Vidas em contos

(por Rita Prates)

Pedaços de mim

Arranco pedaços de mim, cada dor um pedaço, cada angústia mais um pedaço que se solta.

Quando levo um esbarrão que me fere a alma, um pedaço se vai. Caem de acordo com o tamanho da dor. São pedaços sangrentos que me doem por dentro e me corroem. Vão me consumindo a conta gotas, até serem expulsos através de cortes que me enfraquecem o corpo e danificam a alma.

Dissolvo-me em dúvidas, em querer o que suponho ser inalcançável, pois me faltam forças para lutar. Não me sinto forte o suficiente para mudar de atitude. Ando a esmo sem ter a coragem de encarar o sofrimento que me aniquila e me devora.

Não consigo estancar as feridas e, desiludida, vejo, de tempos em tempos surgirem novas cicatrizes. São marcas que descrevem minha amarga trajetória de vida, envolta em perdas, abandonos, culpas e lagrimas.

Vou me mutilando aos poucos, e assim me desfazendo em partes. Arranco de mim o mal que teima em me acompanhar, que vagueia pelas noites mal dormidas, pelas horas de constantes inquietações e de profundas tristezas que habitam a minha alma.

Minhas metas de vida reescritas anos após anos já não me pertencem. Secretos planos reduzidos a pó e lançados ao mar.

Nos sonhos, meus pedaços se juntam e me fazem inteira. Realizo os meus desejos, sou dona de mim, das minhas vontades, da minha vida.  Porém ao acordar deparo com a realidade, e me olho através das minhas cicatrizes. Estou nua em pelo e vazia de sentimentos. Ouço os meus soluços abafados ecoarem baixinho nas paredes do banheiro, e sinto as lágrimas geladas escorrerem pelo meu corpo ferido.

Pedaços de carne deixados amontoados nos cantos frios da sala de estar. Falta-me força e coragem para me faze-me inteira com o que restou de mim. São anos de automutilação, cedendo, me entregando, me deixando cortar.

Os meus desejos nunca foram meus, nunca prevaleceram, restou-me apenas batalhas perdidas. Aguardo um novo sinal, um novo protesto vindo do meu corpo, de minha alma, que ao se manifestar e se rebelar, será extirpado junto com os meus sonhos.

Quando encaro a realidade do meu dia a dia, vejo os meus pedaços espelhados pela minha longa e dolorosa jornada. Questiono-me: Até quando vou conseguir resistir? Quando entregarei o último pedaço que me resta e finalmente seguir livre, sem culpas, sem amarras?

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 30 de setembro de 2016 por e marcado , , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: