Vidas em contos

(por Rita Prates)

O capeta e a raspadeira

Fui surpreendida com a notícia da morte de um amigo de longas datas. Ele morava duas casas abaixo da minha. Conhecíamos a mais de quarenta anos, desde que mudei para o bairro. Tínhamos uma vida social intensa, frequentávamos o mesmo clube, viajávamos muitas vezes juntos com as crianças e, sempre que possível, nos encontrávamos para tomar umas cervejas e jogar conversa fora.

A notícia da morte dele nos pegou de surpresa, enfarto fulminante, estava assistindo televisão e de repente tombou no sofá. Ele era assim, tinha atitudes inesperadas, repentinas, abrutalhadas segundo a sua mulher, e assim foi com a morte, não se despediu de ninguém, agiu como sempre fazia nas festas, saiu à francesa.

Quando cheguei ao velório fui direto vê-lo no caixão. Estava vestido com o uniforme da corporação e flores amarelas circulavam todo o seu corpo. Fiz uma oração e lágrimas escorreram sobre a minha face, mas algo me chamou a atenção e de todos que se aproximavam para lhe dar o último adeus, sobre os olhos fechados havia um óculos de grau.

Quando me afastei do caixão vi a viúva vindo em minha direção, ela puxou-me pelo braço e falou ao meu ouvido. – Aposto que está estranhando o óculos, mas foi pedido dele, disse com um ligeiro sorriso nos lábios, – o safado sempre falava que ao ser enterrado gostaria de estar usando óculos para ver debaixo da terra a mulherada bonita, sem eles não enxergaria um palmo do nariz.  Então amiga, acatei o seu pedido, espero que se divirta por lá e não venha me cobrar o prometido.

Não pude deixar de rir da situação, pois nunca tinha visto um defunto usando óculos com o intuito de paquerar debaixo da terra. Ela saiu tranquila, sem derramar uma lágrima sequer, parecia quase festiva ao receber dos amigos as condolências.  Eu, que antes chorava e rezava pela morte do amigo, aparentava ser a viúva, debochou uma conhecida diante da minha cara de pasma.

Um mês após o enterro do marido ela foi me visitar. Cabelos avermelhados, maquiada em plena luz do dia e sobre o corpo um vestido justo e decotado. Ela era outra pessoa, havia rejuvenescido uns dez anos, e como a minha mãe falava, o capeta passou a raspadeira nela e a transformou, tirou o lodo, as inhacas e as amarras.

O capeta adora viúvas mal amadas, sofridas e submissas, dizia ela debochada. – Ele vem com a sua raspadeira e dá um trato na mulher, raspa as tristezas, retira as raivas, limpa as mágoas e a deixa renovada para começar uma nova vida.

Vendo-a tão transformada como naqueles programas de TV, onde a mulher entra um tribufu e sai uma modelo, não resisti e comentei com ela que, se o marido a visse assim: bela, leve e solta voltaria para abraça-la. Ela deu um grito e falou: – Deus que me livre, ele que fique vendo suas belezuras debaixo da terra, não quero encosto do meu lado.

Razão havia de sobra, o marido sempre fora infiel, indiferente, mal a tocava e, segundo contou-me, quando tranzavam ele nem tirava a camisa, era mecânico, sem beijos, abraços ou carinho.

– Também pudera, ele tinha uma amante desde que casamos, falou puxando a cadeira para eu sentar e não cair estatelada no chão.

– O que? Tá falando sério? Perguntei abismada.

– Verdade, disse sorrindo sem o menor constrangimento. Engoli a traição por todos esses anos, e quando a mulher morreu no ano passado ele virou outro, ficou triste, andava calado pelos cantos.

– É mesmo! Nos últimos tempos eu o via barbudo, cabelo despenteado e abatido. Então era isso? Perguntei-lhe.

– Ele sempre nos traia com várias, mas admito, ele a amava de verdade. – Não ria, falou-me batendo levemente no meu braço.  Nós fomos traídas várias vezes, não sei como ela agia, mas eu fingia que não me importava. Como fazer alguma coisa se eu tinha duas filhas para criar e proibida de trabalhar. Quando toquei no assunto de separação, o Coronel falou que me tiraria às crianças e me jogaria na rua. Eu não via alternativa a não ser aguentar calada, pois ele tinha patente e usava armas em casa. Eu sentia medo do que poderia me acontecer e com os meus filhos se me rebelasse.

– Cá entre nós, disse rindo da minha cara de espanto. Acho que na verdade ele pediu os óculos para procurar a amante, morreu de paixão. Quanto a mim amiga, não estou nem ai, pois ele foi tarde, mas pelo menos me deixou uma gorda pensão e alguns anos pela frente para viver de verdade. Não sinto o menor remorso de falar assim, passei a vida toda o servindo, agora vou aproveitar, não se aperrei, pois saberei usufruir cada momento prazerosamente. Deu-me um beijo no rosto e saiu porta a fora leve e desimpedida.

O mesmo aconteceu com a mãe de uma amiga italiana. Quando o crápula do marido morreu, o capeta também passou a raspadeira nela, se fez bonita e recuperou a alta estima, apesar de mais de sessenta anos sentiu-se liberta e revigorada. Durante alguns anos ela aproveitou intensamente a vida, não queria desperdiçar a oportunidade de fazer o que bem quisesse, de poder voltar a sorrir e amar.

A filha me contou que a mãe torrou o dinheiro do falecido com viagens e com o gentil namorado.  O amoroso companheiro era mais novo do que ela, o que a fez parecer mais disposta e feliz. A família a apoiou, pois todos sofreram na pele o mau humor do pai e vivenciaram os anos de dedicação e submissão da mãe ao amargo marido. A mãe ao morrer disse-lhe que os últimos dez anos formam os mais divertidos e felizes de toda a sua vida. Valeu o trabalho do capeta com a sua raspadeira, pensei sorrindo.

 

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Publicado em 5 de agosto de 2016 por .
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