Vidas em contos

(por Rita Prates)

No trem da central para as olimpíadas

Pegamos o trem na Central rumo a Deodoro, queríamos assistir ao Pentatlo Moderno. Poderíamos ir de metrô e depois pegar o BRT, mas optamos pelo trem. A escolha foi por curiosidade, queríamos conhecer o subúrbio, que sustenta com os seus braços fortes o Rio Maravilha.

A viagem é longa. Gastamos aproximadamente uma hora e meia.  Na ida fui sentada e rodeada de turistas. Fiquei observando ruas e casas pelo caminho. Muitas residências antigas e algumas em estado precário. Não pude deixar de notar o descaso com o lixo espalhado pelas ruas, muitas vezes esburacadas. Vi também prédios com roupas penduradas nas janelas e conjuntos habitacionais conservados.

Fiquei imaginando o dia a dia desses moradores voltando para casa após uma árdua rotina de trabalho. Cansados, dentro dos vagões lotados e espremidos feito sardinha, em um calor de mais de 30 graus. Os vagões novos com ar condicionado surgiram não para aliviar o desconforto dos habitantes da região, mas por causa das Olimpíadas, para refrescar os turistas.

Na volta viemos em pé agarrados uns aos outros. As pessoas se seguravam onde dava. Muitas ficavam prensadas se equilibrando para não cair. Mas nem tudo foi agonia, pois nos distraímos com os ambulantes durante todo o trajeto.

Eles entravam em uma estação, vendiam e desciam em outra. Uns vinham com caixas de isopor cheias de cerveja, água e refrigerante. Gritavam a plenos pulmões oferecendo os produtos. Os seus gritos cruzavam com os do vendedor de bolachas, de chocolate e com os pedidos dos passageiros.

De repente entra um cara carregando uma espécie de cabo de guarda chuva, nele estavam pendurados inúmeros produtos; balas, chicletes, chaveiros, isqueiros e muito mais. Parecia um estandarte com várias saias enfeitadas e coloridas. Ele prendeu o cabo no cano superior, e os passageiros escolhiam o que queriam comprar. O rapaz foi despetalando a margarida feliz da vida, e saiu com os bolsos cheios de dinheiro.

Era só parar nas estações que desciam ambulantes e entravam outros, gritando produtos e preços. A maioria dos passageiros não estava acostumada a esse mercado esdrúxulo, que vendia desde balas a esmalte. Primeiro olharam com reserva, estranhando todo o agito, mas logo entraram no clima e começaram a se divertir com os vendedores. Riam da forma como ofereciam os produtos aos berros. Depois começaram a ajudar a explicar aos estrangeiros o que estavam vendendo, e acabavam também comprando, pois os preços eram muito atrativos.

Um rapaz chegou gritando batatas, logo um passageiro lhe falou:

– Ei cara! O trem está lotado de gringo, fale em inglês: potatoes.

– Não! Exclamou. Aqui nós falamos português, se ele quiser, vai ter que se virar para entender.

Depois da insistência da plateia o rapaz passou a falar potatoes. Topou a brincadeira e, junto com a amiga que vendia chocolate, se divertiam com as tiradas dos passageiros. De repente ele vira para nós e pergunta:

– O que vocês estão achando de viajar em um trem de subúrbio?

A pergunta nos pegou de surpresa. Ele queria a verdade, então fomos sinceros. Falamos que era muito interessante esse tipo de comércio, onde havia um número enorme de produtos sendo ofertados por um preço muito abaixo do mercado.

Dissemos que eles ofereciam coisas surreais, no qual não imaginávamos que teria saída, tais como: carregador de celular, luvas de cozinha, pilhas, agulha para desentupir fogão, sem contar balas, picolés e todo tipo de guloseimas. Estávamos enganados, sempre tinha alguém querendo algo, que jamais me passaria pela cabeça que iriam comprar. Era impressionante a agitação das idas e vindas de ambulantes e com a rapidez com que faziam negócios.

Continuamos observando os vendedores. Entravam homens e mulheres que iam atravessando o vagão com os braços levantados carregando os seus produtos. Outros levavam caixas abertas, penduradas com fitas no pescoço e com as ofertas à mostra. Esbarravam em um, acotovelavam outros, sem contar inúmeros pedidos de desculpa por pisar em alguém. Parecia um mercado persa sobre rodas.

Quando entrou um gordão com voz fanhosa todos ficaram preocupados, pois o indivíduo mal dava conta de passar entre as pessoas. Ele não se importou, esmagou-as contra parede, e continuou seguindo em frente enquanto puxava um saco enorme cheio de pipocas.

Novamente o nosso amigo nos questiona: – Como estávamos nos sentindo naquele ambiente?

Acredito que ele perguntou, ao perceber que os turistas olhavam admirados a excentricidade do local.  Todos estavam à vontade. Havia uma camaradagem no ar, um respeito pelas diferenças.

Falamos que entramos no clima, por que era tudo novidade, talvez para ambas as partes. Afirmamos que os ambulantes eram uns guerreiros lutando pela sobrevivência, e com uma forma inteligente de fazer comércio. Admirávamos a batalha deles pulando de vagão em vagão, de estação em estação, carregando pesos, suando e se espremendo entre os passageiros para ganhar o pão de cada dia. O rapaz pareceu satisfeito com as respostas. Sorriu se despedindo de todos e desceu na próxima parada.

Finalmente chegamos à Central. Mesmo cansados de termos voltado em pé, achamos a viagem muito impactante e divertida. No metrô de volta para casa relembramos a beleza que foi o jogo em Deodoro, lindíssimo. Porém o que mais nos marcou foi a viagem de trem, que nos fez enxergar um pouco mais da realidade da vida dos moradores dos subúrbios, suas dificuldades, improvisações e superações.

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 6 de setembro de 2016 por .
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