Vidas em contos

(por Rita Prates)

A mala e os sonhos

Fiz a mala cheia de sonhos, de um novo recomeço, de me mudar para a casa do meu amado e ser feliz.  Realizei partes, fui feliz por um tempo, depois tive que refazer a mala, agora vazia de paixão, pesada de angustia, mas era preciso partir e tomar um novo rumo.

Fiz a mala cheia de coisas de criança, de sonhos de vestir as roupinhas no meu bebê que carregava no ventre.  Voltei com a mala vazia, mas nos braços carregava o fruto do meu querer, o meu reencontrar como mulher e agora mãe.

Fiz as malas para viajar pelo mundo, para conhecer outros povos, para aprender sobre a vida. Fiz e a desfiz várias vezes, fui e voltei.  Ampliei a minha mente vendo belezas, povos e culturas diferentes. Aprendi, ensinei, desbravei, e sempre deixo a mala de prontidão, me aguardando, segue sempre comigo, como uma ótima companheira de viagem.

Fiz a mala para te ver, para te olhar nos olhos e te amar. Fiz para tê-lo comigo, para seguirmos juntos e juntos regressarmos, sem data, sem destino, sem cobrança e sem adeus.

Fiz a mala cheia de medo, cheia de dúvidas do amanhã, com receio de te perder no caminho, na escuridão. A tua cura seria a nossa retomada de vida, a sua morte as recordações contidas na mala.

Fiz a mala carregada de conhecimentos, de desafios, de um novo amanhã. Nela continha desejos, sonhos de conquistas e vitórias. Pesava o saber, doía na alça o fazer, da profissão o futuro a me esperar.

Fiz a mala cheia de lembranças, e de risos familiares. Foi-se, perdeu-se no fundo da terra, no fundo da alma, na despedida, no adeus, no nunca voltar. Só lembranças sentidas, amadas. Porém nos retratos a família que se vai, que segue com a sua mala um caminho de volta, sem regresso.

Fiz a mala, ela vai e volta sempre atenta aguardando ser recheada de folders, de mapas e de revistas. Segue sempre disposta, ao meu lado, levando os meus sonhos, meus desejos mais íntimos, minhas realizações.

Por fim, minha mala esbarra em tantas outras malas. Umas carregam restos de sonhos perdidos, incompreendidos, irrealizáveis, desfeitas em dor, trôpegas de cansaço. Outras pesam as conquistas, transbordam de confiança e seguem perseverantes de encontro aos seus sonhos.

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 9 de agosto de 2016 por .
%d blogueiros gostam disto: