Vidas em contos

(por Rita Prates)

Envelhecer – fazer o que?

A CEGA

Ela foi perdendo a vista aos poucos, sombras foram surgindo ao raiar do sol, se acomodando à tarde até permanecer ao anoitecer. A televisão apenas escutava, nada via, identificava somente o contorno dos rostos dos amigos e dos filhos, abandonou o espelho que se negava a refletir a sua imagem. Como via pouco, passou também a falar pouco, foi entristecendo com a penumbra que invadia a sua visão e descoloria a sua vida.

Quando o médico a examinou, percebeu que o problema não era psicológico ou de qualquer outro órgão desgastado pelo tempo. Viu o que ela não via, estavam seus olhos embaçados pela catarata, presos em uma cortina que nunca se abria, como um nevoeiro sem fim.

Após a cirurgia ela voltou a ver com nitidez o mundo a sua volta. Ao chegar a sua residência ficou calada, assuntando tudo e todos. Depois passeou pela casa, cômodo por cômodo, certificando-se que nada mudou, por fim seguiu até o jardim e ficou contemplando as roseiras que havia plantado quando ainda podia distinguir os formatos e as cores, estavam belas e cheirosas.

A filha sentou-se ao seu lado na poltrona da sala e perguntou-lhe como se sentia. – Triste, respondeu. Parece que os anos passaram e que eu não percebi, a culpa é da cegueira que não me deixou ver as mudanças ao meu redor. Olhe para os meus braços, a pele está fininha e coberta de manchas. Quase cai para trás ao me olhar no espelho, estou feia, enrugada e envelhecida.

– Que sina a minha! Disse entre suspiros. Preciso fazer alguma coisa para esconder essas pelancas. – Não ria, você e o seu irmão também estão bem acabados.

– Credo! O que o tempo faz com a gente, às vezes é melhor vivermos nas sombras, falou em tom jocoso.

Surpreendeu a todos a reação da mãe, ela não se reconheceu, detestou descobrir que o tempo produziu desgastes, principalmente nas suas faces, denunciando a verdadeira idade. Acreditavam que ela ficaria mais feliz enxergando com mais nitidez. – Gostei, afirma segurando as mãos dos filhos. Estou mais independente, mais livre, porém assustada com a velhice, com o tempo tão curto pela frente. É difícil ver com nitidez que a morte se aproxima com uma rapidez desconcertante.

O PESCADOR

História de pescador é sempre surreal, principalmente quando é contada por um homem mais velho e criativo por natureza. Em meio de tantos causos, um me chamou a atenção. Disse ele que foi chamado para participar de grupo de pesca, gostou muito do pessoal, mas que teve que abandona-los por um motivo muito sério.

Na primeira vez que foi pescar com o grupo, antes de saírem de barco para o rio, o guia pediu para rezarem um pai nosso e pedir proteção a nossa senhora para terem uma boa pescaria. Terminada a oração agradeceu a presença de todos, e aproveitou para fazer uma homenagem a um pescador que fazia parte do grupo, mas havia falecido naquele ano. Todos brindaram o defunto.

A turma era ótima, pescaram alguns peixes e beberam todas. Tudo correu às mil maravilhas, despediram-se já agendando para o próximo ano uma nova pescaria.

Na segunda vez que foi pescar com o grupo, o ritual foi o mesmo antes de saírem de barco, teve rezas e pedidos de proteção, porém o guia solicitou que todos fizessem uma prece em memória de outro pescador do grupo que havia falecido no transcorrer daquele ano. Todos brindaram o defunto. Ele ficou ressabiado, mas acabou se divertindo com a turma e aproveitou ao máximo a pescaria.

No ano seguinte, ao rezarem por proteção e fartura na pescaria, ficou de ouvido em pé aguardando se o guia falaria sobre mais um falecido no ano. Dito e feito, ele olhou entristecido para os companheiros, e pediu uma oração para o amigo mais arruaceiro da turma, que se foi de forma inesperada um mês antes da pescaria. O clima foi de tristeza, mas todos brindaram o defunto. A pescaria rendeu bons peixes e lembraram os momentos divertidos com os colegas falecidos.

