Vidas em contos

(por Rita Prates)

Amores trocados

Vieram da China para estudar nos Estados Unidos. Formaram um grupo de conhecidos, que para sobreviver às diferenças culturais, tiveram que unir forças para se adequar a essa nova realidade.

Com o tempo foram se adaptando, inclusive com liberdade para escolher com quem ficar ou namorar. Por estarem tão longe de casa, sem a vigilância de terem que seguir as regras rígidas da família, alguns jovens ousaram e resolveram viver juntos, morando com o companheiro em uma mesma residência.

Nessa onda de liberdade, um jovem casal passou a compartilhar o quarto e os pertence entre si. Moravam também com mais dois amigos na casa de três quartos. Dividiam as despesas e as alegrias de serem donos de suas próprias vidas.

Conheceram mais chineses que iam entrando na universidade. Novas amizades fez com que o grupo se sentisse mais seguro. Depois de dois anos de convivência, o jovem casal começou a ter crises de relacionamento. Eles procuraram amigos para ouvir os seus lamentos. Ele, mais reservado, só falava de seus problemas conjugais para um primo. Ela, mais aberta, contava para as amigas. Porém como tinha afinidade com um colega de curso, ela o elegeu como seu confidente.

Com o tempo a moça passou a usar mais o ombro do amigo para chorar. Falar sobre os conflitos entre ela e o namorado. Quando se sentia angustiada, trocava mensagens e pedidos de conselhos ao rapaz. Chegou a um ponto em que diariamente desabafava, e ele prontamente a consolava. O rapaz ficou sensibilizado com o sofrimento da amiga, tão pequenina e tímida. Fragilizada, viu nele um porto seguro.

Os chineses resolveram realizar uma festa, e convidaram o casal de amigos que andava se estranhando pela casa e na cama. Todos beberam a vontade e, num vacilo da namorada, o companheiro pegou o seu telefone e viu milhares de mensagens trocadas entre ela e o colega de sala. Ao lê-las, percebeu que a amizade entre eles havia se extrapolado, seguindo um novo rumo. Tornaram-se íntimos, quase amorosos nas falas, nas carinhas e flores enviadas. Estava mais parecendo um correio sentimental.

Ele tinha que tomar satisfação, mas como um bom chinês civilizado, chamou o primo para mediar a conversa entre ele, a companheira e o colega dela.

E assim foi. Cada um falava na sua hora, sem atropelar o outro, com respeito, seguindo a tradição. O primo, como bom mediador, procurava manter a discursão em bom nível.

De repente uma revelação, ela está apaixonada pelo colega e ele também se declarou. Concluíram que o sentimento aconteceu aos poucos, durante os choros e consolos. Juraram que nunca se beijaram ou algo parecido. Descobriram que a amizade profunda e intensa entre eles era amor.

Conversa vai, conversa vem, chegaram a um acordo. Resolveriam o problema de maneira civilizada.  O namorado deu fim ao relacionamento. Ele sairia do quarto que dividia com a moça, arrumaria as suas coisas e mudaria para a casa do colega dela.

Não haveria perdas nem danos. O colega também sairia do seu quarto, cedendo lugar para o namorado da amiga.  Se você estava pensando que ele ficaria na rua, enganou-se. O rapaz passaria a morar no quarto com a amiga. Na verdade, houve apenas uma troca no ninho de amor da garota, saiu o ex-companheiro e entrou o colega apaixonado.

Contando do momento da reunião até a troca de quartos, passaram-se sete horas. Os amigos chineses que dividiam os apartamentos com os jovens estranharam, mas aceitaram numa boa a mudança harmoniosa e sem transtornos dos rapazes.

Quando se viram sozinhos no quarto, o novo casal caiu na real com a nova situação. Iriam viver juntos, sem nunca terem dado beijos, e feito sexo. Ficou uma questão no ar, quando se olharam frente a frente. E se não gostarem? Iriam desfazer o acordo?

Apesar de ser bizarro o acontecido, eles ficaram juntos três anos. Ela acabou os estudos há dois anos e voltou para a China. Ele ainda vai demorar um semestre para terminar o doutorado. Ela diz que não quer morar nos Estados Unidos. Ele diz que não quer sair de lá.

Ele já avisou que provavelmente um novo acordo poderá acontecer quando for visitá-la. Se ela estiver interessada em alguém, eles vão sentar e negociar a transferência dela para outros abraços, outros beijos, sem brigas. Farão como aconteceu da outra vez, de forma civilizada. Agirão como jovens chineses modernos e civilizados.

 

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Publicado em 9 de setembro de 2016 por .
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