Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sapo ou príncipe?

Ela sempre sonhou com um príncipe encantado, viver um grande amor como nos contos de fada, mas quis o destino que ela se casasse com o sapo. Ele não era uma pessoa ruim, pouco dado ao trabalho pesado, pouco gentil e muito devagar nas atitudes. Dois filhos lindos e trabalhadores vieram para alegrar a sua vida.

Filhos crescidos, casamento desfeito e a solidão chegando. Ainda se achava jovem e com libido à flor da pele, pronta para um novo amor. Sentia a adrenalina nas alturas quando era envolvida pelos braços do jovem ficante lhe fazendo carinhos. O sexo vibrante e intenso só parava no terceiro round sobre as marcas nos lençóis. Ele era quinze anos mais jovem, tinha energia pulsando nas veias. Sentia-se revigorada pelos prazeres ofertados, mas faltava algo de concreto que desse sustentação à relação.

Partiu para a procura, bares, clubes e amigos de amigos, mas não obteve sucesso. A saída, como disse uma amiga, é partir ou apelar para site de relacionamento. E foi o que fez. Nas salas de bate papo só encontrava chatos e sapos.  Estava desistindo da empreitada quando apareceu um suíço, sujeito educado que escrevia um português correto, sem gírias e sem cantadas ridículas. Passaram a conversar por Skype. Tornaram-se amigos e todos os dias se falavam, contavam suas alegrias e perrengues.

Passaram seis meses nesse vai e vem de conversas via satélite, quando ele lhe telefonou e disse que estava chegando para conhecê-la. Tudo bem, pensou, deve chegar mês que vem. Novo telefonema na hora do almoço. Estou na sua cidade e quero me encontrar com você. Taquicardia, pernas bambas e suor.

– Como assim? -Disse ela ofegante. – Será legal te conhecer pessoalmente, mas não estou em BH e sim em Ouro Preto.

-Ok, responde ele com voz sumida e desligou.

Novo telefonema. – Estou em Ouro Preto, onde te encontro?

Quase desmaia. Estou em um sítio, fala com voz tremula. Vou-me encontrar com você no hotel, aqui tem muita gente e ficará difícil conversarmos. Na verdade, não tinha como apresentá-lo aos amigos se nem ela o conhecia pessoalmente.

Nervosa, foi ao encontro ao amigo virtual. Lá estava ele sorridente vindo lhe cumprimentar. Um baita homem de um metro e oitenta de altura, olhos azuis e cabelos pretos com leves mechas brancas. Não era lindo, mas também não era feio, estava ao ponto, nem cru nem passado. Vê-lo ao vivo era bem diferente da tela do computador. Era mais encantador na fala e nas atitudes. Jantaram e conversaram muito. Às onze horas quis retornar ao sítio. Ele pediu para que ela passasse a noite com ele. Recusou, mal o conhecia e não queria arriscar. Com os seus vinte centímetros a menos seria difícil se defender, melhor seguir a intuição.

No outro dia tomaram café da manhã juntos, passearam pela cidade, visitaram museus e igrejas. Ele fotografava encantado cada detalhe, cada paisagem e cada sorriso dela. Ficaram à vontade na companhia um do outro e, à noite, o mesmo convite e a mesma desculpa. No dia seguinte foram para a capital, e ao anoitecer ele retornou para a Suíça, sem beijos, sem abraços e sem chamegos na cama.

– Você acha que esse cara vai te procurar outra vez? Nem morto! Falou seu irmão zombando dela. – Ele despenca da Europa para te ter aos seus braços e volta chupando o dedo. Você agiu como uma adolescente.

Passaram-se dois dias e lá está ele na internet agradecendo a acolhida, se dizendo feliz por tê-la conhecido pessoalmente. Três meses depois, ele retorna ao país querendo vê-la. Marcam de se encontrar no Rio, queria conhecer a cidade maravilhosa. Quando ele vai buscá-la no aeroporto estava acompanhado de um casal de jovens, seus filhos.

– Pronto! Pensa ela, agora vou ter que dormir com ele. Porém nova surpresa. Ele e o filho ficaram em um apartamento, ela e a jovem em outro. Ele não a deixou desembolsar um centavo sequer durante sua estadia. Ficaram em um hotel cinco estrelas com muito luxo e requinte.

Novo telefonema seis meses depois, voltaria ao Brasil, mas queria três coisas: um hotel a beira mar em um lugar sossegado, uma suíte com varanda com vista para o mar e o mais importante, ela dormir com ele. A amiga a ajudou a escolher três hotéis em Arraial d’Ajuda, também a orientou em como conviver com estrangeiro, pois já havia se casado com dois, sabia como eles tinham costumes diferentes e eram cheios de manias.

Não teve outra, ele escolheu o hotel mais caro e luxuoso. Ela se preparou para a lua de mel, fez um enxoval à altura do pretendente. Passearam durante o dia e a noite ele sugeriu que jantassem no hotel. No restaurante ela notou que só tinham eles, estavam cercados pelos garçons e por um repertório de músicas românticas. No quarto havia uma garrafa de champanhe aguardando-os com frutas e bombons. Na cama ele desempenhou bem o seu papel, nada de três rounds, sem muita variação, mas tinha entusiasmo.

No outro dia na piscina perguntou para o garçom porque o restaurante não tinha ninguém, só eles. A resposta foi direta, o suíço mandou reservar só para o casal. Ela mal pode acreditar. E assim passaram uma semana de lua de mel cercados de atenções e bajulações.

No dia que iriam embora, ele falou que tinha uma surpresa. Ela tremeu, pensou que seria pedida em casamento. Que nada! Contou que conseguiu mais uma semana no Brasil. Ela adorou. Porém tinha um detalhe, ele era um príncipe e ela era uma mera proletária, que trabalhava oito horas por dia e tinha contas a pagar. Os filhos se desdobraram em tocar a empresa na sua ausência, pois viram que a mãe finalmente tinha encontrado alguém à sua altura.

Depois desse longo encontro, mais teclados e mais meses online, até que ele a convidou para ir a Suíça passar o natal e o fim de ano juntos. Programaram que ela ficaria um mês por lá.

No aeroporto teve problemas com a fiscalização e se perdeu dele. Quando ele a localizou, teve vontade de gritar de alegria. Atencioso a conduziu até o carro. Pasme! Uma Mercedes reluzente.

– Esse homem é muito rico, não dê vexame. – Aconselhou à amiga quando ela estava embarcando. – Faça cara de paisagem quando você se deparar com algo muito diferente da nossa realidade. Finja que tudo é natural para você, que já está acostumada com todo esse glamour.

E assim ela fez com o carro, nunca havia entrado em um automóvel tão bonito e luxuoso. Quando o seu bumbum começou a esquentar entrou em pânico, mas acalmou ao olhar a neve lá fora, concluiu que a poltrona era aquecida. Fingindo naturalidade, pediu para que ele diminuísse a temperatura da cadeira. Deu um sorriso de leve, tentando descontrair com tanta novidade.

Ao chegarem ao apartamento ficou deslumbrada, uma cobertura cercada de varandas que dava para um rio. A decoração era impecável, com muito requinte e bom gosto. Ela nunca imaginou que ele tivesse uma condição financeira tão alta. Ele a levou em um quarto e lhe mostrou um armário onde poderia guardar as suas coisas. Foi tomar banho e ao chegar à sala de jantar encontrou-a a luz de velas e tochas iluminando as varandas. Na mesa um belo jantar em louças finas e diversos talheres que poderiam deixa-la embaraçada. Ela agradeceu aos céus a sua mãe tê-la obrigado a fazer um curso de etiqueta.

Não acreditava no que via, parecia que estava em um filme no papel de Cinderela. Ele se desdobrava para agradá-la. Em uma loja do shopping mandou que escolhesse casacos e botas para o frio. Comprou dois casacos e duas botas. Ele vendo que ela havia escolhido botas baratas, obrigou-a a trocar por umas mais caras e mais confortáveis. – Agora, pensou sorrindo, parece que estou no filme “Uma linda mulher”. Ele não era o Richard Gere, mas estava feliz com o cover.

