Vidas em contos

(por Rita Prates)

Par perfeito existe?

Nos sites de relacionamento se vê de tudo, a maioria das pessoas se cadastra para zoar, para curtir com a cara dos outros, para sair um pouco da monotonia dos pseudos casamentos, para arrumarem mulheres ou homens para se divertirem. Existe uma porcentagem pequena que dão sorte, encontram parceiros legais, que estão a fim de conhecer pessoas bacanas e que acabam se dando bem e até casando. Conheço alguns casos de final feliz, raros, mas garimpando com persistência acaba achando o seu par, alguém que realmente está a fim de ter um companheiro ao seu lado.

Ouço sempre muitas histórias de pessoas que participam desses sites de relacionamento e os casos são ótimos. Conheci uma moça, através de uma amiga, que curte esse tipo de paquera. Ela é uma mulher bonita, alegre e de um sorriso encantador. Sente-se a vontade em contar os seus casos de conquista via sites de paquera. Sair com ela é para se divertir, dar boas gargalhadas e colocar a imaginação para fluir.

Foi casada por quase trinta anos, queria festejar as três décadas juntos. Desejava fazer uma festa bonita, com muito requinte, regada de champanhe e muita diversão, mas o marido pisou na bola, deu um drible e saiu da relação deixando-a em estado de profunda angustia e decepção.  Precisou de muita terapia e conforto espiritual para se recompor e encarar a separação de frente. Com o tempo percebeu que deveria seguir adiante e encontrar um novo companheiro, mas não seria fácil, pois os homens mais velhos não estão tão disponíveis e os que sobraram estão à procura de mulheres mais jovens para se gabarem.

Deram-lhe a dica para se cadastrar em sites de relacionamento, mas deveria ter cuidado, lá poderia até encontrar homens interessantes, mas a maioria quer curtir, transar e sumir sem assumir compromisso. Curiosa, sem alternativas mais palpáveis, resolveu se inscrever em alguns desses sites e navegar até encontrar um porto seguro.

Na mesa do bar foi nos contando sobre as novas conquistas. Leve, sorridente e debochada descrevia cada troca de mensagens, cada encontro, cada ficada. De todos os pretendentes vistos na telinha do celular, oito se destacaram pelos fatos hilários que ela fazia questão de relatar nos mínimos detalhes, levando-nos a dar boas gargalhadas. Contou-nos do bonitão do Rio, realmente o cara era bacana, foto tirada na praia, corpaço sarado, sunga branca deixando à vista os seus predicados e um sorriso sedutor de arrasar corações.

Trocaram mensagens por vários meses, ele sempre pomposo se gabava de sua posição social, enviava fotos em que participava de festas badaladas com gente famosa da mídia.

Como ela foi orientada para ficar alerta, procurou saber mais sobre o cara, logo descobriu que o indivíduo tinha nomes diferentes na internet. Quando lhe perguntou sobre as suas diversas identidades, ele ficou uma fúria, falou que ela o havia confundido com o seu irmão gêmeo e, com raiva, sumiu por uns meses.

Ainda seduzida e vendo a badalação dele no Face procurou-o novamente, e ele, como um bom carioca, perdoou-a pelo deslize. Conversa vai, conversa vem, o moço a convidou para passarem um final de semana juntos em Ipanema. Alegre e ansiosa comprou roupas sensuais para conquistar o velho menino do Rio.

Chegando ao hotel cadê o cara? Telefonou, mandou mensagens, fez sinais com fumaça e nada, simplesmente ele sumiu, evaporou, desconectou, escafedeu e nunca mais apareceu. Mesmo sem rosca, ainda teve jogo de cintura e, para não perder o rebolado, foi assistir a um ensaio de escola de samba com um grupo de turistas, onde se esbaldou a noite inteira sambando sem parar.

– Esse caso vocês vão dobrar de rir, o moço é do sul, escritor de livros de autoajuda, adora escrever frases de efeito e se diz um intelectual – conta ela com um sorriso maroto nos lábios. Trocavam mensagens quase que diariamente, o moço mandava poemas, vídeos e a encantava dizendo-se apaixonado. O escritor romântico veio conhecê-la e também vender os seus livros. Quando ela foi se encontrar com ele no hotel ele a olhou de cima a baixo, e com a maior cara de pau, disse-lhe que ela não era a mesma mulher que ele havia imaginado e desejado ardentemente. Surpresa com a recepção e indignada, deu meia volta e foi para casa.

Ele se arrependeu com o que falou, telefonou-lhe pedindo desculpas. Ela relevou o fora, e como uma boa anfitriã o levou para conhecer a cidade. Para encerrar a noite foram a um restaurante típico mineiro, durante o jantar eles conversavam descontraídos quando ela discordou da ideia dele sobre um determinado assunto. O moço não tolerou tamanha insolência, levantou-se da mesa e simplesmente foi embora, deixando-a boca aberta sozinha no restaurante.

No outro dia, novas desculpas e tudo bem, perdoado. Passaram a tarde visitando livrarias e representantes, afinal ele precisava divulgar os seus livros e reduzir o estoque empoeirado em suas prateleiras. A noite ele liga para ela do hotel dizendo que estava indisposto e pediu-lhe que trouxesse chá e o fizesse para ele. Ela prontamente levou todo o aparato para o apartamento do moço, preparou chá com torradas e ficaram conversando banalidades. Ela procurava evitar se posicionar em determinados assuntos para não aborrecê-lo, sentia-se pisando em ovos. De repente falou algo que não o agradou. Pronto! Todo cuidado foi em vão, espalhados pelo chão estavam cascas de ovos misturadas com claras e gemas. O homem surtou novamente, ríspido exigiu que ela fosse embora imediatamente de seu apartamento. Ela ficou em choque, atordoada recolheu seus apetrechos e saiu rapidamente olhando por onde pisava.

E assim foi. Uma hora ele era um cavalheiro, amável, carinhoso e em outra, grosso e truculento. O filho almoçou com eles e sabiamente diagnosticou que o cara era bipolar, pediu a mãe para se livrar dele. Uma amiga contou-lhe que o dito escritor aprontou horrores nas livrarias e com os agentes literários, sentiu-se aliviada por não estar presente, pois iria sobrar para ela.

Até hoje o escritor de livros de autoajuda manda mensagens românticas para ela como se nada tivesse acontecido. Diz que se sente solitário e incompreendido e pede que ela vá morar com ele no sul. – Jamais! Diz sorrindo da situação. Estou fora de morar com um cara que não te permite ter opiniões próprias, que não gosta de ser contestado, uma hora é um gentleman e noutra é um mal educado. Ele é que precisa de ajuda com urgência. Não dá para entender, como um cara pirado como esse fica escrevendo livros de autoajuda como se fosse uma pessoa equilibrada, de bem com a vida.

Ela tem dois na coleira, um é sem dúvida um espetáculo, afirma categórica. Na cama é um guerreiro faminto, fora dos lençóis é um sapo, feio, sem eira nem beira. O moço é o verdadeiro malandro, bom de cama, bom de garganta e ruim de dinheiro. Ela ficou tão entusiasmada pelas trepadas magnificas do cara, que não resistiu e o chamou para um fim de semana em sua casa. Vendo o requinte da companheira, ele se prontificou a mudar para a casa dela e ser o seu serviçal na loja de decoração. Como ela não é nada boba descartou a oferta, mas não os encontros fortuitos e excitantes com o garanhão do brejo.

O outro moço é divertido e bem humorado. Quando foi conhecê-lo quase teve um troço, o cara era a metade dela, e olha que ela deve medir um metro e meio. Além do mais tinha um corte esquisito no cabelo, algo como uma torre erguida sobre a sua cabeça. – Acho que o objetivo do baixinho era de parecer mais alto com o penteado, afirma sorrindo e olhando para os nossos rostos incrédulos. Após o impacto do primeiro momento ela relaxou, pois ele era bem humorado e um exímio contador de casos. Tornaram-se ótimos amigos, mas ele nunca perde a oportunidade de lhe dar beijinhos de liquidificador.

Ele é tão safado, que ao marcar com outra moça um encontro em um restaurante a convidou também para ir se encontrar com eles. Ela foi, e por debaixo da mesa ele ficava de mão dada com ela e por cima da mesa de mão dada com a outra. Topou a brincadeira, uma pequena contribuição para elevar a autoestima dele. Ela sempre que pode se encontra com o baixinho, diz se divertir com o seu bom humor, com seu alto astral e a forma descontraída de encarar a vida e a própria sorte.

