Vidas em contos

(por Rita Prates)

O táxi do amor

Estavam todas no taxi, as cinco mulheres na melhor idade. Riam fogosas e despreocupadas. Contavam piadas, falavam dos conhecidos ora bem ora mal, e assim iam fofocando para passar o tempo da viagem. Era alegria pura, pois sabiam que iriam dançar muito, namorar bastante e se divertir a valer. Quase todos os sábados eram reservados a um passeio ao paraíso, onde se entregavam aos prazeres do corpo e da alma.

O motorista do taxi as conhecia a anos, gostava do tititi e da alegria das mulheres. Sempre as pegava aos sábados por volta das vinte horas. Elas vinham vestidas com roupas de festa, algumas com brilhos e outras com decotes atrevidos. Os cabelos estavam sempre escovados, as faces levemente maquiadas, porém o batom vermelho predominava. Era agradável sentir os cheiros dos perfumes de flores e de sonhos invadindo o carro.

O taxi deveria ter um nome no painel: “taxi do amor”.  Sim, o motorista era encarregado de levar aquelas senhoras ao encontro de seus namorados. Na cidade onde viviam não havia homens a altura delas. Eles eram tímidos, desajeitados e sem atrativos, mas na cidade próxima havia homens disponíveis, cavaleiros e ótimos companheiros de dança e de afagos, afirmavam enfáticas.

Tudo começou quando elas foram a uma festa nesta cidade e descobriram que ali era o paraíso, isso mesmo. Havia naquele lugar homens que não se importavam com a idade das mulheres, com os quilos a mais e com as marcas do tempo em seus rostos. Eles eram gentis, daqueles que abriam a porta do carro, puxavam a cadeira para as damas sentarem, eram divertidos e bons de conversa.

Somando todas essas qualidades masculinas, tão fora de moda nos dias atuais, estes homens as deixavam enamoradas com o vigor e o calor de seus abraços, com o roçar de pernas quando dançavam forro e com a pegada forte quando as conduziam nas danças, fazendo-as rodopiar na pista com segurança e leveza.

A alegria contagiante daquelas noites de sábado fazia com que elas esquecessem os problemas, e pelas curvas da estrada largavam para trás as separações sofridas, os abandonos, as humilhações, as obrigações penosas de dona de casa e de mães zelosas. Deixavam adormecidas as dores nas costas, nas juntas e nos corações, e, como em um passo de mágica se tornavam saudáveis, saltitantes e muito, muito alegres e felizes.

Todas as cinco mulheres encontraram um companheiro para amar, para fazerem sexo gostoso, para conversarem sem ter que pisar em ovos, e para bailar a noite inteira.  Elas se entregam sem culpa, sem cobrança, pois só querem se sentir desejadas, amadas, nem que seja só aos sábados.

O forro corre solto a noite toda no clube. Pelas pistas casais agarradinhos dançam coxa com coxa, muitas bocas se encontram, suores se confundem em corpo encaixados, desejosos e vibrantes. Nas mesas um burburinho de vozes, de copos brindando, de risadas soltas a cada caso contado.

Elas retornam no mesmo taxi. Voltam para as suas casas exaustas, pés inchados de tanto rodopiar pelo salão, roupas em desalinho e cabeças em alvoroço. Falam sem parar, querem comentar sobre tudo e sobre todos. Por fim fecham os olhos e relembram cada momento, cada palavra dita e ouvida, cada encontro e desencontro. Vencidas pelo cansaço dormem recostadas umas nas outras. Quando chegam despedem sorrindo, estão leves e felizes, e antes de entrarem em casa confirmam as suas presenças com o taxi do amor para o próximo sábado.

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Publicado em 19 de agosto de 2016 por e marcado , , , .
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