Certo dia ele pediu que ela fizesse uma pequena mala para viajarem três dias, não disse para onde iam, mas deu a ela a opção de escolher avião ou trem. Preferiu trem para poder apreciar a paisagem. Viajaram no trem bala, nada de vistas, mas quando desembarcou estavam em Paris.

A escadaria com tapete vermelho do hotel e a suíte a deixaram deslumbrada. Estava vivendo um conto de fadas, era muita emoção para os seus cinquenta anos. Ficou encantada com as praças, ruas, restaurantes e shows. Estava tão anestesiada, que se a beliscasse, não sentiria.

Ele teve que viajar. Deixou sobre a mesa da sala um celular cujo número caia direto no dele, um computador e um telefone fixo para ela ligar para a família no Brasil. Quando ele viajou, ela lembrou-se novamente da amiga. – Não abra nenhuma gaveta ou armário, não mexa em nada, pois deve ter câmara pela casa toda. Esses gringos ficam testando a gente o tempo todo. Percebeu que ele muitas vezes deixava notas de euros em cima da mesa da sala e nos hotéis. – Claro! Pensou. Era para me testa-la. Afinal brasileira tem péssima fama no exterior.

Na véspera do natal ele falou que iriam viajar. Foram por uma bela estrada íngreme seguindo a montanha. Por fim pararam em um local plano, onde entraram em uma espécie de gaiola sobre trilhos rumo ao pico da montanha. Quando saíram do carrinho, deparou com uma linda casa toda iluminada com enfeites de natal. Foram recebidos pelos pais dele e familiares. Todos procuravam deixa-la à vontade. Sentiu-se literalmente nas nuvens, acreditando até em Papai Noel.

Ficaram quinze dias na casa da montanha. Apesar de aquecida, fazia muito frio. Teve medo de esquiar, de quebrar as pernas e de se machucar, pois quando voltasse para casa a realidade seria outra, teria que trabalhar pesado e precisava estar em forma. Para amenizar a friagem, ele a levava para os restaurantes mais aquecidos e com bebidas quentes.

Dias antes de voltar, ele a convidou para jantar fora. Saíram, e quando já tinham andado uns quinze minutos, ela disse que havia esquecido o passaporte em casa. Ficou com medo da reação dele. Lembrou-se do ex-marido que gritava e a xingava quando ela esquecia algo. Qual nada, ele a olhou, deu meia volta e falou para que ela não se preocupasse, que voltariam para pegar o documento. Então ele a levou para jantar na Alemanha em um restaurante badalado.

O que mais a deixou encantada não foi o restaurante e nem o passeio, mas sim o fato dele não ter feito nenhuma grosseria por ela ter esquecido o passaporte. Percebeu, com isso, o quanto estava traumatizada com as agressões verbais do ex-marido.

Depois de um mês de contos de fada voltou ao Brasil. Já se passaram dez anos desde que se conheceram. Ele vem algumas vezes visita-la e ela vai à Suíça para vê-lo. Como ele trabalha e viaja muito a negócios, ela aguarda que ele se aposente e decidam sobre as suas vidas.

Está ansiosa. Ele a quer ao seu lado. Insiste para que ela não tenha medo e se mude para lá. Ela sabe que os costumes são muito diferentes e terá que se adaptar. Tem um casal de filhos e amigos no Brasil. – Talvez o melhor, disse ela, será eu ficar três meses lá e outros três aqui.

Esse conto de mil e uma noites foi contado em uma mesa de bar. A Cinderela não bebeu, logo não estava alcoolizada e também não foi desmentida pela prima. Não sei se as duas tinham uma mentalidade muito fértil ou se eu sou incrédula. Se as fadas existem, então porque não acreditar em príncipes encantados que abandonam o cavalo branco e vem em sites de relacionamento? Aviso às sonhadoras que fiquem espertas, pois a maioria desses pseudo-príncipes pode se transformar em bicho-papão, e fazer um estrago nos corações solitários e carente das mulheres.

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Publicado em 23 de agosto de 2016 por .
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