Sabe sobre estes golpes que todos os dias saem na internet, ela quase caiu nele. O cara era um verdadeiro sedutor, bonito, jovem e atraente. Foi conquistando-a com mensagens copiadas da internet, com historias de solidão e abandono, com a necessidade de encontrar uma mulher que o fizesse feliz e tal e tal. Ela caiu de boca, encantou-se com o rapaz. Ele mandou fotos de um iate e a convidou para fazerem um cruzeiro de uma semana com amigos. Cada um deveria pagar certa quantia pelo passeio, ela teria que depositar o valor do pacote em espécie na conta de uma amiga dele que organizava a viagem. Atraída pelo jovem e com as fotos do passeio que fariam, não se importou com o alto preço estipulado.

Quando estava separando a grana para depositar na conta da amiga dele, foi alertada pelo filho que o cruzeiro poderia ser um golpe. Ainda relutante enviou uma mensagem para ele dizendo que estava em dúvida se iria, era mais para testa-lo. O cara ficou uma fera, passou a pressiona-la de todas as formas, e quando percebeu que ela não cedia, passou a destrata-la. Vendo que o golpe não iria dar certo, agiu como um rato e sumiu antes que o barco afundasse. Hoje ri da situação, diz que se embarcasse na conversa dele, quando chegasse ao Rio, ela literalmente ficaria a ver navios.

A noite era dela, o assunto girava em torno de suas conquistas online. Tinha mais uma historia bizarra para contar, e essa não era de site de relacionamento. Estava em uma loja comprando uma roupa, quando um moço se aproximou e começou a dar sugestões de cores e modelos. Ela pensou que ele trabalhava na loja, mas não, o indivíduo era representante comercial. Conversa vai, conversa vem, ele a convidou para tomar um drinque à noite. Como ele era atraente ela topou.

A noite ele ligou avisando que não estava passando bem e que iria ficar no hotel. Ela preocupada com o cara retornou a ligação para saber se ele havia melhorado.  Ele disse que havia piorado e o mal estar estava aumentado. Ela se ofereceu para leva-lo no hospital em que ele era conveniado para ser medicado. Pegou-o no hotel e o levou ao hospital, lá chegando ele vomitou, colocaram-no em uma sala de observação.

De repente o cara fala que conhecia o homem que estava na cadeira ao lado.  – Tudo bem pensou, ele é de São Paulo, mas deve conhecer muita gente por aqui. Novamente ele a chama e diz que o outro homem que estava na sua frente também era seu conhecido, mas quando ele apontou para uma mulher do outro lado da sala e falou a mesma coisa, ela percebeu que ele estava pirando. Chamou a enfermeira e disse que o paciente estava confuso, falando coisas sem nexo. Imediatamente chamaram o médico e o levaram para o CTI, o moço estava enfartando.

Ela teve que se responsabilizar pela internação dele e ficar a noite inteira no hospital, porque o médico lhe deu um sabão quando ela quis ir para casa descansar. O moço ficou quatro dias no hospital, e nesse meio tempo descobriu que o enfartado era casado e pai de dois filhos. Ele até hoje a agradece por ter-lhe salvo a vida, tudo devido à escapulida extraconjugal que faria, ou faz sempre que viaja.

Rindo da situação trágica que passou, ela acha que foi algo programado por Deus, pois se o cara passasse mal quando eles estivessem num amasso seria muito pior, extremamente constrangedor. Perdeu um paquera, perdeu um final de semana, mas ganhou um desconto dos seus pecados quando for para o céu.

Para finalizar ela está se ajeitando com um paulista que conheceu no site. Ele é consultor e a ajuda na loja dando dicas e orientações de venda nessa época de crise. Pela foto ele é muito feio, já se encontraram duas vezes, e nas duas ele estava com problemas de coluna e não rolou nada. Ele continua mandando mensagens safadas, apimentadas e vídeos proibidos para menores de cinquenta anos.

Ela fala que se juntasse a safadeza dele, o humor de um, a beleza do outro e a quentura do feioso em um só homem, ela teria o seu par perfeito. Afirma que vai continuar na batalha, na procura de um companheiro, garimpando, garimpando, mas enquanto isso vai se se divertindo, pois ainda sonha que dará uma bela festa, com muito requinte, para comemorar uma nova união.

 

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Publicado em 2 de agosto de 2016 por .
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