele cretino e mentiroso me trocou por outra, uma vadia. Fui atrás dela, e ao vê-la, aprontei o maior barraco na porta do bar e em frente ao prédio onde ele mora.

Prometi-lhe, que faria de tudo para fazê-lo feliz. Supliquei que não me deixasse, e até ameacei me jogar do décimo andar do prédio. Nada o fez voltar para mim. Eu me acostumei com ele. Apesar de nossas brigas constantes, sinto sua falta. Após os desentendimentos, acabávamos nos reconciliando na cama, entre lençóis.

Os meninos acham normal o que aconteceu. Pais de seus amigos se separaram, agora chegou à vez deles. Dizem, brincando, que terão duas casas, e que ganharão mais presentes. Ameaçam morar com o pai, se eu ficar pegando no pé deles. Ninguém apoia a minha solitária empreitada pela reconciliação.

Sei que vocês querem saber por que ele me largou, também não sei. Sempre fui uma mãe exemplar. Cuidava das crianças e da casa com capricho. Às vezes pegava no pé dele para participar comigo das atividades domesticas. Ajudar-me a manter a casa em ordem.

Sempre fui caseira, não gosto de muita badalação. Prefiro ficar em casa. Chego cansada do trabalho, e ainda tenho que colocar as coisas em ordem. Não tinha pique quando ele me chamava para sair. Quase sempre recusava o convite. Claro que ele reclamava, queria que eu fosse junto. Para me provocar, apelava e ia sozinho. Caia na gandaia e só voltava de madrugada. Tentei alerta-lo que estava errado, que tinha que ser mais compreensivo. Deu no que deu, arrumou outra mulher e me deixou aqui a chorar.

Uma conhecida já quis se separar, mas se acomodou com medo de ficar sozinha. Afirma que é melhor com ele aos gritos, do que o silêncio da solidão. As que se separaram de seus maridos, disseram-me, que eles culpam suas esposas por tudo. Alegam, inclusive, que elas deixaram a relação esfriar, que os colocaram de escanteio e só se dedicaram aos filhos.

Eu me incluo no grupo das que cuidavam de tudo, da casa, dos cachorros e das crianças. Eles não pensam que temos jornadas duplas, de horas intermináveis na empresa, mais casa e filhos para cuidar. Egoístas! Pensam somente neles e nas vagabundas que se oferecem por ai.

Fico o tempo todo bolando um plano diabólico para me vingar dele. A estratégia infalível é atacar os ex no que mais gostam. O plano é o seguinte; se ele gosta de CDs – destrui-los; se gosta de livros – estraga-los ou vende-los; se gosta do sítio – lutar até a última gota para tomar dele. Qualquer bem deve ser passado para os filhos, e deixa-lo, dentro do possível, sem nada.  Quero que a minha vingança se consolide através dos meus atos maquiavélicos para destruí-lo, enfraquece-lo, leva-lo a loucura ou ao enfarto.

Ele acabou comigo, olhem para mim, estou um caco, pareço dez anos mais velha, destruída física e psicologicamente, tudo por causa dele. Eu o considero um ladrão de sonhos, um traidor que me despedaçou e me atirou no fundo do poço.

Essa sou eu, uma Tati cheia de rancor e de dor no coração. Peço ajuda, pois estou enlouquecendo de ódio e de mágoa. Conto com vocês para me ajudarem a encontrar a paz.

 

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Publicado em 7 de outubro de 2016 por e marcado .
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