Vidas em contos

(por Rita Prates)

Traição anunciada

As filhas são fissuradas em cartomantes. Conhecem todas da região e, se for preciso, irão longe, só para colocarem cartas que as levem a sonhar com algo melhor para as suas vidas. Uma foi e voltou encantada. Estava em crise no casamento e a moça adivinhou o seu problema. Era só olhar para o seu semblante que qualquer um iria perceber que ela estava sofrendo. Era jovem e com a aliança nervosa rodando no dedo, fatalmente era por amor.

Voltou na casa da cartomante e levou a mãe, que ouviu incrédula revelações nada boas. As cartas diziam que ela passaria algumas dificuldades financeiras e que sofreria uma grande decepção amorosa. Nesses trinta e cinco anos de casada já havia passado por várias cenas de ciúmes por parte do marido. Ela também rodou a baiana diversas vezes, pois ele agia como um encantador de mulheres. Ultimamente a relação entre eles estava morna, quase choca, sem grandes emoções.

A irmã veio de longe se consultar, como estava sem carro, o pai se ofereceu para levá-la. Cedeu-lhe a primeira consulta, uma gentileza, já que ele estava também curioso para saber sobre o seu futuro. O tempo das cartas era de no máximo uma hora, mas já havia mais de duas horas que ele estava a consultar. Saiu risonho, esperançoso com as revelações de sucesso no novo negócio, e com os dotes de sabedoria da advinha.

O pai era assim, um vendedor de ilusões, talvez por isso tenha gostado tanto da cartomante. Era representante comercial, sabia vender bem o seu peixe, apesar de ultimamente não ter realizado boas pescarias para a empresa em que trabalhava.

Ele e a mãe faziam um par perfeito. Ele era alto, boa pinta, galanteador e sedutor. As mulheres se encantavam com os seus elogios e piscadelas irresistíveis. A esposa era muito bonita, sempre elegante no vestir e no falar.

Havia combinado com a mulher de hospedarem um final de semana em um hotel fazenda para verem o seu funcionamento, pois pretendiam abrir um negócio semelhante. De última hora ele resolveu ir sozinho visitar o hotel, contenção de despesas. Ela ficaria em casa e poderia pesquisar mais sobre os itens que comporiam o investimento.

No domingo ela ligou para ele diversas vezes. Só à tardinha ele retornou.  Falou que estava acompanhando o funcionamento do hotel e por isso estava ocupado. A noite ela foi rezar para a sua santa protetora, e jura, por todos os santos, que escutou uma voz que lhe disse que o seu marido estava com outra mulher no hotel.

Imediatamente ligou para a recepção do hotel. Boa de lábia, inventou uma desculpa para saber se ele estava no apartamento. – Sim, afirmaram, está com a esposa e sairão na segunda pela manhã.

Trêmula com a revelação, mal conseguiu ligar para o irmão pedindo ajuda, queria pegar o marido em flagrante. Ele não podia. Ligou para o seu amigo advogado. Ele lhe pediu que se acalmasse e deixasse para conversarem no escritório no outro dia.  Revoltada e indignada decidiu, mesmo sem apoio, que iria desmascará-lo. Ligou para um taxista e combinou a corrida para as quatro da manhã, pretendia chegar a tempo de pegá-lo quando fosse tomar café no hotel.

No táxi contou para o motorista todo o seu drama, chorou e foi consolada por ele. Ao chegarem ao hotel bem cedo, solicitou o quarto em que estava o marido, pois tinha indicação de que era o melhor. O recepcionista disse que estava ocupado, e lhe ofereceu o do lado, que era tão bom quanto o outro. Próxima à parede que dividia os quartos ficou assuntando o que se passava do outro lado.

Deram oito horas, nada, nove, nada. Às dez horas ligou para ele. Ouviu-o atender e falar que ainda estava no hotel, mas que já estava indo embora. Acompanhou ele entrar no banheiro, cantar uma música e pedir, por favor, para a acompanhante trazer a toalha. Lembrou-se que o marido, desde muitos anos, ao lhe pedir algo, não lhe falava a palavra mágica, por favor. Nesse momento a raiva aumentou, queria esganá-lo, pois foi delicado com a outra, e com ela os gestos de gentileza tinham se perdido nos trinta e cinco anos de casamento.

Nervosa com a situação abriu a porta do seu quarto para o ver quando saíssem. Andava de um lado para outro do corredor, com passos pesados e carregados de desgosto. Quando voltou para o quarto percebeu a porta ao lado se abrir, e o viu olhar de um lado para o outro do corredor, e tornar a fechá-la novamente.

Por fim ele saiu acompanhado de uma moça. Ela os viu de relance, mas quando eles estavam descendo a escada chamou-o pelo nome. Ele virou-se assustado e quando deu de cara com ela, falou quase gritando: – Benzinho, o que faz aqui?

Ela atravessou na frente da moça e o acusou de traidor. De dedo em riste, disse que ele não valia nada, era um verme fingido e hipócrita. Ele ainda assustado alegou que a culpa era dela, só dela. Irônico, falou que reconheceu o andar nervoso de sua esposa pelo corredor, mas achou que era alucinação. Jamais poderia imaginar tamanha ousadia de ela querer confrontá-lo.

Quando ela virou para ver a moça, ficou de queixo caído. A amante era a cartomante que havia colocado cartas para ela, para as filhas e o marido. A mulher não se abalou, virou-se para ele e disse que já o havia avisado que seriam pegos em flagrante. – Não te falei que isso iria acontecer! Eu previ e acertei. Disse entusiasmada, como se tivesse ganhado na loteria.

Traída e revoltada virou-se para o marido e falou que não desceria do salto, não perderia a classe, não armaria um barraco nem faria um escândalo. Com um sangue frio de cortar a carne, mandou-o pagar o taxista e a sua estadia no hotel. Afirmou, entre dentes, que não precisava voltar para casa, pois as suas roupas e tralhas estariam na porta.

Contou para o recepcionista, que estava pálido e incrédulo com a cena, que a esposa era ela, a outra era a amante de quinta categoria. Anotou o nome do rapaz e disse que ele seria sua testemunha junto com o motorista do taxi. Virou as costas e saiu andando firme no salto até entrar no carro, lá despencou. Foi direto para o escritório de o advogado pedir a separação.

– Depois da cena anunciada, ele se envolveu com diversas mulheres escrotas, ela conta debochando. Parece um pinto no lixo, cisca em várias direções, come tudo que aparece. Atualmente está com uma viúva rica que lhe dá mordomia. Dá graças por se livrar dele, não faz a menor falta.

Ela se diz aliviada de não tê-lo por perto. Estava a pouco com um amor virtual, perderam o sinal e se desconectaram. Passou a frequentar novamente o mundo das cartas. Acredita nas palavras de uma velha cartomante, que afirmou que em breve aparecera um rei de copas, e ele será o seu futuro companheiro, mas dessa vez, sem traição.

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Publicado em 30 de agosto de 2016 por .
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