Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas Parte 6 – Aline

Muitas aqui não me conhecem, me chamo Aline, mas gosto que me tratem por Lili. O que vou contar para vocês pode deixá-las chocadas, mas talvez encontre aqui ajuda que me leve a entender sobre os meus devaneios.

Sou de uma família humilde que morava na periferia. Tenho seis irmãos e com muita dificuldade estudei e me formei em contabilidade em uma boa universidade. Sempre fui muito desinibida e gostava de me divertir. Na faculdade, comecei a namorar vários rapazes e dentre eles o meu ex-marido. Nessa época, percebi que não só os homens me olhavam com desejo, mas também as mulheres. Uma amiga começou a me assediar, eu gostava de homens, mas a curiosidade do desconhecido me levou a ter um caso com ela.

Achei bom, gostei, porém nessa época tive vários dissabores em relação ao amor. Conheci homens que me encheram de ilusão e mulheres que machucaram o meu coração. Acumulei amarguras, fiquei fragilizada e decepcionada em relação ao futuro. Meu comportamento mudou, passei a tratar os homens como objetos e com as mulheres fazia o jogo da sedução.

Casei com um engenheiro e tive dois filhos, mas continuava me sentindo sexualmente insatisfeita. Durante os vinte e poucos anos de casada, traia o meu marido com homens e mulheres. Com o tempo passei a me relacionar mais com mulheres.

O meu marido sempre desconfiou, mas como eu era uma ótima esposa, tanto na cama como para a sociedade, ele fingia que não via, principalmente porque sabia que não corria risco de eu o deixar por uma mulher.

Ledo engano, uma me tirou do sério e me arrastou para os seus braços, para a sua casa e me fez sentir amada e protegida. Consegui convencer os meus filhos que a minha felicidade estava acima de todos os preconceitos, eles sabiam e sentiam que eu não era feliz com o pai deles. Sofremos juntos quando falei da minha decisão de separar e de ir morar com uma mulher. Não foi fácil, depois de muitos choros e reflexões sobre amor, felicidade e descriminações, me apoiaram.

Alguns dos meus irmãos me condenaram, não levaram em conta que durante todos esses anos eu os amparava financeiramente e espiritualmente. Conhecidos se acharam no direito de me julgar, de me taxarem de leviana, depravada, mas ergo a cabeça e sigo em frente.

Continuo a trabalhar com o meu ex-marido na empresa onde somos sócios. Por incrível que pareça ele ficou do meu lado, mesmo mudo e angustiado não me atirou pedras, ao contrário, agiu com correção na separação dos bens, e hoje continuamos, como sempre, bons amigos.

Quando casados sempre nos demos bem. Eu o enchia de mimos, mas na cama ele desempenhava mal o seu papel, parecia distante, sem grandes entusiasmos. Esforçava-me para agradá-lo, afinal ele era o pai dos meus filhos, um homem de bom coração que me aceitou sem restrições. Quanto às diversões, ele também não gostava de sair, de dançar, ir a um cinema ou viajar. O seu prazer era trabalhar, trabalhar e trabalhar, e quando chegava em casa ia direto para o sofá da sala e dormia assistindo televisão. Perdemos a intimidade e passamos a ter uma amizade quase fraternal.

Com a minha companheira encontrei o prazer, o entusiasmo para a vida, o desejo de romper barreiras e de ser cada dia mais feliz.

Hoje me dedico como voluntária em um hospital, onde procuro ajudar as pessoas doando palavras, carinho e conforto. Ajudo me ajudando, pretendo nesses encontros entender mais de mim e das pessoas ao meu redor. Sei que é difícil para alguns compreenderem o que fiz. Acredito que esses encontros irão me ajudar a acalentar o meu coração e me fortalecer para superar os preconceitos e os desafios que terei pela vida.

Laura sorri timidamente e pede a palavra.

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Publicado em 12 de agosto de 2016 por e marcado .
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