Vidas em contos

(por Rita Prates)

Uma noite sem compromisso

Ele surgiu do nada, primeiro num wattsapp com foto, por sinal estava muito bem, depois disse que tomou coragem e telefonou, ficou receoso de que ela não mais se lembrasse dele.

Disse que ela deixou marcas, sentiu saudades, que nesses longos doze anos ainda lembrava-se do seu sorriso vibrante, cativante, que lhe fizera tão bem. Depois contou de suas duas separações, e, por fim, que recordava cada momento que passaram juntos naquela noite única, inesquecível.

O encontro foi quando voltava para casa, resolveu parar em uma pequena cidade a beira mar. Conheceram-se na praia, tinham tudo a ver na maneira de encarar a vida, o mundo e sobre o que queriam para o futuro.  Ela nunca tinha tido um encontro furtivo, mas decidiu transgredir, dar uma driblada na moça certinha, cheia de regras, de preconceitos e se entregar a uma aventura passageira.

Ele recém-separado, ela separada por inteiro, talvez cortada ao meio devido à crise de um amor desfeito e das dores recentes. Um flerte para recuperar a autoestima, para lembrar que ainda estava viva e que podia atrair e ser atraída, nada demais, queria deixar se levar ao vento.

Deram-se as mãos e seguiram passeando pela praia vendo a noite chegar. No hotel deixaram os corpos caírem na rede da varanda, ficaram bebericando um vinho e falando de seus sonhos. Ela viu a lua iluminando o mar e se deixou levar ouvindo as ondas batendo na areia quando ele a beijou. O ambiente mágico conspirava para que tivessem uma noite brilhante como as estrelas.

Tinham que ser leves como o desejo de um simples encontro, sem compromisso, sem cobrança, sem um amanhã. Apenas uma noite de transa gostosa. As carícias foram deixando-a cada vez mais entregue, mais solta, mais vibrante. O vinho deu-lhe uma sensação de liberdade, de ousadia e de vadiagem.

Foi um sexo amoroso, seguiu como um balé suave deslizando no lençol macio. Havia harmonia, compasso, espera, havia brilho, ritmo, passos cadenciados, havia mãos que conduziam o espetáculo, que passavam pelos contornos das pernas, que apertavam os seios e os beijavam delicadamente, depois os corpos se encaixaram e se contorceram num vai e vem de posições até tombarem exaustos, saciados e entrelaçados no palco do quarto.

Para ela foi uma conquista, conseguiu romper regras, se entregar sem culpas, tornando-se mais dona de si. Partiu no outro dia, seguiu o seu caminho de volta sem nunca mais se falaram. Ele ficou para trás, mas durante esses anos, disse-lhe ao telefone, nunca deixou de pensar naquela noite de total prazer.

– Melhor não nos encontrarmos, ela falou-lhe com ternura. – Tivemos o nosso momento, foi intenso, mágico, mas não vamos quebrar o encanto. Estou casada e com dois filhos, sou feliz, espero que também encontre a sua felicidade.

Desligou o telefone, sorriu com malícia ao lembrar-se daquela noite de entrega e deleite, olhou-se no espelho da sala, fez biquinho e mandou um beijo para o passado.

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Publicado em 26 de julho de 2016 por .
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