Quando marcaram um novo encontro para o próximo ano, ele se negou a ir, disse rindo e batendo com força o copo de cerveja na mesa. – Eu adoro pescar, então sabe o que fiz, falou tomando um gole da bebida.  Procurei outro grupo mais jovem de pescadores, que ainda não tivesse lista de óbitos. Apesar dos meus setenta e cinco anos estou saudável e disposto. Desejo ainda fazer umas dez pescarias, vivinho, vivinho, e, definitivamente, não quero correr o risco de fazer parte da lista dos defuntos homenageados.

A AVÓ

A avó de uma conhecida está quase na casa dos noventa anos e namora um senhor uns dez anos mais novo. Ela nunca falou a sua idade para ele, assunto proibido. Alegre e extrovertida participa de bailes e de aulas de dança quase todas as noites. Tem fôlego para viajar com o parceiro e o envolve com abraços e beijos, sem se importar com os olhares e comentários.

Conta o neto, que uma noite foi à casa da avó entregar uns convites para um show e, quando estacionou o carro na garagem a encontro aos beijos com o namorado. Quem ficou sem rosca foi o rapaz, ela, na dela, se recompôs e agradeceu os convites. Deu-lhe dois beijinhos e subiu com o namorado para o seu apartamento.

Ele achou o máximo, relata para os amigos a cena que viu. Diz que fica encantado como a avó encara a velhice, como ela sabe aproveitar cada momento de sua vida. Fala com orgulho da admiração que sente por ela, e de sua energia e entusiasmo. Para a família ela é o símbolo da vitalidade e de alegria de viver.

TRANSFORMAÇÃO

Uma amiga me contou que a sua mãe, que está na faixa dos oitenta anos, andava triste e deprimida. A irmã viúva que também se sentia infeliz, resolveu dar um basta no sofrimento de ambas. Matriculou-se junto com a mãe na aula de pilates e em um curso para a terceira idade. Em menos de dois meses viu uma transformação surpreendente nas duas.  

Contou que na ultima sexta-feira, ao chegar a casa por volta das nove horas da noite, encontrou a mãe vestida com um conjunto azul, que a anos estava abandonado no armário, e nos lábios um batom rosa iluminando-lhe a face.

Perguntou-lhe se ela estava chegando da igreja. – Que nada! Respondeu-lhe. – Estou saindo para uma festa com a sua irmã e as minhas novas amigas do curso. Deu adeus à filha e voltou alegre e falante uma e meia da manhã.

ENVELHECER

Realmente, envelhecer não é nenhuma maravilha, chegam os anos e as dores veem junto atacando as juntas, as vistas cansam, a memória se torna preguiçosa, um peso escora pressionando as costas e travando as pernas, sem contar as rugas e a beleza que se evapora.

A velhice corroer por dentro e por fora, é uma merda, segundo alguns depoimentos de artistas. Para outros que se dizem entendidos no assunto, é o amadurecimento, é poder dizer e fazer o que quer e o que pensa.

Maite Proença deu uma entrevista sobre a neura das pessoas em relação a envelhecimento. Fez uma analogia, na qual afirma que o queijo Gorgonzola para estar no sabor adequado para ser apreciado, passa por processos de deterioração, e o mesmo ocorre com a mulher, que com os anos se torna uma iguaria rara para paladares sofisticados.

Existe uma pressão psicológica e física em relação ao envelhecimento. Publicam frases de efeito e milhares de artigos que falam sobre a velhice, dando dicas da melhor forma de encará-la e aceita-la. Procuram amenizar e dar certo acalento a uma situação visível a olho nu.

Nos últimos anos percebo o surgimento de pessoas mais velhas nas academias, nas caminhadas, nos clubes e em viagens. Parece que despertaram para a vida, que estão procurando envelhecer com mais qualidade e usufruir com prazer as delícias do dia a dia. Alguns, mais ousados, rompem suas próprias barreiras e experimentam o desconhecido, o desejado, acreditam que vale a pena realiza os seus sonhos e aproveitar ao máximo o tempo que tem pela frente.

 

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Publicado em 16 de agosto de 2016 por e marcado , , , , .
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