Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas Parte 5 – Heide

Começarei contando o que se passou comigo há dois dias quando chegava a minha casa.

A dor no estômago começou novamente, por coincidência foi logo após o táxi parar em frente ao meu prédio. Despedi de minha amiga, esperei o carro arrancar e entrei no meu apartamento.

A sala estava escura e mal dava para distinguir as cores dos móveis. Acendi a luz e olhei para o relógio na parede, dezessete horas. Estava claro lá fora e ali dentro escuro. Cheguei até a janela e abri as cortinas para que a luz voltasse a invadir e alegrar a sala novamente. Tudo estava em ordem, a televisão estava desligada, foi a maior que encontrei na loja, queria conhecer o mundo pela telinha. Viajo de mãos dadas com o repórter e, muitas vezes, sinto como se realmente estivesse lá, me teletransporto para aqueles lugares lindos, onde experimento alimentos exóticos, me encanto com as paisagens e com as pessoas.

O meu marido não gosta de viajar, acaba que fico refém de filhos que sempre optam de ir para cidades a beira mar, o que não é a minha praia. Agora que temos condições de passear, ele alega cansaço, preguiça, cria tanto caso que desisti, me conformo vendo o mundo sentada na poltrona.

Respirei o ar puro que entrava pela janela e fui em direção ao meu quarto, segui pelo corredor escuro onde todas as portas dos cômodos estavam fechadas. Entrei no quarto e puxei as cortinas, quando avancei em direção a janela para libertar o ar pesado que me sufocava, avisto o meu marido sentado na poltrona com uma cara enfezada. Primeiro me repreendeu porque havia ficado na rua mais de duas horas e, segundo, porque estava abrindo as janelas e ele não iria fechá-las mais tarde.

Nervosa e cansada com as reclamações de sempre fui falando:

– Eu já havia lhe dito que iria ao cinema no centro da cidade. O filme é de duas horas, mais os transtornos para conseguir pegar um táxi fizeram com que demorasse um pouco mais. Quanto às janelas, quase todos os dias você as fecha lá pelas quatro horas da tarde. É um horror! Fica tudo escuro em plena luz do dia. Eu já te pedi milhares de vezes para deixar que eu as feche após as seis horas.

Ele nervoso, me olhou firme e disse:

– Depois não me venha pedir para ajudá-la. Quando sou útil, você me chama a atenção, como se eu estivesse fazendo uma coisa errada.

Eu ia retrucar, mas percebi que estava ali discutindo com o meu marido por algo que já virou rotina nas nossas brigas. Acabara de assistir a um filme tão interessante, porque estragar a tarde com brigas tão tolas.

Tirei os sapatos e senti um alívio de não ter mais nada me apertando. Sentei no banquinho em frente a penteadeira e comecei a passar calmamente os dedos nos meus cabelos. Acaju, bonita cor a que eu escolhi para esconder os meus cabelos brancos. Desde nova os fios brancos teimam em aparecer. Já os tingi de preto, loiro, marrom, castanho e só depois dos cinquenta anos é que descobri a cor ideal que combinasse com o meu tom de pele. Gosto também do corte, curto e elegante. Quanto ao meu corpo, ele é bem delineado, sei que deixo muitas moças e senhoras se ardendo de inveja das minhas pernas, sem nenhuma celulite e do meu manequim quarenta e quatro de curvas fartas. Há pouco tempo uma amiga me falou que eu escondo atrás da minha elegância um mundo de frustrações.

Agora, olhando o meu rosto refletindo no espelho penso nas palavras dela, acredito piamente que ela tem toda razão. Sou uma frustrada, fantasiada de vitoriosa, angustiada com a minha própria angústia. Queria ter feito tudo diferente, ter tido coragem de seguir nos estudos, ter procurado andar com os meus próprios pés sem depender dos outros, ou seja, do meu marido. Não sou a única que faz esse tipo de reclamação, mas desde que me conscientizei da minha sina, sinto essa angústia no peito.

Lembro-me que falei para o meu marido que queria estudar, ele alegou que eu deveria cuidar das crianças, elas não poderiam ser educadas por empregadas. Desistir sobre pressão. Alguns anos mais tarde quis novamente continuar os meus estudos, novamente um não, justificou dizendo que eu era mais útil cuidando da casa e da família. Vencida, enterrei os meus sonhos de estudar e ter uma carreira, de fazer algo que realmente me desse prazer.

Sempre fui dependente, principalmente de minha mãe, mulher possessiva e fiscalizadora. Casei-me aos dezoito anos com um homem viúvo dezoitos anos mais velho do que eu. Tive cinco filhos, sendo que a mais velha me matou de tristeza quando faleceu, um pedaço de mim foi com ela.

Sempre a disposição dos filhos, marido e pais, nunca me sentia dona de mim mesma, apesar de geniosa, sempre fui submissa à família e aos meus pais, característica de filha única.

Sonho com uma vida que sei que não terei. Viajar pelo mundo, respirar outros ares, mas como? O marido não tem pique para acompanhar-me. Vou sozinha ou com amigas a teatros, shows e cinema, me sinto viúva de marido vivo. A diferença muito grande de idade é uma merda. Parece que estou engessada, incapacitada de andar, só os pensamentos vagueiam descontrolados, perdidos e carentes de ação.

Quantas vezes ao ser apresentada a alguém perguntam se o meu marido é o meu pai. Ele finge constrangimento, mas depois sorri discreto. Percebo que ele, por ser mais velho, sente-se vaidoso em desfilar comigo como se carregasse um troféu, mas ao mesmo tempo ele se comporta como um pai, como se eu fosse uma jovem tola e dependente que precisa ser paparicada, e, ao mesmo tempo, dominada.

Hoje consigo me rebelar um pouco, acham que é da idade. Sinto como se houvesse um grito abafado me oprimindo o peito. É uma sensação estranha, como se tivesse medo de ser ouvida e as pessoas não entendessem o meu lamento. Culpa minha que me deixei dominar, me entreguei com medo de me aventurar e de me libertar das correntes que eu própria criei. Vejo que envelheci sem ter sido eu mesma, de ter vivido em função da família e me esquecido de mim, de ter deixado o tempo passar, e o que me resta é um vazio dentro da alma.

A fala da Heide nos deixou abaladas, gostaria de abraça-la e falar palavras de conforto, mas o que foi acordado era que não haveria nenhuma manifestação naquela sessão, pois essa seria a fala que está entalada na garganta de cada uma e precisava ser libertada sem interrupções ou reflexões. Aline pede a palavra, o grupo procura se acalmar para ouvi-la.

 

 

 

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Publicado em 29 de julho de 2016 por e marcado .
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