Vidas em contos

(por Rita Prates)

De mãe para filhos

A amiga da minha mãe ficou viúva depois de dois anos de sofrimento com o marido doente. Os filhos alegavam que trabalhavam muito e mal apareciam para visitar o pai. Nos finais de semana em que poderiam dar um descanso para a mãe, alegavam cansaço, sem se importarem com ela e com as suas angustias.

Contar com eles era quase impossível. Tinham seus trabalhos e famílias. Nos momentos mais drásticos estavam ao seu lado. Passada algumas horas ficavam tensos, inquietos e procuravam sair de fininho, deixando-a com o cuidador.

A morte do marido causou-lhe tristeza, mas resignou-se rapidamente, pois ele sofreu muito e merecia descansar. Ela estava abatida, magra, frágil de corpo e de alma. Com o tempo foi se refazendo. O capeta passou-lhe a raspadeira e a fez mais forte e disposta.

Graças às amigas voltou a ter uma vida saudável, a fazer caminhadas, a ir ao teatro, cinema e ao clube. No próximo ano planejava um cruzeiro para o exterior.

Sentia saudades do marido, do companheirismo e do amor sereno entre eles. Ao fechar os olhos, recordava os momentos bons passados juntos, mas as lembranças não a impediu de continuar a viver. Agora tinha tempo para ela, não podia desperdiçar, pois sabia que a sua contagem era regressiva e, para tanto, usufrui-lo era necessário.

Estava fazendo as malas para ir à praia com as amigas, quando recebeu um telefonema do filho mais velho. Contou-lhe que ia se separar da esposa. Falou das brigas constantes, dos ciúmes, das traições e, por fim, pediu-lhe que deixasse uma cópia da chave da casa, para o caso de ter que passar uns tempos morando com ela.

Ao regressar de viagem, encontra o filho esperando-a na varanda. Contou-lhe todo o seu drama e pediu-lhe um pouso até arrumar uma nova moradia. Ocupou o quarto de solteiro, e, aos poucos, foi espalhando as suas coisas pela casa.

Quase todos os finais de semana os dois netos vinham ficar com eles. Com a mudança do pai, os meninos comportavam como se a casa fosse deles. Liberavam energia de adolescentes, que mais parecia um vulcão em erupção, lavas de roupas e brinquedos espalhados pelos cantos e uma agitação que fazia tudo tremer. Gostava mais da presença dos netos quando a visitavam. Eram sempre bem comportados.

Resolveu relaxar e foi passar uma semana fazendo meditação em um sítio. Precisava de calma para recuperar o equilíbrio. Ao voltar, mais uma surpresa na varanda de sua casa. Estava a filha e as duas netinhas esperando-a descer do carro. Vieram com mala e cuia. Pediu que a mãe as hospedasse até arrumar uma nova moradia, pois havia se separado do marido. Ocupou o quarto de solteira, colocou as meninas no seu atelier, e, aos poucos, foram espalhando as suas coisas pela casa.

A agitação foi geral, principalmente quando juntavam os quatro netos e amigos nos finais de semana. A paz foi para a “cucuia”. Nada mais de música para descontrair, nada mais de pinturas depois do almoço, nada mais de assistir novela sossegada e nem ler no final de tarde. Andava tensa e agitada com os sons altos e estridentes dos garotos. O que ainda a salvava eram as escapulidas para as casas das amigas para descansar dos barulhos e brigas das crianças.

Passou a ter obrigações solicitadas pela filha. Alegou que ela estava aposentada e disponível. Logo, deveria cuidar das netas. Tinha que levar e buscar as meninas no colégio e na natação. Como a faxineira não dava conta da casa e da roupa, ela tinha que ajudar nos afazeres cansativos do dia a dia.

Pensou que já havia ficado livre da rotina diária de dona de casa, porém voltou tudo à estaca zero. Corria de lá para cá cuidando da bagunça, dos filhos e agora dos netos. Andava muito deprimida com a situação em que se encontrava.

Deixou de participar com os amigos dos jogos, dos almoços e cinemas nos finais de semana. Tinha que ficar com as crianças, enquanto os pais descansavam das baladas e dos botecos. Acabaram os momentos de paz e de sombra fresca, agora só labuta e dores pelo corpo.

Ao ver um filme na televisão com as crianças, o enredo despertou a sua atenção. Era a história de alguns pais que se revoltaram contra a tirania dos filhos adolescentes. Formaram uma associação de pais explorados e se mudaram para lá. Queriam viver em paz, sem a pressão psicológica dos jovens rebeldes. Nesse momento ela percebeu com uma nitidez assustadora que os filhos não iriam mudar da sua casa. Eles não se importavam com a sua labuta, não valorizavam o seu esforço para ajudá-los e ignoravam o quanto estava cansada.

Imediatamente pegou o telefone, ligou para a administradora que alugava o seu apartamento para temporada. Pediu que lhe entregasse as chaves assim que o inquilino o desocupasse. Ao recebê-lo, reformou-o e o decorou ao seu gosto. Discretamente levava os seus pertences e comprou outros para a nova moradia.

Em uma bela e libertadora manhã de sábado quando os filhos acordaram e se depararam com um enorme cartaz afixado na porta da sala. Avisava-os que ela havia se mudado. Que o novo lar era um apartamento pequeno, onde só cabia uma pessoa, ela, somente ela. Deixava as chaves da casa para eles com tudo dentro, tipo porteira fechada. Não queria nada, apenas viver tranquila no seu cantinho. A reação dos filhos foi de revolta com a petulância da mãe em deixá-los sem eira nem beira.

– Como iam fazer sem ela? Perguntaram aflitos no telefone.

– O problema agora não lhe pertencia. Falou tranquila. Com o tempo vocês vão se ajeitar e se reorganizar.

Os filhos berraram, espernearam, acharam que ela era egoísta e sem coração. Por fim, depois de idas e vindas, aceitaram, pois sabiam que ela não iria voltar atrás.

Resistiu às chantagens da família. Tinha direito a aposentadoria integral e, definitivamente, só faria o que lhe desse prazer. De agora em diante seria visita, sem as obrigações do dia a dia. Sentia muito, mas a sua cota de sacrifício como mãe e avó se encerrou. Queria apenas envelhecer saudável e em paz.

Hoje ela dá conselhos às avós desesperadas. Fala que ao primeiro sinal de exploração fujam e recuperem a sua liberdade. Isso não quer dizer que não amem os netos. Os amam, mas também se amam o suficiente para estabelecer limites e obrigações.

Segundo a minha mãe, neto quando chora ou faz birra, você entrega imediatamente para os pais. Quando pedem colo, os afaguem com carinho. Quando os pais não estiverem por perto, faça todas as suas vontades. Porém quando cansar de ficar com eles, dê um beijo em cada um, pegue as suas chaves e volte feliz para a paz do seu lar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 26 de agosto de 2016 por .
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