Vidas em contos

(por Rita Prates)

Me chama de mãe

– Venha conhecer os meus sobrinhos. Falou a tia levando-me para onde estavam três meninos brincando na varanda. A mais velha tem quinze anos, o menino dez, e ela nove. Foram apresentados como irmãos, mas percebia-se, pela pele negra da mais nova, que ela era filha adotiva. Cumprimentaram-me com um sorriso e voltaram ao jogo de tabuleiro com atenção voltada para os dados.

Tudo começou há três anos, quando uma jovem mãe resolveu visitar um abrigo. Queria fazer algo pelos meninos carentes de afeto, depois que ficou sensibilizada com uma palestra sobre o abandono de crianças e as suas consequências.

Ela teve uma experiência sofrida, há alguns anos, ao apadrinhar um menino. Era recém-casada, jovem e imatura para lidar com situações envolvendo crianças com transtorno de estresse pós-traumático. O menino tinha crises violentas, tornava-se agressivo e verbalizava que queria matar todos ao seu redor e depois morrer.

Foi informada que a família traficava drogas. Os pais constantemente trocavam tiros entre gangues. O menino presenciou quando o pai foi morto em uma batida policial. A mãe o abandonou e se perdeu pelo mundo. Percebendo que não tinha condições psicológicas de ajudar a criança, não seguiu com o apadrinhamento.

Anos depois, procurou saber sobre o paradeiro do menino. Ficou surpresa com a notícia de que o garoto tinha sido adotado por um policial. A família o ajudou, com amor, a superar os seus traumas. Tornou-se um rapaz saudável, estava trabalhando e se preparava para entrar na faculdade.

Feliz com a boa notícia, resolveu, sempre que possível, visitar crianças em um abrigo próximo a sua casa. Quando dava, os filhos a acompanhavam. Passavam a tarde brincando com os meninos, distribuindo guloseimas e amor. O filho muitas vezes pedia-lhe para levar todas as crianças para sua casa.

– Impossível, dizia com o coração apertado. – Gostaria de acolhê-los, mas não temos condições financeiras, e há regras que não permitem retirá-los.

Um dia recebeu um telefonema do abrigo. Queriam saber se ela poderia apadrinhar uma criança. Com o coração aos pulos ligou para o marido que concordou. Ao conhecê-la, ficaram encantados com a menininha de olhos tristes e sorriso sereno. A criança tinha sido abandonada pelos pais e andava chorosa e tristinha pelos cantos.

Durante um ano e meio a menina passava todos os feriados e férias com a família. Uma cama foi colocada no quarto da mais velha. Dividiram o armário, sendo que o dela era recheando com roupas, sapatos e brinquedos. Finalmente ela tinha um cantinho só com as suas coisas, o que a deixava encantada sempre que o abria.

Com o passar do tempo, o amor pela garota aumentava a cada visita. A mãe contou que, ao vê-la pela primeira vez, sentiu um carinho enorme por ela. Queria protege-la, amparar aquela menininha de cabelos encaracolados e curtinhos, que timidamente a abraçou, como um bichinho desprotegido e carente.

Repentinamente, sem comunicar que a menina tinha sido colocada para adoção, o abrigo não permitiu mais visitas, pois a menina precisava conviver com a nova família. Foram pegos de surpresa e, só de pensar que ela não mais estaria com eles, ficaram transtornados. Os filhos não queriam ficar sem a amiguinha que, na verdade, era uma irmã para eles.

A família, candidata à adoção, acabou desistindo. Alegaram que estavam passando por problemas financeiros, e que adiariam para outra ocasião. Quem sabe conseguiriam uma menina mais clarinha.

A mãe de coração rapidamente entrou com pedido de guarda provisória e de adoção da garota. Durante esse período de luta para conseguir a guarda, a pequena chorava mais um abandono. Os meninos sofriam querendo-a de volta, ela fazia falta, não podiam perdê-la. O pai esteve sempre presente em todas as etapas do longo processo, dando apoio, carinho e equilíbrio.

Depois de muita burocracia, transtornos e dificuldades, finalmente autorizaram a transferência da menina para a família que tanto a amava. A pequena ficou em estado de graça ao entrar em definitivo no apartamento onde moraria para sempre. Teria uma família, aquela que a acolheu e a tratou com carinho desde o primeiro dia.

A mãe colocou-a no colo e deu-lhe um abraço apertado. Disse-lhe que a família agora estava completa, com três filhos lindos e saudáveis. A menina abraçou o pai e os irmãos, e com os olhos cheios de lágrimas, perguntou-lhe se poderia chama-la de mãe.

– Você é um presente dos céus, não veio da minha barriga, mas do coração, falou a mãe emocionada. Você pertence a nossa família. Tem agora um pai, uma mãe e dois irmãos. Ambas choraram de emoção ao se abraçarem.

– Me chama de mãe, quero ouvir você sempre me chamar de mãe, pois acabei de ganhar uma filha linda, que veio colorir de alegria essa casa.

Conseguiram vaga no colégio dos irmãos. Os pais foram claros com os filhos; as regras eram iguais para todos, inclusive nos castigos. Nada de tratamento diferenciado e de coitadinha. A filha mais velha sempre foi carinhosa, porém era firme. Ficou encarregada de ajudar a irmã nos deveres da escola, e comandar a casa na ausência dos pais. O menino que sempre fora seu amigo, companheiro de brincadeiras, agora estava atento para defendê-la em todos os momentos.

Os três vieram para a sala ouvir o que tanto conversávamos. Ela entrou balançando os cabelos anelados e bem tratados, presos em um rabo de cavalo. Sentia-se realizada e vaidosa com os cabelos tocando nos ombros, era o que sempre sonhou.

Ficou ao lado do pai passando a mão em sua cabeça, enquanto o irmão contava as travessuras e os castigos que recebiam quando passavam dos limites. Todos riam descontraídos dos casos hilários relatados pelo menino.

Amei estar com eles. Senti o amor dos pais quando nos contaram toda a história da adoção, o medo de perdê-la e o quanto estavam felizes com a filha mais nova. Aquela família era especial, tinha luz própria e exalava amor entre eles.

 

 

 

 

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Publicado em 4 de outubro de 2016 por e marcado , , , , , .
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