Vidas em contos

(por Rita Prates)

O maldito buquê de noiva

 

Cida chegou sorrindo com a sua cunhada. Mal comecei a tomar café e me cercaram para contar o barraco que havia ocorrido no morro no final de semana. Entre risos, relataram-me que o pastor resolveu fazer um mutirão de casamentos. Conseguiu reunir quinze casais e fazer uma grande celebração.

Eram quinze noivas que sonhavam em se casar na igreja. Muitas Marias com várias histórias cheias de desejos, encontros e desencontros. Quinze homens, alguns dispostos a assumir um compromisso mais sério, outros quase que obrigados a participar da cerimonia. Estavam ali, receosos, mas cientes que tudo voltaria à rotina. Era só um pedaço de papel, porém importante para as suas companheiras e filhos.

Festas em várias casas, alegria geral no morro. A noiva mais bonita era a da família de crentes fervorosos que não permitem cortar o cabelo e nem usar roupa curta. Fizeram um festão, churrasco farto com bastante refrigerante, sucos e músicas tocadas nos cultos.

Tudo corria na maior calma, até finalmente chegar a hora da noiva jogar o buquê. Ela olha para um lado, olha para outro e vê a sua amiga, madrinha do casamento, no meio de outras tantas. Gosta muito dela, moça delicada e gentil. Alma nobre que sempre ajuda a todos, mas tem o defeito de amar loucamente um bandido.

A amiga foi quem lhe apresentou o seu noivo. Agora era hora de ajudá-la a desencalhar, precisava provar a sua gratidão. Notou que ela estava muito bonita com um coque de arrasar e um vestido verde de pedrinhas na gola. Deu uma mirada no ponto certo em que ela estava. Calculou bem a pontaria e mandou o buquê em direção à madrinha querida.

O buquê alçou voou, fez piruetas no ar e foi aterrissar no coque da amiga. Um belo coque que rendeu horas de trabalho para colocar os apliques e depois transformá-lo em um penteado igual à de uma artista americana. Todo o cansaço valeu a pena, pois ficara uma belezura. O coque era alto, cheio de fios dourados e trancinhas a enfeitá-lo. Ela recebeu vários elogios e olhares de rapazes que nunca haviam reparado o seu rosto angelical.

Quando o buquê pousou no coque, ela levantou os braços rapidamente para retirá-lo.  Porém, ao alcançá-lo, mãos cruzaram com as dela, sentiu braçadas rápidas e agitadas no ar, e, de repente, um puxão, dois, vários ao mesmo tempo. Mal teve tempo de entender o que estava acontecendo, e quando tentou desvencilhar-se, foi jogada ao chão como um saco de batatas.

Todas pularam sobre ela, muitas mulheres estavam sobre a sua cabeça, pareciam abelhas picando-a, zumbindo, gritando enfurecidas e violentas. Assustada, protegia com as mãos o rosto. Descontroladas as moças rolaram com ela pela grama. Desesperada e em pânico começou a berrar por socorro.

As moças não davam ouvidos os seus apelos. Esfolada, arranhada por unhas afiadas, resolveu reagir, e aos berros chamou as garotas de piranhas e de todos os nomes feios que sempre ouvia das crianças do morro. Soluçando, ameaçou contar quem transava com cada uma delas. Ao apontar para uma, disse-lhe que era amante do homem da padaria.

De repente as mulheres começaram a se afastar do coque e da dona dele. Pobre madrinha estatelada e desgrenhada jogada no chão. A roupa estava imunda de tanta pisada, rasgada nas laterais, o rosto borrado com a maquiagem desfeita aparentando demência. O coque se transformou em milhares de fios caídos pelo rosto, amontoados em tufos pelos seios, chão e mãos das histéricas. Parecia um filme de terror com cenas cômicas.

Desesperada, continuou gritando, berrava a plenos pulmões e soltava todos os palavrões a que tinha direito. O histerismo tomou conta dela, talvez por ódio da situação constrangedora em que se encontrava, talvez por perceber o risco que correu de morrer pisoteada e sem cabeça, e tudo por causa daquele maldito buquê.

Desarvoradas pela guerra travada na disputa infernal por um buquê de noiva, e pelos palavrões e ameaças que saiam da boca da infeliz, as moças se afastaram em disparada correndo pelos becos da favela. Corriam do vexame e do medo de ouvirem os seus nomes e casos, nada puros, contados em público.

Silêncio total. A noiva pálida, constrangida, não sabia como agir, teve pena da amiga, mas também teve vergonha dos palavrões e pelos convidados de sua igreja. Os presentes comentavam baixinho que o demônio havia se apoderado da madrinha, pulado em seu coque só para criar aquele tumulto e atrapalhar a festa.

Oravam baixinho para espantar o demônio, depois elevaram as vozes em coro ao redor da desvairada. A dona do coque, do buquê e da agressão queria afundar-se na terra ou criar asas e sumir daquele inferno. O seu corpo doía todo, os seus cabelos e até os falsos estavam latejando.

Olhou-se e apalpou os buracos do vestido, estava em trapos. Faltavam ainda três prestações para acabar de pagá-lo. O ódio voltou-lhe na cabeça e, novamente aos gritos, jogou praga para que as moças agressoras nunca se casassem, e que fossem chifradas pelos seus companheiros.

Do alto do morro podiam-se ver jovens saindo em disparada de uma festa de casamento, um grupo de homens e mulheres orando e levantando as mãos ao redor de uma mulher enfurecida e uma noiva atordoada encostada no noivo sem saber o que fazer.

Um rapaz chega e ajoelha-se em frente da descabelada e a abraça com carinho. Desce com ela agarrada em sua cintura pela ruela estreita e cheia de curiosos. Em um bar pede um copo duplo de pinga, dá um gole e depois a faz tomar o resto. Envolve-a em seus braços e enxuga as suas lágrimas.  Em casa, ele a deita na cama, a enlaça com ternura e baixinho lhe pede em casamento.

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Publicado em 27 de setembro de 2016 por e marcado .
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